sábado, 22 de agosto de 2015
No caminho da escola.
Quando o grupo escolar foi fechado e os internos foram transferidos pro Attiê,só foi trocado o local da baderna, pra chegar na escola se fazia necessário uma boa caminhada.
À princípio, todos seguiam a estrada da horta, beirando o lago do 24, se seguia uma estrada de barro que tinha do seu lado esquerdo a horta do japonês e do direito uma plantação de mamonas, paralela à avenida Eiras Garcia, ao contrário da avenida, essa estrada tinha uma uma leve inclinação e os internos chegavam pelo fundo da escola.
O colégio tinha uma grande área geográfica, seus pavilhões eram distribuídos de forma aleatória, em alguns caso, a distancia de um pavilhão a outro não se fazia em menos de 40 minutos de caminhada.
E então, meninos do 20 ficavam parados no grande Carvalho da encruzilhada, pra esperar a turma do 11, nesse meio tempo, outras turmas se juntavam ao bando e partiam pela estrada, na hora da volta, o processo se repetia, ficavam esperando o grupo crescer do lado de fora da escola e iam de volta pros pavilhões, geralmente fazendo guerra de mamonas ou cantando, na encruzilhada do Carvalho, cada turma seguia o seu caminho.
À certa altura desse tempo, a Eiras Garcia foi pavimentada e a ordem nova era que todos tinham que ir pra escola nesse novo percurso, agora o caminho tinha que ser pela portaria do seu Felipe e seguido pela calçada que beirava a avenida, e a espera agora se dava na frente da portaria, quando a turma estava grande, partiam todos pra escola nova.
Mas, todos sabem que muito menino junto sempre dá o que não presta.
O seu Valdemar era sapateiro e morava quase vizinho ao E.D.D, alguns meninos associaram os sapatos à carne e perguntou pro homem se ele vendia carne, o homem era bruto e respondeu à altura:
_Carne é a PQP, seu abusado.
A reação dos meninos foi imediata, muito riso e em seguida veio a galhofa, daquele momento em diante, os meninos passavam pela sapataria e gritavam"Carne" até o homem aparecer, quando ele aparecia, gritavam em couro e corriam pro E.D.D.
Já cansado de ser atormentado pelos guris, um dia armou-se de uma garrucha e ficou esperando, quando os meninos passaram, brandiu a arma no ar e mandou que eles gritassem, se tinham coragem.
Ouve um silêncio, os meninos enfim tinham perdido, o seu Valdemar falou poucas e boas, os meninos ouviram em silêncio, silêncio coagido.
Certo da vitoria, o seu Valdemar entrou na venda, depôs a arma embaixo do balcão, a turma estava lá, parada com o sol em seus rosto.
Com a sensação de quem tinha vencido uma guerra, o homem jogou os cotovelos no balcão e olhou pro céu.
Ao vê-lo desarmado e com ar de paisagem, riram, gritaram "CARNE" e correram pra portaria.
O seu Valdemar era pai da minha grande amiga Verônica.
sábado, 27 de junho de 2015
Fotos dos meus filhos, no Educandário Dom Duarte
Na lateral do 14.
na lateral da igreja
Na escada da igreja
No páteo do 14
No jardim do teatro
Na frente da administração
Eu e a Angela na frente da administração
No caminho do Senai.
No Cenáculo
Na subida da igreja
Na jaqueira do 14
A fanfarra do E.D.D
Nos tempos
de adolescente no E.D. D, apenas três coisas davam status pra um pivete:
Sair com uma mina show, jogar no dente de leite e tocar na banda...
não, necessariamente nessa ordem.
A primeira eu estava engatinhando, mais cedo ou mais tarde ia
rolar, a segunda foi difícil, mas eu, o Viana e o Feliz conseguiram e foram
babando, juntos, pra fanfarra.
Pegamos uma época de declínio, muitos dos feras já haviam
saído e o comando estava sendo trocado, nem fazíamos ideia que estávamos
participando do capitulo final, os últimos acordes do orgulho do Educandário Dom Duarte.
O Feliz e o Viana, que já tinham uma habilidade musical se sentiram à vontade, um pegou a caixa e o outro pegou um surdão... e eu ???Jogaram-me uma marimba nos braços e quando me perguntavam que instrumento eu tocava, na maior, eu respondia:
_De tudo um pouco.
O Zé Almir já era veterano, tocava o bumbo, ensaiava do meu lado, fazia uma graças com as baquetas, rodava-as nas mãos e batia... Ah que inveja do Zé !!!.Geralmente ele era desajeitado, engraçado até, mas ali era senhor de si, e eu com a minha marimba.
A fanfarra ficou sem comando, o João Beline, que era marida da professora Íris e pai da Ilka, minha amiga se ofereceu pra comandar.
O Feliz e o Viana, que já tinham uma habilidade musical se sentiram à vontade, um pegou a caixa e o outro pegou um surdão... e eu ???Jogaram-me uma marimba nos braços e quando me perguntavam que instrumento eu tocava, na maior, eu respondia:
_De tudo um pouco.
O Zé Almir já era veterano, tocava o bumbo, ensaiava do meu lado, fazia uma graças com as baquetas, rodava-as nas mãos e batia... Ah que inveja do Zé !!!.Geralmente ele era desajeitado, engraçado até, mas ali era senhor de si, e eu com a minha marimba.
A fanfarra ficou sem comando, o João Beline, que era marida da professora Íris e pai da Ilka, minha amiga se ofereceu pra comandar.
Se dava status pros meninos, imagine como era pra um adulto,
comandar a maior e melhor fanfarra de São Paulo, não deu outra, o seu João
ficou insuportável, com ares de muito importante.
O Francelino tocava o trompete, um passo
do meu lado direito, de quando em vez desafinava, mas, quase não dava pra
perceber.
O Zé fazia seu habitual malabarismo, o
Francelino deu uma nota errada e eu na minha marimba esperando a minha hora, o
chefe da fanfarra se aproxima e fica do meu lado, de ouvidos atentos, o
Francelino dá uns acordes perfeitos, o Zé castiga o bumbo e o faz de olhos
fechados, o trompete desafina só um pouquinho, o seu João tem dúvidas e chega
mais perto, minha vez de tocar a marimba... Tim, tim, dom, o chefe gostou e
sorriu pra mim, aproximou-se do Francelino, não ia perder o próximo acorde do
trompete, ao fazer isso fica muito perto do bumbo, inclina a cabeça, esperando
o Francelino soprar...
Antes mesmo que o Francelino tocasse, a baqueta
pesada o atinge em cheio o nariz, pulei pra trás, no espaço que eu deixei cai o
corpo do chefe da fanfarra... nocauteado, feito um lutador de boxe.
Sem se dar conta, o Zé rodava as baquetas
nas mãos e batia no bumbo.
quinta-feira, 21 de maio de 2015
Na Casa de Infância do Menino Jesus
Tudo tinha horário, depois do almoço um pouco de televisão e, logo subíamos pro dormitório. Hora de descansar a sesta, pra mim era hora de tortura, nunca me habituei a isso.
Deitávamos nas camas, jogávamos a toalha
de mão sobre o rosto "dormíamos" até as 14h00min horas, a Rúbia
passava por todas as camas, em revista, e sempre descobria que eu e Fernandinho
não estávamos dormindo e como sempre vinha o castigo, (castigo pra ela, pra nós
era uma compensação) mandava que nos levantássemos e nos dava um cesto de vime
ovalado, que servia pra acondicionar as roupas, tínhamos que descer até a
rouparia e pegar as roupas da troca.
Na saída do dormitório recolhíamos o tapete em forma de pé, que
ficava na entrada do banheiro, jogávamos-vos dentro do cesto, felizes da vida
cruzávamos o hall dos dormitórios e chegávamos às escadas, no começo da escada
púnhamos o cesto no chão, um de nós se sentava na frente, o outro o empurrava e
pulava pra dentro, o cesto descia carregando-nos e, apesar da felicidade, não
podíamos gritar.Até o térreo, contavam-se quatro lances de escadas e a cena se repetia, sempre trocando a posição dos navegantes, no último, onde se podia ver o bairro do Ipiranga pela janela, nos separávamos, um pegava o pezão e o outro ficava com o cesto.
O corrimão era largo, a pedra do
acabamento tinha cor de barro e era lustrado periodicamente, para alcançar o alto
do corrimão e se sentar na posição de montaria, um tinha que ajudar o outro,
fazia-se a posição de cadeirinha com as mãos e o outro punha um pé, um impulso
e pronto... sentava-se no tapete e se deixava escorrer, ao outro cabia descer
sozinho no cesto.
No térreo, um longo corredor com sete portas que levavam aos pátios,
no fim do corredor havia uma porta dupla azul que dava pra uma sala enorme, do
lado oposto ficava a cozinha, sempre se via as vovozinhas, pelo guichê aberto,
quando se entrava na sala, se deixava nas costas um grande relógio de pêndulo
que batia de três em 3 horas, (isso, por si só, já era assustador) mas não era só.
Ao lado do relógio, tinha uma moldura do Sagrado Coração de Cristo que
seguia-nos com os olhos, de qualquer local da sala se podia ver que a imagem
olhava direto pra si.
Nesse ponto, o fato de todos
estarem dormindo e nós nos divertindo, dava certo temor, passávamos ali correndo...
até a próxima escada, mais dois lances e chegávamos à rouparia, a Margarida
ouvia a sua rádio novela e sempre estava de mal humor, enchia o cesto com as
roupas ainda quentes.domingo, 17 de maio de 2015
A cobra do lago

A copa de 78, aquela que fomos garfados pela
Argentina, assistimos na sala do pavilhão 14, aquele ano fez muito frio, o chão
quadriculado de marrom e bege nos deixou marcas nossos traseiros. Os jogos
foram disputados à noite, então corríamos da escola pra chegar em tempo de não
perder um minuto de jogo, lembro que o Mattiole e o Dalcides discutiram no
recreio e chegaram mesmo a ficar beiço a beiço, numa atitude de vias de fato, o
padre Paulo chegou e separou-os, agarrado pela turma de deixa disso o Dalcides
gritou em tom ameaçador:
_8 e 15.
Isso equivalia a uma marcação de briga na saída, posto que, o término
das aulas se dava nesse exato horário, nos corredores começou o alarido,
conversas e expectativas por conta da briga.
O grande problema é que era... Quinta-feira,
logo mais o Brasil iria enfrentar a Áustria. É lógico que quando o sinal das 08h15min
bateu, todos correram, pros seus pavilhões e nem se deram conta da briga marcada.
O fato é que o Dalcides e o Mattiole nunca brigaram e ninguém mais tocou no
assunto.
Ruim mesmo era ser criança e ter
que aguentar, durante o jogo, as sandices do Seu Odilon. Na cabeça dele, a
culpa toda foi do goleiro Leão. Quando o guarda metas da seleção fazia uma
defesa, ele gritava:
_Esse Lião é muito macho.
Quando ele tomava gols, o grito era
outro:
_Esse Lião é um méida.
A culpa mesmo eu colocava no
Claudio Coutinho, que bateu o pé e não levou o Falcão.
Nos dias seguintes tinha uma
narrativa diferenciada do jogo, ela era feita pelo Lucídio, um neguinho que
gostava de contar histórias e interpretar aventuras, usava uns sapatos de bico
fino e calças pula brejo, sua figura lembrava o personagem do Al Jolson no
"Cantor de Jazz", com uma diferença, o ator se pintava e o Lucídio
era daquela cor mesmo. Sempre que o neguinho se apresenta, todo mundo parava,
ele fazia vozes diferentes, quatro ou cinco vozes, que conversavam entre si... um
show mesmo, ele jurava que iria trabalhar na televisão.
O preferido de todos era o Carlitos
do Chaplin, fazia isso com propriedade e por força do hábito, devido á um
problema nas pernas, andava sempre com ela fechadas e quase não conseguia dobra-las.
Por conta disso, não podia ser
utilizado no eito, não dava conta de carpir por muito tempo e como esse era o
castigo predileto do Seu Odilon, ele se vingou.
Pra indignação de todos, foi
mandado para trabalhar na olaria, onde eu trabalhava, todos os menores do 14 me
pediram pra tomar conta dele, alguns me ameaçaram se não o fizesse.
Fui no primeiro dia com ele, demos
a volta na horta do japonês, já que a descida do campo era muito declive pra
ele, isso aumentava o meu percurso uns 800 metros, fui o caminho preparado pra
brigar, se alguém se metesse a besta. Mas qual, a simpatia do neguinho era
fatal, em alguns minutos, já havia feito o que eu demorei umas semanas e já o
seu público havia aumento, na hora do descanso ele já mostrava a sua arte.
Na volta, eu tinha que andar no
passo curto dele, passávamos um descampado que levava ao lago, a mata à
esquerda e o canavial do 11 à direita, seguia-se um pequeno pântano e chega-se
ao lago da horta e uma bifurcação, à direita chegava o campo do 14 em frente à mata.
Nesse ponto, corria entre os meninos a lenda de uma cobra gigante que andava
por aquelas paradas, dificilmente um guri não sentia arrepios nessa bifurcação.
Em dias de chuva, devido à lama que
se formava na estrada o neguinho não conseguia subir o barranco da horta e eu
tinha que empurrá-lo morro acima. A cena era muito engraçada, toda aquela lama,
eu com os chinelos nas mãos, escorregando e empurrando o Lucídio, eu gritando
pra ele colaborar e ele se acabando de rir. Quase sempre ficavam uns gaiatos do
outro lado do campo, no barranco do mandiocal, eles sempre assistiam a cena e
chamavam os outros meninos pra assistir, quando chegávamos no pavilhão
estávamos cobertos de lama vermelha.
Por essa época o Roda estava com o
habito de caçar cobras, pra vender ao Instituto Butantã e eu fui a umas
expedições que ele fazia na mata e até inventei um cabo no bambu oco que
prendia a cabeça da cobra, mantendo-a longe.
Um dia na saída, quando já
íamos entrar na curva da horta, ouvimos um barulho na vegetação, voltamos e
avistamos uma cobra enorme que media uns bons 12 metros, o Lucídio tremia de
medo eu estava fascinado, nunca imaginei ver uma daquele tamanho, se afastava
lentamente na direção do lago. Resolvi que ia segui-la, pra saber onde era o
esconderijo, mais tarde eu chamaria o Roda.
O neguinho ali parado, eu disse:
_Fica aí mesmo que eu já volto.
E me apressei à bruta já estava longe...
muito lenta se encaminhou e quase desapareceu nas touceiras, sem fazer barulho
continuei na espreita, na parte sombreada do lago havia uma enorme seringueira,
embaixo da arvore um buraco onde ela entrou muito devagar, quando metade do
corpo dela havia passado, escutei uma correria atrás de mim, eram os amigos
Chumbinho, Téquinha e Viana vinham gritando e ao avistar metade da cobra
silenciaram, ficamos os 4 olhando.
Ao final da cena o Viana me deu uma
piaba:
_Tá maluco moleque?
Voltamos pro caminho, imaginei que
o Lucídio devia estar em pânico... mas, espera aí_disse eu.
_Como foi que vocês chegaram tão
rápido?
_O Lucídio chegou correndo, dizendo
que você estava em perigo... Não terminou a frase, desatou a rir, eu e os
outros caímos no mato de tanto rir.
O Lucídio, que não conseguia andar,
acabara de quebrar a barreira do som.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
A paisagem da estrada
Um dia, pela manhã, enquanto esperávamos dar 6:00 horas e o seu Deoclécio abrir o portão e a gente poder voltar pro lar 22, o Dooley disse que tinha medo de dar mancada na minha frente, disse que tinha certeza que eu ia escrever tudo aquilo.
Sei lá, na época eu não tinha a menor intenção de fazê-lo, pra falar a verdade, eu nem sabia que ia viver tanto tempo, nesse tempo, a gente estava chegando de um baile, frequentar bailes nessas madrugadas era arriscar a vida, é claro que passamos maus momentos, porém, perigo mesmo eu corria uns tempos antes.
Na inquietude da minha adolescência, eu achava que não tinha nada a perder, sabendo do perigo que corria, eu, o Miguel e o Satírio nos filiamos ao partidão, frequentávamos as reuniões e saboreávamos da cartilha de Marx, no meio de todos os frequentadores daquelas reuniões clandestinas, eramos os mais jovens, fazíamos aniversários no mesmo mês, com diferença de dias de diferença, em 1979, completaríamos 12 anos, na ficha de filiação, constava que faríamos 15, as estudantes jamais se interessariam por nós, se disséssemos a verdadeira idade.
Na ocasião, apareceu uma viagem à Mariana-MG, se não me falha a memória, apoiar a greve do sindicato dos fabricantes de vidro.Sem termos qualquer tipo de renda, para garantir o preço da passagem e sem ter um pai pra patrocinar, recorri ao seu Tinoco.
Esse, protestou, falou grosso, gritou, bateu na mesa e tudo e, por fim, me deu um maço de cruzeiros, amarrado por um elástico e dentro d'um envelope, quando eu o abri, tinha dinheiro suficiente para alugar o ônibus todo só pra nós.
O ônibus em questão era tão velho quanto o do Educandário, portanto, houveram algumas paradas no caminho, numa delas, fomos beneficiados com um lindo por-de-sol, nós 3 ficamos apreciando uma casinha num vale de montanhas e, enquanto o sol baixava, por trás das pedras, as cores iam se modificando, até ficar azul e cinza.
Antes que chegássemos ao fim da viagem, fomos parados pela polícia e fizemos o que todo interno do E.D.D fazia com maestria, corremos muito e rápido, os 3 juntos, só nos desapartamos quando já não ouvimos mais tiros.Nessa noite, antes de nos render ao sono, na traseira de um caminhão que voltava pra São Paulo, nossas orações foram todas pro capitão Pazelli, que nos ensinou a correr.
E não voltamos de imediato, deu pra ver um show do Lô Borges, no caminho.
Dois dias depois, enquanto jogávamos rebatida no campão, o Satírio desceu com o cavalete, a tela e as tintas, instalou o cavalete e se sentou na cadeira, mandou o pincel na tela, achamos que ele ia nos imortalizar na tela, jogando bola, enquanto ele pintava, olhava pra nós e fechava os olhos.
Meia hora depois, chamou por mim e pelo Miguel, fomos olhar a tela e tivemos uma grata surpresa.
Ele havia reproduzido, com riqueza de detalhes, a paisagem da estrada, tinha até as mudanças de cores acima das montanhas.
Era mesmo genial, o amigo Satírio.
Sei lá, na época eu não tinha a menor intenção de fazê-lo, pra falar a verdade, eu nem sabia que ia viver tanto tempo, nesse tempo, a gente estava chegando de um baile, frequentar bailes nessas madrugadas era arriscar a vida, é claro que passamos maus momentos, porém, perigo mesmo eu corria uns tempos antes.
Na inquietude da minha adolescência, eu achava que não tinha nada a perder, sabendo do perigo que corria, eu, o Miguel e o Satírio nos filiamos ao partidão, frequentávamos as reuniões e saboreávamos da cartilha de Marx, no meio de todos os frequentadores daquelas reuniões clandestinas, eramos os mais jovens, fazíamos aniversários no mesmo mês, com diferença de dias de diferença, em 1979, completaríamos 12 anos, na ficha de filiação, constava que faríamos 15, as estudantes jamais se interessariam por nós, se disséssemos a verdadeira idade.
Na ocasião, apareceu uma viagem à Mariana-MG, se não me falha a memória, apoiar a greve do sindicato dos fabricantes de vidro.Sem termos qualquer tipo de renda, para garantir o preço da passagem e sem ter um pai pra patrocinar, recorri ao seu Tinoco.
Esse, protestou, falou grosso, gritou, bateu na mesa e tudo e, por fim, me deu um maço de cruzeiros, amarrado por um elástico e dentro d'um envelope, quando eu o abri, tinha dinheiro suficiente para alugar o ônibus todo só pra nós.
O ônibus em questão era tão velho quanto o do Educandário, portanto, houveram algumas paradas no caminho, numa delas, fomos beneficiados com um lindo por-de-sol, nós 3 ficamos apreciando uma casinha num vale de montanhas e, enquanto o sol baixava, por trás das pedras, as cores iam se modificando, até ficar azul e cinza.
Antes que chegássemos ao fim da viagem, fomos parados pela polícia e fizemos o que todo interno do E.D.D fazia com maestria, corremos muito e rápido, os 3 juntos, só nos desapartamos quando já não ouvimos mais tiros.Nessa noite, antes de nos render ao sono, na traseira de um caminhão que voltava pra São Paulo, nossas orações foram todas pro capitão Pazelli, que nos ensinou a correr.
E não voltamos de imediato, deu pra ver um show do Lô Borges, no caminho.
Dois dias depois, enquanto jogávamos rebatida no campão, o Satírio desceu com o cavalete, a tela e as tintas, instalou o cavalete e se sentou na cadeira, mandou o pincel na tela, achamos que ele ia nos imortalizar na tela, jogando bola, enquanto ele pintava, olhava pra nós e fechava os olhos.
Meia hora depois, chamou por mim e pelo Miguel, fomos olhar a tela e tivemos uma grata surpresa.
Ele havia reproduzido, com riqueza de detalhes, a paisagem da estrada, tinha até as mudanças de cores acima das montanhas.
Era mesmo genial, o amigo Satírio.
domingo, 28 de dezembro de 2014
A pichação.
Entre os anos 79 e 80, havia entre nós uma
incontestável insatisfação com a política, mas, eu e meus amigos, éramos crianças...
pouco, podíamos fazer.Na estrada que levava ao cenáculo, eu enrolava a linha na
lata(com todo o cuidado para não embolá-la), o Viana, com toda propriedade,
trazia um pipa que fora aparado pela rabiola, nisso ele era mestre.
Eu não sabia empinar, nem fazia questão de
aprender, gostava de pô-lo no ar e, ficava olhando, vendo os movimentos, pura
liberdade, o amigo Viana era o oposto da moeda, tinha habilidade pra confeccionar
as mais lindas pipas e os manobrava com tal maestria, que, nunca o vi perder um
centímetro de linha, bastava olhar prum adversário e, em questão de minutos, já
havia cortado e aparado, costumava dizer que, só as pessoas que ele permitia,
tinham direito de empinar no seu espaço aéreo.
O toca-fitas ficava embaixo de uma
arvore, bem na curva da estrada, a voz do Milton cantava "Olho
d'água", o Viana gostava da sonoridade das músicas do Clube da Esquina,
vendo que eu tinha dificuldades em desenrolar a linha, foi me ajudar.
_Esses nomes... Todos tem um
sentido escondidos, né?
_É, são pessoas que morreram ou
desapareceram na luta.
E, como eu era o outro lado da
moeda, tinha a inteligência, que os meninos não costumam ter nessa idade.
_Cuidado pra não ter seu nome numa
canção dessas.
Nessa altura, não fazia sentido
esconder do amigo, que eu frequentava reuniões clandestinas do partidão, o
Miguel e o Satírio eram os acompanhantes nessa luta, o Viana que não ligava pra
política, disse que ia me proteger, dizia que tinha uma dívida comigo, já que
eu havia conseguido o que a escola julgou impossível... alfabetizá-lo.
Embarcamos nessa aventura, isso era muito mais que roubar frutas
do Bráulio ou passear no Taboão da Serra, no lombo dos cavalos e, muito mais
perigoso.
Um dia, meu amigo Rogério (que
todos chamavam de Punk) deu-nos, em troca de seis pipas, duas latas de tinta
spray, ficamos doidos para usa-las.
Nessa época, o ônibus da Castro
fazia o itinerário da Praça da Bandeira, depois de passar em Pinheiros, pegava
a Avenida Brasil e seguia até a Nove de Julho... Na avenida Brasil, perto da
igreja da Nossa Senhora do Brasil, haviam umas mansões abandonadas, resolvemos
que ia ser ali que deixaríamos a nossa marca, o Satírio e o Miguel roeram a
corda, sabiam que por esses lados residiam muitos militares e fomos só eu e o
Viana.
Levamos as latas numa mochila
verde, dessas que os recrutas ganhavam no exército e vendiam pros civis,
descemos em Pinheiros, na Faria Lima e seguimos a pé, se tivéssemos que ser
parados, seria nesse percurso, tinha que ser uma que se visse da avenida, essa
tinha uma cerca gigante com pontas de lança, escalamos e nos jogamos pra
dentro, enquanto eu me escondia no jardim e via o movimento, o Viana abriu a
mochila e tirou as latas, ficou com uma e me deu a outra, ele montou guarda,
corri até a parede frontal e escrevi: ABAIXO, corri pro muro e o Viana foi
escrever o resto da frase, lá fora, uma pessoa que passava no ônibus gritou, o
Viana chegou ao meu lado, preparávamos para pular o muro de volta, quando olhei
pra parede... que merda, o neguinho havia escrito DITADORA, corri pra parede,
fiz duas riscas cruzadas em diagonal e escrevi a palavra certa, pulamos as
lanças de volta e ganhamos a rua, jogamos as latas ao lado de uma árvore, o
Viana não quis dispensar a mochila, subimos até a Rebouças e seguimos, antes de
chegar na metade do quarteirão, fomos emparelhados por uma Veraneio preta e
vermelha:
_Encostem-se à parede!
Viramos pra parede e colocamos as
mãos na nuca.
_Quais as idades?
_Eu tenho 12 e ele tem 13_Disse eu,
o Viana estava petrificado de medo.
Mandaram e entramos no camburão, a música do Milton me veio à
mente, será que ele faria uma, com o meu nome?
Ficamos em silencio toda a viajem,
o carro parou, mandaram que pulássemos e pulamos pra fora, olhamos e conhecemos
o local, era o ponto da FOSECO, na Raposo Tavares, meio caminho do E.D. D,
assim que chegamos ao banco do ponto, eles ligaram o carro e foram embora.
Ficamos em silencio parte da viajem
e, do nada, o Viana gritou:
_Que porra que foi isso?
Sem saber o que dizer, dei de
ombros e disse:
_Sei lá, nosso anjo da guarda fez
hora-extra.
_Moleque, vou sempre andar com
você, você é um filho da mãe mais sortudo do mundo.
E, ninguém entendeu nada, dois
guris rindo com gosto.
Quatro dias, foi o que durou a
pichação na Avenida Brasil, mas, todos os nossos amigos viram.
Dias depois, quando íamos pro
centro, vimos, no muro do cemitério da Consolação a palavra DITADORA riscada e
corrigida, caímos na gargalhada.
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