terça-feira, 30 de setembro de 2014

O destino

  Conheci a Angela em 1982...
  Não me lembro a data exata, só sei que era aniversário do Cesar, era férias escolares e, pela manhã, eu tinha comprado uns LPs de Black músic...uns The Floaters, Commodores, Bernard Wright e Jimmy Bo Horne...umas coisinhas que combinavam com o meu estilo.
  E estava muito metido mesmo, me convidaram prum baile no Luis Elias Attiê, é claro que fomos, eu o Viana e o Dooley, 3 caras livres de black levantados à custa de laquê, sapatos de 2 cores e pizzas nas barras das calças...SHOW.
  Quando pusemos a cara na sala, onde se dava o baile demos meia volta, o passo foi quase coreografado, não dava pra acreditar que o som que saia da sala era Patrick Dimon... puts, aquilo foi como uma ducha de agua fria, eu vinha com as bolachas debaixo do braço falei:
  _Bóra tomar conta do som.
  Voltamos, chegamos e ordenamos que o guri que passava o som descesse o mais rápido possível, aquilo era serviço de homem, meti a mão na agulha e tirei aquele som mela-cueca, pra principiar a matança, peguei um disco chamado ...And now Funk, nem escolhi a faixa, assim que a música inundou o ambiente os meninos gritaram, o guri que fora demitido foi o primeiro que gritou, pulou pro meio da pista e todos o seguiram, meus dois amigos mandaram os caras que cobravam o ingresso na porta ir passear, cobraram uns ingressos e depois liberaram a entrada.
  Cesar, nosso amigo dos bailes da Chic Show, apareceu e disse que estava dando um baile mais tarde, pra comemorar o seu aniversário, os caras do Educandário Dom Duarte, estavam convidados.
  Depois de encerrar no Attiê, passei no Educa, pra trocar de roupa e arrumar o black, descemos pra Osvaldo Libarino, que na época se chamava Antonio Luis Vieira, onde morava o Cesar, o Biá e o Betão.
  Quando chegamos na casa do Cesar, ele me apresentou a irmã Rosangela, que estava acompanhada de uma amiga, cumprimentei a Rosangela, olhando pra amiga, quando peguei na mão da amiga, segurei com toda a calma do mundo, os 3 beijos foram demorados, senti que ela enrúbreceu, as pessoas à minha volta falavam, eu não ouvia nada, meus olhos procuravam os dela, que fugiam.
  O baile foi na sala, o Cesar controlava o som do quarto dele, reparei que ele tinha a coleção de discos parecida com a minha.
  _Ficou afim da mina, né?!?Xiii, essa é difícil.
  Peguei o disco do Jimmy, mostrei a faixa e pedi que ele jogasse essa, fui pra sala.
  O DJ esperou o instante de acabar o Roque samba, olhei pra moça, quando a música começou, o Djalminha ameaçou seguir na direção da mina, pus a mão no ombro dele, não precisei dizer nada, ele saiu do caminho, dei uns passos e estiquei-lhe a mão direita, ela veio, em passos tímidos, meio com medo, pus uma mão na cintura e a outra no ombro, ao som da música a conduzi.
  E assim foi, esse seleção de lentas durou muito tempo, uma música atras da outra e eu não soltava.
  _E aí...vamos dar um rolê ?!?
  _Não, nem te conheço.
  _Olha pra todo mundo, eu sou o cara mais bonito que você já viu na vida.
  _Claro que não, você é muito metido.
  _Ó eu vou lutar, mas você podia economizar muito tempo de nossas vidas, já que, é o destino.
  _Que destino???Tá maluco???
  _Presta atenção...Nossa primeira filha vai se chamar Stephanie, os outros dois serão a mistura do meu escritor favorito.
  _ Quem é esse escritor???
  _Victor Hugo.
  _Você é maluco.
  3 meses depois, ela aceitou, num baile da Santa Barbara.
  O que é que deu???puts, ela acabou de acordar, me xingou, por estar à essa hora na internet.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Davi e Golias


Tudo o que eu sei de esporte e superação, aprendi no E.D.D, pra falar a verdade mesmo, quando fui pra rua, faltava muito pouco pra aprender.
  No Educa, me acostumei a ver o Davi derrubar o Golias, sempre o time menor que vence o maior, ou o corredor descalço superar o adversário muito bem aparelhado, passei a infância vendo e vivendo essa historia.
  Pra não perder a oportunidade de uma boa lembrança, vai a passagem nossa, num jogo no estádio do Ibirapuera:
  Mais uma vez nos aterrorizamos por ver, do outro lado do campo, os atletas do Cristo-Rei, primeiro pensamos que confundiram as categorias, os caras eram maiores, muito maiores.
  O professor Claudiney dirigiu-se a nós, na maior calma do mundo.
  _Não esquenta não...os caras são grandes, mas a bola é redonda e as traves tem o mesmo tamanho,,,pros dois lados._saiu rindo, como se fosse um mestre chinês.
  Como se aquilo fizesse algum sentido.
  Ainda no primeiro tempo, bati uma falta, joguei a bola na gaveta(nisso eu era bom), o professor, que nesse momento saboreava um sanduba, gritou com a boca cheia:
  _tá vendo aí, ele é grande mas não voa!
  Incentivado por isso, ainda que, não fizesse o menor sentido, fomos pra cima e vencemos o jogo
pelo placar de 7 x 0, ao final do jogo, o goleiro quis conhecer o autor do gol de falta, me cumprimentou e disse:
_ Eu sabia que quando vocês começassem a jogar bola, seríamos massacrados.
  Fiz com os ombros que não tinha entendido e queria saber o porque da afirmação, na maior tranquilidade ele falou:
  _Vocês são do Dom Duarte, vocês são assim.
  E saiu, nesse momento, o resto do time do Cristo-Rei cercava o Pelézinho, o neguinho tinha feito uma partida perfeita, assinou 4 gols, deu duas assistências e sofreu a falta que eu converti.
  Cresci à sombra disso, ou essas coisas me fizeram crescer, sai do colégio e me tornei adulto, mas fiquei por perto, sempre que podia entrava e matava saudades da minha casa.
  Por ser vizinho do colégio, meus filhos passaram a frequentar as aulas no grupo escolar e na Ozem.
  Nessa época eu já havia montado a minha agremiação, metade dos alunos do ginásio jogavam nela, num belo dia, por não ter um professor de Educação Física, a diretora me convidou para montar um time e disputar os jogos escolares.
  Não hesitei, aceitei na mesma hora e com o entusiasmo de quem vai reviver um sonho.
  Mas os tempos eram outros, pude ver nos olhos dos internos, assim que se apresentaram, esses meninos eram falastrões, indisciplinados, mimados e arrogantes.
  Meu sonho se quebrou, com a prancheta na mão, olhei para o grupo, deu vontade de dizer à diretora que havia me arrependido, se não fosse pelos jogadores do Dínamo, que estavam ali também, eu teria feito, pensei que um jogo no comando desse time pudesse completar um ciclo, simbolicamente, eu devia...a mim e aos meus amigos de infância.
  Rezando pra a tortura acabar logo, me apresentei no dia do jogo, enquanto escutava as abobrinhas dos meus jogadores no aquecimento, o ônibus do colégio adversário chegou, dele desceram uns guris escurinhos e tímidos, todos pequenos pra idade, olhei pro céu, que ameaçava escurecer naquele momento e entendi a ironia do destino...Eu não só havia crescido e virado adulto, havia me tornado o Golias, Aléx o meu fiel escudeiro, viu que eu tinha um sorriso de incredulidade no rosto e deu a estocada final, disse que aqueles guris eram alunos do Solano Lopes.Eu sempre fui admirador do trabalho de base da escola do Jd Boa Vista, dei de ombros e chamei meu time, passei as instruções, não ia tombar sem luta.
  Aqueles meninos pequenos deitaram e rolaram em cima do meu time, eu comandava os gigantes e torcia pro Davi, no fim do jogo entreguei a prancheta pra diretora, diante da pergunta se eu ia continuar no comando, fiz um silencio e não mais voltei.
  Como eu disse, não sou santo, me vinguei do Solano Lopes, meses depois, comandando o colégio Palmares.

sábado, 5 de julho de 2014

Em memória do amigo Betão.

  Era o ano de 80, inverno rigoroso, tanto que, me demorei pra decidir se ia ficar no pavilhão ou ia sair com os amigos, pegar um som, posto que, era sábado.
  Quando decidi, fui atrasado, o ponto de encontro era sempre o mesmo, sempre íamos pra rua Osvaldo Libarino, ali, na ponta da favela, juntávamos a turma e andávamos à cata dos bailes, lá moravam o Biá, o Cesar e o Galego. Quando cheguei, pude ver que, ao lado da pick-up Ford do Macalé, que já não andava há muito tempo, havia uma fogueira e 3 meninos se aqueciam nela, eram os dois Djalmas e o Betão.
  Os dois Djalmas eram internos do Educandário Dom Duarte feito eu, o Betão morava com sua família, gostava de uma boa piada e quando começava a rir, dava trabalho pra parar.
  Era daqueles sujeitos da paz, de boas amizades e muitas piadas, pra falar a verdade, já começava a graça na família... sendo filho de Santista e tendo 2 irmãos Corinthianos, a peça torcia pro Palmeiras, ou seja: piada, logo de testa.
  Quando me juntei a eles, era o que ele fazia mesmo, os outros 2 riam compulsivamente, perguntei onde estava a turma, ele disse que alguns tinham ido pra Flamengo, mas lá estava devagar, resolveram conferir o baile da Santa Barbara, perto do final do João XXIII, era assim que funcionava... o pessoal saia no rolê pelo bairro, cada grupo prum lado, depois todos se juntavam no melhor som, a gente podia ficar tranquilo, que dali à poucos, alguém viria dizer qual o melhor rumo.
  Enquanto ouvia as piadas do Betão, aquecia as mãos no calor da fogueira e dava uns goles no copo de vinho seco, que passava de mão em mão (à isso se dava o nome de "fazer a carioca").
  Enquanto ele falava, ajeitava o cabelo, para arredondar o black, os olhos verdes brilhavam no reflexo das chamas, chamá-lo de Betão já era uma piada, ele era menor que o irmão mais novo... o Rogério, a mãe tinha lhe dado o nome do rei Roberto Carlos e, é claro que isso era, sempre motivo de risos.
  Em toda a turma, ele era o único que não tinha diferença com ninguém, quando havia uma discussão entre os amigos, lá estava o Betão pra separar os desafetos.
  Ficamos nessa madorna um bom tempo, repentinamente, ouvimos uma correria, alguns meninos desciam a João de Lourenzo em desespero, foram ao nosso encontro, o Reginaldo ainda arfando perguntou da turma, disse que no meio do baile na Flamengo, o tal do Caveira havia prendido os nossos amigos, queria uma fita que ele não soube explicar.
  Caveira era um sujeito de maus bofes, que se denominava dono do Jardim São Jorge, o Pelézinho (12) e o Coquinho (24) estavam sob o seu controle, disse o Reginaldo (que era primo do Betão), se a turma não corresse, eles iam sofrer.
  Os Djalmas eram pivetes, eram corajosos, mas, pivetes... eu e o Betão nos entreolhamos e foi o Betão quem falou:
  _ É... Niltão, não vai dar pra escapar dessa não.
  Eu não falei nada, meus amigos estavam em perigo e, ainda que, fossemos o time reserva e a probabilidade de a gente tomar uma surra fosse grande... amigo é amigo.
  Enquanto percorríamos o caminho até lá senti a adrenalina explodir, pensava na briga, eu tinha 14 anos e boa estatura, os outros quatro eram baixinhos, tudo bem, eu teria que brigar por mim e pelos outros, e pensar que uma dessas eu estaria dormindo.
  Deu pra saber onde era o lugar certo pela música, tocava Bar Kays, ao nos ver, o DJ puxou a agulha do toca discos e ficou de costas, na defesa do aparelho de som.
  Ganhei a sala, os meus amigos atrás de mim, o Caveira saiu da cozinha, ela media uns 4 dedos a mais que a minha altura, usava óculos escuros, caminhou ao meu encontro, ergui os braços e as mão, em gesto de Angola, ele fez o mesmo, ficamos numa distância de menos de um palmo, um do outro.
  Quando eu ia começar o dialogo, o Caveira deu um pulo pra traz, os outros membros da quadrilha fizeram o mesmo, olhei pra traz e pude entender.
  Já do meu lado, o Betão gritava, com a mão direita enfiada nas calças:
  _Cadê os meus amigos???
  Nunca havia visto o meu amigo daquele jeito, parecia um psicopata, dois dos amigos do Caveira pularam a janela e sumiram na noite, enquanto ele gritava, pigarreava e piscava, até eu fiquei com medo.
 O Pelézinho e o Coquinho saíram de um dos quartos e se postaram na nossa frente, o Betão fez sinal com a cabeça, pra gente sair, ficou ali, olhos fixos nos caras, quando percebeu que já estávamos todos do lado de fora, saiu, ainda de frente pra eles.
  Ganhamos a rua em silencio, ninguém saiu da casa, caminhamos 2 ou 3 quarteirões e o Betão rompeu o silêncio:
  _Niltão, tá na hora de a gente correr.
  _Correr pra que? Você não está com o berro na mão???
  _Quando foi que eu disse isso???
  Aí bateu o pânico, iniciamos a corrida, deu pra escutar alguns tiros, mas já estávamos no nosso território.
  Enquanto corríamos, escutávamos o Betão gargalhar.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O José Almir

  Tem uns amigos que você vai lembrar pro resto da vida, alguns, você se lembra do começo de tudo, quando ainda, nem tinha o que lembrar, o amigo já estava lá, tem aqueles amigos que você simpatizou à primeira vista, e, tem aquelas amizades que começaram com a antipatia gratuita, depois de muita brigas, veio a paz e, aos poucos... a amizade.
  O Zé Almir foi esse última opção, ele era uns 2 anos mais velho que eu, tenho lembranças da gente brigando e da gente correndo juntos, pra não apanhar, na saída do Morumbi.
  Nas muitas aventuras no E.D.D, as turmas dos pavilhões se juntavam, nós, do 14, juntávamos aos caras do 12 e saíamos no rolê, o Zé era do 12, ele era feito eu, sempre relegado ao papel secundário.
  O Zé, era o melhor amigo do Valdevino, e eu, era unha e carne com o Viana, nós 4 colecionávamos gibis...O Valdevino tinha um baú, com centenas de revistas do Téx e mais centenas do Fantasma, o Viana era proprietário de uns 200 exemplares dos Vingadores, entre os Marvel do Zé Almir, haviam uns raros, entre eles, a primeira aparição do Falcão Negro e a minha coleção do Homem Aranha chegava à uns 300.
  Todos eramos fanáticos pelos mineiros do Clube da Esquina e quando nos juntávamos a outros meninos, editávamos a nossa versão do futebol profissional, saíamos pela área do E.D.D e desafiávamos outros times, quem vencesse, levava umas garrafas de Tubaína.
  Por essa época, o capitão Pazzeli montou uma equipe poliesportiva, que alem de jogar o futsal, também praticava o Handebol, o Basquete e as provas olímpicas, tudo isso com apenas 12 atletas, isso fez, com que nós não desapartássemos por nada, ou quase nada.
  Dessa turma, o que primeiro conheceu a glória de se enamorar, foi ele, o Zé...e não foi com qualquer uma, foi a Elzamar, simplesmente a mais bonita da escola.
  10, entre 10 alunos do grupo escolar suspiravam por ela, sua pele trigueira, os cabelos de um negro que brilhava, de tanto escuro, os lábios carnudos, os olhos d'um castanho irreal e, principalmente o andar suave...muitas vezes, no páteo, aquelas rodinhas de amigos que se formam para falar dos mais variados assuntos eram desfeitas,pra ela passar, depois vinha o silêncio, ela passava, jogava no ar o odor de jasmim, truta, era como se o mundo parasse, só quando ela já estava longe, as rodinhas se formavam e o alarido continuava.
  É claro que, passamos a olhar o Zé com a má vontade de quem perde um duelo e passamos a fazer piadas sobre o casal, tachamos o romance de "A bela e a fera".
  Coincidentemente, encenávamos uma peça de Shakespeare,( nem sei qual delas) eu, de mocinho, de meia calça e espada, a mocinha em meus braços, o diretor Sergio mandou e eu beijei a Elzamar, muito mais tempo que a cena pedia, depois que gritaram_CORTA, eu a encostei na parede de cenário e a beijei, como se não houvesse amanhã.
  Nessa hora, eu não lembrei do amigo, do compromisso dela e ela continuou a cena, quando nos soltamos, notei, pelo avermelhado de sua face, que tinha feito besteira, não me pesou a consciência, não mesmo...aquele foi o primeiro beijo da minha vida.
  Instantes depois, coisas de 10 minutos, o Zé me barrou na fila do refeitório, muito revoltado, exigia uma explicação, pra tamanha canalhice, eu não queria brigar, disse que exageraram a coisa toda, foi somente duas pessoas interpretando um beijo, só um beijo técnico.
  _Como o amigo pode acreditar que, não lhe tenho a consideração????
 
O capitão Pazelli não era muito alto, era um militar que gostava de mostrar a sua autoridade, gritava o tempo todo, estando certo...ele grita.Estando errado..ele gritava:
  _Democracia???estou cagando e andando pra essa tal de democracia.
  Um dia, pedi um aparte e disse, que se fosse possível, ele parasse de me chamar de Niltinho.
  _Olha aqui, pivete, até a hora que você merecer, vai ser chamado no diminutivo e, aproveitando que você está ousado hoje, cai no chão e paga 50 flexôes.
  E, ainda que fosse assim, tão autoritário e arrogante, era o professor mais querido que já tivemos.Pra falar a verdade, foi nele que eu me inspirei, quando me tornei professor.
  Em 1981, fomos disputar uma Olimpíadas entre algumas escolas estaduais, no município de Ribeirão Pires, como eu disse, nosso plantel era composto dos melhores atletas do E.D.D e mais eu, que só fazia parte da equipe, por ser um excelente auxilar técnico, de quebra, fazia o salto em distancia, corria os 400 metros, pegava no gol no handebol e entrava na quadra pra bater as faltas e os penaltes no futsal(entrava, fazia os gols e voltava pro banco) com 12 anos eu já estava fazendo estágio, na minha profissão futura.
  Quando descemos na escola, o professor declarou que queria bater o recorde do ano anterior, que tinha sido de 19 medalhas.
  No handebol e no Basquete foi tirar doce de criança, no futsal levamos a de ouro, mas foi tão dura a disputa, que a maioria dos atletas mal tinham folego pra disputar as provas individuais.
  No salto em distancia, apareceu um guri que media o dobro da minha altura e, ao invés de espinhas na cara, tinha barba, o pior salto dele foi a minha melhor marca, e isso me rendeu a prata, mas peguei o ouro nos 400.Os meninos, que tinham dado tudo no futsal, sentiam as dores, o Valdevino, que fazia 100 em 10 segundos, levou a medalha de ouro, mas acabou com um estiramento dos nervos, nessa altura, havíamos arrecadado 18 medalhas, parecia que o sonho do capitão havia ido pro brejo.
  Anunciaram no auto-falante, a última prova, 800 metros rasos, num dia feliz, essa prova seria dividida pelo Zé Almir e o Valdevino, seriam duas medalhas certas, enquanto o professor pediu tempo pros organizadores e foi falar em particular com eles e os outros professores, olhei pros nossos atletas, o Valdevino jazia na arquibancada, sem qualquer condição física,  o Zé estava em pé, mas, os 200 metros o havia deixado sem folego nenhum.
  Depois de um tempo, voltou o capitão Pazelli a sorrir, me chamou de canto e disse:
  _O Valdevino está fora, você está substituindo ele.
  _Professor...
  _Você vai ser o coelho, fica emparelhado com todo mundo, na marca dos 400, dispara em velocidade, isso vai forçar todos, você pára e o Zé ganha a corrida.
  _Professor...
  _Isso é uma ordem.
  _Professssor...
  Pôs a mão direita em meu ombro e segredou:
  _O Zé está só o pó da rabiola, você vai ter que, quando disparar, dizer alguma coisa, que faça ela esquecer a dor.
  _Professor...
  _Sua missão...NILTINHO.
  Eu já estava me aquecendo na linha, o Zé chegou na raia dele, se arrastava, mais parecia um corpo sem alma, fiquei pensando o que faria o morto ressuscitar.
  O tiro ecoou, partimos, nos 800 não existe arrancada, nesse instante percebi que todos estavam exaustos, não só o Zé, o ritmo da corrida era muito mais lento que se podia imaginar, avançamos 100, velocidade mínima, 200 e 300, ouvimos o retardatário cair, alguém chegou no seu último esforço e tombou, eramos apenas 7, me preparei pro sprint, os 400 já chegavam, olhei pro lado esquerdo, a careta de dor do Zé, me dizia que ele ia se entregar, a marca se aproximava, chamei o Zé :
  _Zé...a boca dela é muito macia.
  _Que é, moleque ???
  Pisei na marco dos 400, disparei e gritei:
  _A boca da Elzamar, seu trouxa.
  No meio daqueles guris de pernas longas eu acelerava, como se fosse um fundista, nos 600, quando eu ia parar, ouvi a voz do Zé:
  _Filho da puta.Ele não tinha intenção nenhuma de me ultrapassar, acelerei, tinha medo que ele me derrubasse naquela pista cheia de pedrinhas, na velocidade que eu ia, a coisa ia ficar feia.
  700 e o Zé no meu encalço, dava pra ouvir ele bufando nas minhas costas, o pior é que ele gritava palavrões, acelerei mais ainda.
  Ninguém entendeu nada, quando pisei na marca de chegada, continuei a corrida, até o estacionamento e o Zé atras, subi numa arvore, o professor chegou e explicou que era tudo mentira, tudo fazia parte do seu plano, quando desci da arvore, o capitão me levantou e me jogou nos ombros, rumo ao pódio.
  _Vamos lá NILTÃO, buscar nossas medalhas.

quinta-feira, 27 de março de 2014

O dia da caça...

 
Meu numero de inscrição era 152, até hoje esse é o meu numero de sorte, em todas as minhas roupas havia uma etiqueta com essa centena carimbado.Havia um vocabulário próprio, uma espécie de dialeto particular: quando se escondia algo, era "enrustir", vigiar era "manjar cana"e, verbos e adjetivos que só se usava dentro do E.D.D, era como se fosse uma ilha independente, uma colonia com seus costumes e regras.
  E eu não podia deixar de dizer a maior de todas, sempre que alguém dizia algo que pudesse ser interpretado mal ou tivesse duplo sentido, todos diziam:_ NÓ, isso era uma abreviação de Nossa senhora e servia pra determinar que uma besteira foi dita, portanto era proibido dizer algo que pudesse ser mal interpretado, o risco era o de ser zoado e, esse "NÓ" era gritado e esticado, via de regra, acabava tudo em briga.
  Eu não era de procurar encrencas, porém, quando a ocasião se apresentava, não me fazia de rogado, não era dos que batiam, mas, nunca tive o dom pra ser a vítima, toda briga que entrei, não corri e, como eu disse em outra postagem, todo mundo que tentou me fazer mal, teve o troco merecido.
  Então, vou contar como foi que aqueles 3 pastéis que me jogaram na piscina tiveram a sua cota de aprendizado.
  Nos fins de semana eu tinha o costume de procurar abacates para esconde-los nas folhas secas das bananeiras, essa era uma das poucas coisas  que eu fazia sozinho, depois ia ler um livro, na primavera, que ficava na frente do pavilhão 14, pra falar a verdade, nem sei se o nome da arvore é esse mesmo, os galhos dela cresciam pros lados, lembravam os tentáculos de um polvo, no tronco haviam espinhos e mesmo que se podasse, os galhos voltavam a se estender, sua pontas chegavam no chão, dentro dessa sombra eu li muito.
  Depois ia procurar os amigos, descíamos pro campo e jogávamos rebatida, depois íamos pro lago do Japonês, nadar ou caçar rãs, ali pertinho tinha o pomar, entrávamos com cuidado, colhíamos as tangerinas e corríamos dos cachorros e dos tiros de sal.
  Feito isso, chegávamos ao bosque do 14, embaixo da enorme Araucária e ficávamos ali, conversando, cantando coisas do Milton ou do Fagner.
  Nesse dia foi tudo normal, até o...chegar ao bosque do 14.E não é que os caras estavam lá esperando???
  Eles eram 3, nós eramos 4, nós tínhamos 11 anos, eles tinham 16...então está caracterizada a lei do mais forte, o Viana e o Téquinha se puseram  em posição de defesa, o Chumbinho que era o menor, fez o mesmo, eu fiquei calmo, muito calmo.
  Eles disseram que não queriam brigar, mas, caso nos recusássemos a repartir o produto do roubo, seriam obrigados a caguetar, bati no ombro do Viana e disse:
  _Calma amigo, não custa nada dividir.
  A essa altura, a raiva dele era tanta que já lacrimejava, depusemos os 4 sacos no chão (os sacos eram as nossas camisas), eles pegaram a camisa do Viana, daquelas que tem o simbolo do São Paulo, esvaziaram-na, com a camisa dele na mão, o Salvador falou:
  _Isso aqui é lixo.
  Jogou a camisa no rosto do meu amigo e foram embora, o Viana procurava no chão, um pedaço de pau.
  Deu trabalho acalma-lo, eu já tinha um plano, disse pra eles que no dia seguinte, nós teríamos cãibras de tanto rir.
  Não contei-lhes o plano, disse que só contaria amanhã, nessa noite nós iríamos dormir com esse gosto de derrota.
  Feliz, era o apelido do Luis Carlos da Silva, que era meu vizinho de cama, tinha os quatro dentes frontais sobressalentes, isso passava a impressão de que ele estava sempre feliz, todas as noites escutávamos radio, quando não era jogo, era música, sempre a Jovem Pan.
  Contei-lhe o acontecido, ele ficou indignado, sugeriu que juntássemos todos os pivetes do pavilhão e dessemos uma lição neles, disse que tinha um plano e ia precisar dele, contei-lhe tudo, detalhe por detalhe, o neguinho ria que dava gosto.
  No dia seguinte cumpri meu ritual até a parte da leitura, fiquei sabendo que o seu Odilon, que era o larista do pavilhão iria sair com a família, fui até a porta do pavilhão e os amigos me esperavam, entrei na sala e eles me seguiram, o seu Odilon ajeitava o cordão do bamba, sentado numa cadeira, pedi licença, ele permitiu que eu me aproximasse, fiz uma careta de dor e disse:
  _Estou morrendo de dor de cabeça, tenho que ir à enfermaria.
  _Ana_gritou ele, chamando a esposa, ela respondeu que estava ocupada no banheiro.
  Como era analfabeto de pai e mãe, ordenou que eu escrevesse o bilhete pro enfermeiro que ele assinava, peguei papel e caneta e muito rápido escrevi o bilhete, antes de assinar o animal tirou os óculos do bolso e fez que lia, tive que cutucar o Viana, pra ele segurar a gargalhada, a besta pegou o papel e assinou.
  Seguimos a estrada do 12, rumo à enfermaria, passamos em frente aos pés de jabuticabas, enchemos os bolsos e continuamos o caminho.
  Quem atendia na enfermaria era o irmão Wilson, essa definição de irmão era dada à todos os membros da diretoria (o motivo, eu ainda vou pesquisar) ele era uma pessoa ótima, ainda que o humor não fosse dos melhores e pra qualquer mal, só havia um remédio...BENZETACIL.(gripe, fratura, dor de dente, corte)
  Chegamos na enfermaria e entregamos o bilhete, ele fez piada sobre os amigos que acompanham os outros em todos os lugares e entrou pra preparar a seringa, o Viana me perguntou se eu não estava com medo da agulha, limitei-me a sorrir, quando voltou, o enfermeiro já tinha a agulha na mão, leu o bilhete e chamou:
  _Edilson Martins Silveira.
  O Chumbinho tomou um susto e caiu do banco de alvenaria, nessa hora caiu a ficha, o Viana e o Tequinha se lembraram do corte na perna do amigo, já criava pus e ele tinha medo de medicação, nós 3 seguramos e o irmão Wilson aplicou-lhe a injeção, como gritava o baixinho.
  Disse ao enfermeiro que não se preocupasse, eu jogaria a seringa no lixo, atras da enfermaria havia um enorme buraco que media uns 3 metros de diâmetro e 1 metro e meio de fundura, ali era depositado o lixo hospitalar, la fora, desarmei a seringa, meti-a no bolso e fiquei com a agulha na mão.
  No caminho de volta o Chumbinho me xingava de todos os nomes e nós riamos, quando chegamos no pavilhão o Feliz nos esperava com um vidro na mão, ele era o ajudante da rouparia, só ele e a dona Ana tinham acesso aos remédios, as portas do pavilhão estavam trancadas, encostei no tanque e os outros fizeram uma barreira, pra ninguém me ver, lavando a agulha.
  A essa altura todos já sabiam do plano, já antecipavam as rizadas, o Feliz foi conosco pro pomar, quando voltamos, escondemos as laranjas no caminho, só chegamos com um saco, a camisa do Viana, de novo...nos roubaram e nos ameaçaram.
  Quando o seu Odilon voltou, o Feliz devolveu o vidro de laxante à rouparia, os 15 ocupantes do quarto dos pequenos ficaram acordados até as 2:00 horas da manhã, 5 ocupantes do quarto dos grandes iam e voltavam do banheiro e isso durou 3 dias e 3 noites.
 

domingo, 23 de março de 2014

A fúria

  Eu não sei qual foi a hora exata, que a diversão virou risco de vida...numa hora estávamos curtindo os bailes por diversão, na outra, passamos a ser alvos móveis, subitamente a equipe de dança virou gangue.
  Nessa época, eu estudava no Santa Inês, quase todos os amigos tinham abandonado a escola, por esse tempo, passaram a consumir a maconha, acho que eu estava muito ocupado e, acabei perdendo esse capitulo, repentinamente eu passei a ser o único careta da turma.
  Nunca fui de julgar, continuei a considera-los, meus amigos e continuei os rolês, com uma diferença, agora passou a haver a pausa para o "fogo na bomba", no começo, tinha o constrangimento de ser traidor, mas, quando os via, sob o efeito da erva, disse:
  _Pra ficar igual a vocês ?? Não, muito obrigado.
  Pra minha surpresa, todos levaram a coisa na esportiva, mas sempre aparecia alguêm de fora e oferecia uns péguinhas, eu sempre me saía com essa:
  _Xi, acabei de fumar um, tô à pampa_a frase sempre vinha acompanhada duma tosse simulada.
  Na verdade, pouca coisa mudou, continuamos a ir em todos os bailes de Sampa, só que agora, tinha a pausa pra bolar o baseado.Todos os domingos, íamos pro mesmo lugar, o Asa Branca de Pinheiros, lá, acontecia a matinê da Chic Show.
  No pavilhão 22, os preparativos começavam cedo, escolher as roupas, lustrar os sapatos, fazer vinco nas calças e ajeitar o black, essa última ocupação era a mais demorada, gastava umas 3 horas, pra deixar o cabelo perfeito, tinha gente que passava cerveja no cabelo, afim de deixa-los durinho.
  Como eu sempre estava sem dinheiro, tinha a minha tesoura e um laquê, prestava meus serviços e cobrava pouco, só o que desse pra pagar a entrada e a condução, já que o meu cabelo não necessitava de mui
to cuidado, eu só o levantava e arredondava e era de bom tom, levar uns trocados a mais, sempre tinha um "mano", que ia pra porta do salão sem nenhum dinheiro, ficava do lado da fila, arrecadando o suficiente.
  Nessa época, havia uma fúria dentro de mim e, em todos os lugares que chegávamos, havia alguém que se achava no direito de cercear nosso direito de ir e vir...isso só se resolvia "na mão" e, se fazia necessário usar os punhos, eu estava sempre na linha de frente, dominava a arte do boxe.
  Uma noite, perto da entrada do Guilherme George, a turma parou pra fumar um, estávamos nuns 50 caras, a bomba foi acesa e passou de mão em mão, um dos amigos novos a estendeu em minha direção, eu já ia dizer a minha frase, quando o Viana, muito alterado gritou:
  _Pára com essa palhaçada de oferecer droga pra esse cara, se, de cara limpa ele já faz as desgraças que faz...calcula, se ele estiver bem louco.
  Houve um breve silencio, a mão que me oferecera o cigarro foi recolhida...nunca mais, ninguém me ofereceu um baseadinho sequer.
  Quanto a fúria ???ela morreu...no exato instante que a Angela disse que estava grávida.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Um jogo arranjado.

  Que me desculpem as mulheres, mas as melhores lembranças da vida de um cara, tem futebol. Antes do dinheiro, antes do amor, do suor, do sangue e da cerveja, nada ofusca o brilho da bola e, a história mais insossa, na saudade de um cara, vira lirismo. O jogo mais besta do mundo, vira uma batalha de proporções gigantescas, o adversário tem super-poderes de um vilão e a gente se vê numa arena, nossa arma é a bola.
  Em 1979, depois da morte do Celso (afogado, no lago do 24) , o colégio passou por uma reformulação sem precedentes, a diretoria sucumbiu e, ainda se juntou a isso, o fato de o André ter perdido 3 dedos na máquina de tijolos da olaria. A questão da violência contra o menor, que nunca havia sido colocada em pauta, surgiu com tal força, que, a diretoria sofreu seu golpe fatal.
  Repentinamente, choveu repórteres e deputados, durante uns dias, a ilha de paz que era o E.D.D, virou um inferno, por módicos 10.000 cruzeiros, eu, o Zé Almir e o Lourival contamos tudo, sentados na casinha do campão, o repórter do Estadão anotava tudo em seu caderninho, depois pagou uma caixa de Tubaínas, no bar do Barroso, isso foi a maior negociação de todos os tempos, que um guri de 12 anos podia ter feito, "a cara nem ficou vermelha".
  No 14, tivemos a alegria de ver o Odilon ser demitido e, como estávamos acostumados a ser tratado com ignorância, demoramos a nos acostumar com  o novo casal... o Claudio e a Márcia eram pessoas que entendiam de crianças, não gritavam, não batiam e ensinavam, toda a produção agrícola do pavilhão (bananas, abacates, milho, mandioca) passou a ser repassada para os menores que trabalhavam na enxada.
  Como o Claudião não entendia nada de táticas de futebol, deixou por nossa conta, montar o time pro campeonato interno, estava por nossa conta, honrar a tradição do 14, no futebol.
  A Márcia, que era muito amiga da esposa do Doutor Sócrates, conseguiu-nos um uniforme novinho, com as cores do Botafogo de Ribeirão Preto, quem entregou o uniforme foi o seu Raimundo, pai do Doutor.
  E como ele ia passar dois dias hospedado no pavilhão 14, desceu pro campo, pra bater uma bolinha, foi a primeira vez que eu e o Viana batemos num cara de meia idade. Enquanto subíamos o barranco, que levava ao pavilhão, o Viana disse, sorrindo:
  _Caramba, você desceu o cacete no pai do seu ídolo!
  _Amigo, se fosse o próprio, eu bateria mais.
  Nós eramos os volantes do time, o Feliz era o terceiro membro do tripé de meio campo, o Adilson (Ovinho) era o centro avante, meu irmão Nilson, apesar de não ter idade, era um zagueiro excepcional, o Maméde e o Zé Antonio atacavam nas pontas, nosso goleiro Marcos era baixo, mas, voava.
  Um time de caras esforçados, medianos, não fosse por um detalhe, tínhamos o Tadeu, esse era um dos maiores, de todos os craques do E.D.D, digo isso, sem medo de contestações. Nossa tática era simples, os 10 entravam para equilibrar o jogo e o Tadeu desequilibrava, para garantir que ninguém o marcasse, ele jogava de libero, à ele caberia a camisa 10, mas o Pelé estigmatizou esse numero tanto, que ninguém queria vesti-la, no primeiro jogo eu demorei pra chegar, só havia uma camisa no banco do vestiário, tentei argumentar com meus companheiros de meio, os dois fizeram que não me ouviram e, então lá estava eu, com a 10, do glorioso time do 14, o adversário era o 19, do Arthur e o Gilvan, a tática foi perfeita e, ainda que eu tivesse feito 2 gols de falta e termos vencido o jogo de 5 x 0, o tempo todo, alguém gritava:
  _Ô pião, a camisa está pesando???
  Dona Márcia, que assistira o jogo todo, viu que eu estava incomodado com aquilo, levou a minha camisa pra rouparia e trocou o número 0 pelo 9, a mulher era uma santa, durante a partida, entendemos porque o seu Claudio não quis ser o técnico do nosso time, quando o jogo terminou, ele estava chorando.
  Além de jogar no time dos médios, eu era o técnico dos menores, se no meu time reinava a democracia, os pequenos sofriam com meu comando e, eu já era absolutista, naquele tempo.
  No meio do campeonato, não restava dúvidas com relação ao nosso favoritismo, vinhamos ganhando bem, todos os jogos, fechamos a fase classificatória tão bem, que ficamos a um empate da classificação pras quartas de final, no jogo contra o 16, a situação era a seguinte: Se ganhássemos o jogo, o 22 seria classificado, se houvesse um empate, o 16 ficaria classificado, nos dois casos, nós já estávamos garantidos na fase seguinte. E não dizem que o diabo é sujo!?? A maioria do time resolveu manipular tudo, tirando eu e o Tadeu, o resto do time resolveu que o classificado seria o time do 16, pelo fato desses, terem mais afinidade e amizade com a nossa turma, lá haviam os nossos amigos Faustino, o Claudio (Farofa), o Cleiton, o Claudio e Flávio Monteiro (irmãos do Bruxa), os irmãos Brigido e ainda tinha o fato de os laristas Roberto e Marlene terem ficado um tempo conosco, a gente gostava tanto do casal, que passamos a visitá-los no 16.
  E fez-se o acordo, o Viana e o Farofa se conversaram, tudo certo, o Tadeu e eu, prometemos acatar a decisão da maioria. Foi o jogo mais calmo que o Luis Paulo apitou na vida, tirando o fato de o Farofa ter quebrado o braço, a partida não teve emoções, inconformado, o Tadeu ficou na defesa, toda bola que ele ganhava, dava um estouro pro alto, normalmente ele sairia em contra ataque e levava a bola até o outro gol, no segundo tempo, passou pela nossa cabeça que o Cleiton não sabia do acordo e como ele estava se esforçando demais, foi devidamente levantado.
  Não sei se foi por má fé ou sorte, a coisa deu pra trás, faltando uns 5 minutos pro final, depois de um chute do Cleiton, nosso goleiro Marcos jogou a bola pra escanteio, ninguém se posicionou direito na marcação, o Faustino ajeita a bola com carinho, com uma perfeição impressionante bate de pé direito, a bola cruza toda a extensão da linha de fundo, rodando e em linha reta, sem reação, o Marcos vê a bola passar dentro do seu gol, antes de se confirmar o gol, o Cleiton sobe e bate a testa, apesar do gol ser do Faustino é o Cleiton que sai comemorando.O Marcos estava no chão, eu estava no segundo pau, abaixei-me e peguei a bola, ia levá-la pro meio de campo, antes de eu chegar na área grande o Tadeu pegou a bola da minha mão, ele bufava de raiva, nunca tinha visto o amigo com tanta raiva, colocou a bola na marca da cal e me esperou chegar, os caras do 16 demoravam ainda na comemoração, o Tadeu olhava pro juiz ansioso, o juiz apitou, toquei de chapa na bola, do meio até o gol haviam 5 jogadores, com 3 toques, ele os tirou de tempo, o goleiro se deitava a seus pés, com um toque cobriu o goleiro, a bola ia entrando, ele a alcançou e bateu com força, a bola estufou a rede e como ela estava muito esticada, voltou-lhe nas mãos, não comemorou, tratou de levar a bola pro meio, entregou-a nas mãos do arbitro e voltou para a meia lua.
  Sentimo-nos aliviados, o Tadeu ainda bufava, a cólera o deixava vermelho, dava a impressão de não respirar. O time deles reiniciou o jogo, roubei a bola e passei na direita, nos pés do Zé Antonio, o Zé parou a bola, quando ia correr com ela o Tadeu passou, feito uma bala, tomou-lhe a bola e partiu em diagonal, fintou dois e na entrada da área, bateu de peito de pé, a bola foi morrer no segundo pau, no angulo, dessa vez ele saiu comemorando.