terça-feira, 18 de novembro de 2014
A morte de Elis
Em 19 de Janeiro de 1982, soubemos da morte de Elis, logo pela manhã.E não foi a morte de uma artista, foi a morte de uma pessoa próxima, eu tinha 16 anos e tudo que eu sabia de música, era pela voz dela, através dela eu conheci o clube da esquina, o balanço de Tim Maia e a poesia de Belchior.
Ouvia uma música, não importava o estilo, e já pensava:
_Puts, na voz da Pimentinha, fica legal.
Eu e meus amigos do colégio, estudávamos no E.E.P.G Alcides da Costa Vidigal, no ginásio e resolvemos que não iriamos pra aula nesse dia, no dia seguinte fiquei sabendo que os poucos guris que foram pra escola, tiveram que voltar, todos os professores e a diretora, haviam faltado.
Alguns dos amigos disseram que iam para o velório, eu não fui, até hoje, sou avesso à funerais, fiquei sozinho, fui andar.
Como não ia usar o dinheiro da condução, resolvi tomar um refrigerante.
Fui até o bar do Barroso, puxei o banquinho, pedi a Coca e sentei, o Barroso estava com os olhos vermelhos, o homem era um troglodita e eu duvidei que fosse por conta do luto, mas, pra me contrariar, ele já foi falando da morte da Elis e, sem qualquer vergonha, chorou compulsivamente e se retirou pra atras do balcão.
Eu estava em silencio e assim permaneci, na mesa atras de mim, haviam 3 senhores, que bebericavam suas cervejas tranquilamente, a esposa do Barroso saiu da cozinha, passou pelo balcão, me acenou com a cabeça e foi ligar o radio.
O locutor falava da perda da grande estrela:
_Essa gaúcha de Porto Alegre...
Vendo que a noticia ia fazer mais infeliz o marido dela, girou o botão e desligou o radio.
O mais velho, dos homens da mesa falou:
_Gaúcha, veja você, eu sempre achei que ela fosse daqui mesmo.Ela tinha um jeitão daquele povo da Moóca.
O homem do meio da mesa, tirou o chapéu:
_Jurava que era Mineira.
O terceiro não disse nada, tinha os olhos fixos no copo, e o silencio imperou no ambiente, uns minutos mais tarde, pegou o maço de flores, que havia acomodado no colo, levantou-se e disse aos outros:
_Vamos lá, prestar nossas homenagens.
sábado, 1 de novembro de 2014
Seu Luis da olaria
Em 1977, eu tinha 11 anos, trabalhava pela manhã na olaria e estudava à tarde.
A olaria do E.D.D era tocada por 6 adultos e umas 8 crianças, o seu Paulo operava o trator, jogava a terra ou argila em 2 enormes tanques, que ficavam num plano alto, onde o Osvaldo e o Turquinho, com suas pás, jogavam-na numa esteira, a esteira levava a terra para a boca da máquina, lá, ela era triturada e prensada em formas que giravam, quando as formas viravam com a boca pra baixo, soltavam o tijolo em sua forma retangular em outra esteira, todos deitados, um do lado do outro, um dos meninos levantava-os em dupla, outro menino recolhia duas duplas de tijolos, essa era a quantia certa para mãos de crianças apanhar, depois colocavam num carrinho, duas fileiras com 24 tijolos em cada carrinho, assim que enchia um carrinho o menino saía para as alas, o menino que estava no lado oposto da esteira, começava a encher o seu carrinho.O carrinho era puxado como uma carroça, não era raro machucar o tornozelo, a áste de ferro, que dava equilíbrio ao carrinho, se não estivesse na altura certa...doía muito. Uma vez na fileira, os tijolos eram acomodados com cuidado, com as mãos eram afastados, coisa de 2 dedos de distancia um do outro, a fileira de baixo pra direita, a de cima pra esquerda e assim ia, até completar 8 fiadas de altura, cada fileira media 25 metros, os tijolos afastados permitiam a passagem do vento e o arranjo de zig-zag, dava equilíbrio.Terminado os tijolos do carrinho, o mesmo era virado, pisava-se no eixo com um pé, com as mãos segurava-se o apoio, o pé que ficava no chão servia para dar o impulso, o carrinho agora era um patinete e o menino virava um corredor.
Haviam mais dois funcionários...o Marcos Aurélio era o chefe, a ele cabia a responsabilidade pela produção e o seu Luis, que era quem cuidava da máquina.O Marcos Aurélio era um antigo interno que não conseguira se virar sozinho no mundão e voltou, pra atazanar as nossas vidas, gostava de bater em crianças e achava que nada fosse lhe acontecer. O seu Luis era mais velho, sua filha estudava na minha sala, usava um chapéu de palha e fumava cigarros com palha de milho, daqueles brancos que quando sorriem ficam vermelhos, se o Turquinho era um corinthiano fanático, o seu Luis era mais tranquilo.Certo dia o seu Luis achou uns ossos no meio da argila, disse que era ossos humanos, 10 minutos depois apareceram uns carros do exercito e a olaria foi lacrada por dias, o pior é que, a argila vinha de dentro do Educandário, não disse nada no pavilhão e passei os 3 dias na casa do seu Luis, já que a sua esposa acabara de dar a luz e eu ficava tomando conta da Luciana, filha mais nova. No dia 9 de Outubro daquele ano, o seu Luis me chamou e disse, em tom calmo: _Eu já dei tanto azar pro Corinthians, vê se você não me decepciona. E tirou do bolso um ingresso da final do campeonato paulista, poucos presentes me trouxeram tanta felicidade, no dia 11, entreguei-lhe um par de chuteiras, as mesmas que eu tirei dos pés do Vaguinho, no fim do jogo. Se o seu Luis era um exemplo de homem pra nós, o Marcos Aurélio era o contrario, essa coisa de corrida de carrinho no horário de serviço o deixava furioso e como ele tinha autorização pra manter a disciplina à qualquer custo, encomendou uma palmatória, no dia que ela chegou, numa caixa especial ele mostrou pros outros funcionários, estava tão feliz que não percebeu que os outros se entreolharam, pra falar a verdade, aquilo foi muito esquisito. É claro que, diante da ameaça de apanhar, as corridas foram suspensas, agora só corríamos quando ele se ausentava. Ele tinha o habito de, depois do lanche, ir ao banheiro, punha o rolo de papel higiênico debaixo do braço e ficava lá, uns 10 minutos, nessa hora eu carregava o meu carrinho, o Gilvan, já com o carrinho cheio, ficou me esperando, quando eu terminei e virei o carrinho pra puxar, ele iniciou a corrida pra sua fileira, corremos parelhos e entramos, cada qual de um lado pra descarregar os tijolos, terminamos ao mesmo tempo, ao mesmo tempo viramos os carrinhos, vencemos a ala de tijolos e chegamos ao longo corredor, tinha uns 25 metros, fiz a curva na frente, mais uns 10 metros e estaria liquidado a fatura, chinelei com vontade, só quando cheguei perto da máquina pude perceber que o Aurélio já estava lá e com a palmatória na mão.Era tarde, eu havia corrido tanto que ficara em cima dele, não dava pra fazer mais nada, preparei-me pra sentir a dor. Ele levantou a palmatória no ar, fechei os olhos e a pancada não veio, abri os olhos e o seu Luis o havia impedido de continuar o movimento, segurou a mão dele.Então, aquele homem que ninguém nunca viu levantar a voz gritou: _Não encoste nos meninos. Depois soltou a mão dele, eu ainda estava no mesmo lugar, o Aurélio levantou a mão mais uma vez, o seu Luis tornou a aparar com a mão direita, com aesquerda deu-lhe um soco(pra falar a verdade, não sei se foi um soco ou um tapa, foi muito rápido) só sei que o Aurélio voou uns 5 metros e caiu em cima da esteira,quando ele levantou deu de cara com o Osvaldo e o Turquinho, cada um com sua pá, plantados à sua frente.
A olaria do E.D.D era tocada por 6 adultos e umas 8 crianças, o seu Paulo operava o trator, jogava a terra ou argila em 2 enormes tanques, que ficavam num plano alto, onde o Osvaldo e o Turquinho, com suas pás, jogavam-na numa esteira, a esteira levava a terra para a boca da máquina, lá, ela era triturada e prensada em formas que giravam, quando as formas viravam com a boca pra baixo, soltavam o tijolo em sua forma retangular em outra esteira, todos deitados, um do lado do outro, um dos meninos levantava-os em dupla, outro menino recolhia duas duplas de tijolos, essa era a quantia certa para mãos de crianças apanhar, depois colocavam num carrinho, duas fileiras com 24 tijolos em cada carrinho, assim que enchia um carrinho o menino saía para as alas, o menino que estava no lado oposto da esteira, começava a encher o seu carrinho.O carrinho era puxado como uma carroça, não era raro machucar o tornozelo, a áste de ferro, que dava equilíbrio ao carrinho, se não estivesse na altura certa...doía muito. Uma vez na fileira, os tijolos eram acomodados com cuidado, com as mãos eram afastados, coisa de 2 dedos de distancia um do outro, a fileira de baixo pra direita, a de cima pra esquerda e assim ia, até completar 8 fiadas de altura, cada fileira media 25 metros, os tijolos afastados permitiam a passagem do vento e o arranjo de zig-zag, dava equilíbrio.Terminado os tijolos do carrinho, o mesmo era virado, pisava-se no eixo com um pé, com as mãos segurava-se o apoio, o pé que ficava no chão servia para dar o impulso, o carrinho agora era um patinete e o menino virava um corredor.
Haviam mais dois funcionários...o Marcos Aurélio era o chefe, a ele cabia a responsabilidade pela produção e o seu Luis, que era quem cuidava da máquina.O Marcos Aurélio era um antigo interno que não conseguira se virar sozinho no mundão e voltou, pra atazanar as nossas vidas, gostava de bater em crianças e achava que nada fosse lhe acontecer. O seu Luis era mais velho, sua filha estudava na minha sala, usava um chapéu de palha e fumava cigarros com palha de milho, daqueles brancos que quando sorriem ficam vermelhos, se o Turquinho era um corinthiano fanático, o seu Luis era mais tranquilo.Certo dia o seu Luis achou uns ossos no meio da argila, disse que era ossos humanos, 10 minutos depois apareceram uns carros do exercito e a olaria foi lacrada por dias, o pior é que, a argila vinha de dentro do Educandário, não disse nada no pavilhão e passei os 3 dias na casa do seu Luis, já que a sua esposa acabara de dar a luz e eu ficava tomando conta da Luciana, filha mais nova. No dia 9 de Outubro daquele ano, o seu Luis me chamou e disse, em tom calmo: _Eu já dei tanto azar pro Corinthians, vê se você não me decepciona. E tirou do bolso um ingresso da final do campeonato paulista, poucos presentes me trouxeram tanta felicidade, no dia 11, entreguei-lhe um par de chuteiras, as mesmas que eu tirei dos pés do Vaguinho, no fim do jogo. Se o seu Luis era um exemplo de homem pra nós, o Marcos Aurélio era o contrario, essa coisa de corrida de carrinho no horário de serviço o deixava furioso e como ele tinha autorização pra manter a disciplina à qualquer custo, encomendou uma palmatória, no dia que ela chegou, numa caixa especial ele mostrou pros outros funcionários, estava tão feliz que não percebeu que os outros se entreolharam, pra falar a verdade, aquilo foi muito esquisito. É claro que, diante da ameaça de apanhar, as corridas foram suspensas, agora só corríamos quando ele se ausentava. Ele tinha o habito de, depois do lanche, ir ao banheiro, punha o rolo de papel higiênico debaixo do braço e ficava lá, uns 10 minutos, nessa hora eu carregava o meu carrinho, o Gilvan, já com o carrinho cheio, ficou me esperando, quando eu terminei e virei o carrinho pra puxar, ele iniciou a corrida pra sua fileira, corremos parelhos e entramos, cada qual de um lado pra descarregar os tijolos, terminamos ao mesmo tempo, ao mesmo tempo viramos os carrinhos, vencemos a ala de tijolos e chegamos ao longo corredor, tinha uns 25 metros, fiz a curva na frente, mais uns 10 metros e estaria liquidado a fatura, chinelei com vontade, só quando cheguei perto da máquina pude perceber que o Aurélio já estava lá e com a palmatória na mão.Era tarde, eu havia corrido tanto que ficara em cima dele, não dava pra fazer mais nada, preparei-me pra sentir a dor. Ele levantou a palmatória no ar, fechei os olhos e a pancada não veio, abri os olhos e o seu Luis o havia impedido de continuar o movimento, segurou a mão dele.Então, aquele homem que ninguém nunca viu levantar a voz gritou: _Não encoste nos meninos. Depois soltou a mão dele, eu ainda estava no mesmo lugar, o Aurélio levantou a mão mais uma vez, o seu Luis tornou a aparar com a mão direita, com aesquerda deu-lhe um soco(pra falar a verdade, não sei se foi um soco ou um tapa, foi muito rápido) só sei que o Aurélio voou uns 5 metros e caiu em cima da esteira,quando ele levantou deu de cara com o Osvaldo e o Turquinho, cada um com sua pá, plantados à sua frente.
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
O time de coração
Em 1979, ultrapassei o teto da tecnologia que um guri de 12 anos, que ganhava 10 cruzeiros por semana, comprei um gravador portátil, era o máximo, podia ouvir as minhas fitas cassete o tempo todo.Bom, o tempo todo não, comprar 4 pilhas grandes era muito caro, guardava-as na geladeira, ou enterrava-as, pra que durassem bastante.
Geralmente, só ouvia as fitas de noite, a validade de pilhas congeladas nunca ultrapassou a barreira das 2 horas.
Por esse tempo, o Miguel do 13 e o Claudinho do 16 tiveram uma ideia de gênio...gravar as partidas do Grêmio Educandário em fita.
Nos considerávamos os maiores torcedores do time, gostávamos de assistir o time da escada que sobe pras quadras, isso era a exata medida do meio campo, todo mundo gostava de assistir aos jogos do coreto ou dos barrancos que ladeavam o campão e o nosso lugar ficava no lado oposto, quase na altura do campo.
O Claudinho era o narrador, o Miguel era repórter de campo e eu era o comentarista, nesses termos gravamos 2 jogos, o Claudinho imitava o Osmar Santos, o Miguel era fã do Vanderlei Nogueira e eu tentava ser preciso feito o Claudio Carsughi e, ao fim da partida, desanimado eu disse :
_O grande Grêmio já não é mais o mesmo, ainda que não tenha conhecido a derrota, já não é, sequer a sombra do Grêmio de outrora.
É...foi muito bonito mesmo, depois que o gravador foi desligado, meus amigos me cumprimentaram e, ficamos ali, por um tempo, vendo o campo se esvaziar e as sombras da noite reinar no campo do E,D.D, depois saímos, cada qual pro seu lado, imaginando o fim triste que se anunciava.
Como todo grande time, o Grêmio tinha dois meias, que eram o coração da agremiação, o Ditinho e Pivete mandavam e desmandavam, devido a uma reformulação forçada, o time perdeu na defesa, isso fazia com que os dois voltassem pra marcar, sem criação o time caía das pernas.
Durante a semana o seu Luis da olaria, disse que o seu cunhado ia entrar no time e ele era volante, segundo ele, a peça que estava faltando.
Contei pros amigos e ainda que o seu Luis tivesse dito o nome, eu acabei esquecendo.
Sábado de sol, 4 horas da tarde, equipe posta, faltava o nome do estreante, corri pro campo à cata do nome do sujeito.
O time já se aquecia, passei pelo Ditinho (que é o meu pai adotivo) nem olhei pra cara dele, todos sabiam que só se podia falar com ele depois do jogo, em caso de derrota, somente dois dias depois.Entrei no vestiário e pude ver o sujeito, ele estava ali, os olhos vidrados, olhando um ponto imaginário na parede, sem fazer barulho e com muito medo na alma, sai do lugar, pra minha sorte, o Ney estava la fora, com seu sorriso simpático disse que o nome do estreante ele não sabia, mas o apelido era Murundum, anotei no caderno e passei pro Claudinho.
O Claudinho começou a narração assim:
_Talvez hoje seja o dia, o dia da reabilitação, o tal do Morumbi...quer dizer Mutumbi, sei lá, o camisa 5 vai fazer o Pivete sorrir, pois todo mundo sabe, quando a coisa está boa o Pivete sorri.
Com 5 minutos de jogo, já estávamos desanimados, 2 lances do sujeito, 2 furadas monumentais.
A essa altura, o Claudinho já havia decorado o nome e gritava:
_O que é isso Murundum ???
A torcida ameaçava uma vaia, podia-se ouvir apupos isolados, o dono da camisa 5 estava calmo, como se soubesse que a coisa ia virar.O meia adversário ganhou uma bola e partiu pra cima, vinha com ela colada no seu pé esquerdo, nossos corações gelaram, partiu em diagonal, passou a linha do meio, o Murundum foi combatê-lo, emparelhou com ele, como um leão faz, antes de atingir a jugular da presa, colou o ombro no ombro dele, tomou-lhe a bola e freou, quando o volante parou, o meia que estava sendo carregado, caiu pra fora do campo.A torcida delirou, o juiz nem teve coragem de marcar falta, daí até o fim do jogo, foi um massacre, tiveram que trocar os 4 jogadores do meio de campo, a cada chegado do nosso volante, a torcida gritava Murundum, o Ditinho fazia arte em campo e o Pivete gritava:
_Arrê Esmagueira.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
O destino
Conheci a Angela em 1982...
Não me lembro a data exata, só sei que era aniversário do Cesar, era férias escolares e, pela manhã, eu tinha comprado uns LPs de Black músic...uns The Floaters, Commodores, Bernard Wright e Jimmy Bo Horne...umas coisinhas que combinavam com o meu estilo.
E estava muito metido mesmo, me convidaram prum baile no Luis Elias Attiê, é claro que fomos, eu o Viana e o Dooley, 3 caras livres de black levantados à custa de laquê, sapatos de 2 cores e pizzas nas barras das calças...SHOW.
Quando pusemos a cara na sala, onde se dava o baile demos meia volta, o passo foi quase coreografado, não dava pra acreditar que o som que saia da sala era Patrick Dimon... puts, aquilo foi como uma ducha de agua fria, eu vinha com as bolachas debaixo do braço falei:
_Bóra tomar conta do som.
Voltamos, chegamos e ordenamos que o guri que passava o som descesse o mais rápido possível, aquilo era serviço de homem, meti a mão na agulha e tirei aquele som mela-cueca, pra principiar a matança, peguei um disco chamado ...And now Funk, nem escolhi a faixa, assim que a música inundou o ambiente os meninos gritaram, o guri que fora demitido foi o primeiro que gritou, pulou pro meio da pista e todos o seguiram, meus dois amigos mandaram os caras que cobravam o ingresso na porta ir passear, cobraram uns ingressos e depois liberaram a entrada.
Cesar, nosso amigo dos bailes da Chic Show, apareceu e disse que estava dando um baile mais tarde, pra comemorar o seu aniversário, os caras do Educandário Dom Duarte, estavam convidados.
Depois de encerrar no Attiê, passei no Educa, pra trocar de roupa e arrumar o black, descemos pra Osvaldo Libarino, que na época se chamava Antonio Luis Vieira, onde morava o Cesar, o Biá e o Betão.
Quando chegamos na casa do Cesar, ele me apresentou a irmã Rosangela, que estava acompanhada de uma amiga, cumprimentei a Rosangela, olhando pra amiga, quando peguei na mão da amiga, segurei com toda a calma do mundo, os 3 beijos foram demorados, senti que ela enrúbreceu, as pessoas à minha volta falavam, eu não ouvia nada, meus olhos procuravam os dela, que fugiam.
O baile foi na sala, o Cesar controlava o som do quarto dele, reparei que ele tinha a coleção de discos parecida com a minha.
_Ficou afim da mina, né?!?Xiii, essa é difícil.
Peguei o disco do Jimmy, mostrei a faixa e pedi que ele jogasse essa, fui pra sala.
O DJ esperou o instante de acabar o Roque samba, olhei pra moça, quando a música começou, o Djalminha ameaçou seguir na direção da mina, pus a mão no ombro dele, não precisei dizer nada, ele saiu do caminho, dei uns passos e estiquei-lhe a mão direita, ela veio, em passos tímidos, meio com medo, pus uma mão na cintura e a outra no ombro, ao som da música a conduzi.
E assim foi, esse seleção de lentas durou muito tempo, uma música atras da outra e eu não soltava.
_E aí...vamos dar um rolê ?!?
_Não, nem te conheço.
_Olha pra todo mundo, eu sou o cara mais bonito que você já viu na vida.
_Claro que não, você é muito metido.
_Ó eu vou lutar, mas você podia economizar muito tempo de nossas vidas, já que, é o destino.
_Que destino???Tá maluco???
_Presta atenção...Nossa primeira filha vai se chamar Stephanie, os outros dois serão a mistura do meu escritor favorito.
_ Quem é esse escritor???
_Victor Hugo.
_Você é maluco.
3 meses depois, ela aceitou, num baile da Santa Barbara.
O que é que deu???puts, ela acabou de acordar, me xingou, por estar à essa hora na internet.
Não me lembro a data exata, só sei que era aniversário do Cesar, era férias escolares e, pela manhã, eu tinha comprado uns LPs de Black músic...uns The Floaters, Commodores, Bernard Wright e Jimmy Bo Horne...umas coisinhas que combinavam com o meu estilo.
E estava muito metido mesmo, me convidaram prum baile no Luis Elias Attiê, é claro que fomos, eu o Viana e o Dooley, 3 caras livres de black levantados à custa de laquê, sapatos de 2 cores e pizzas nas barras das calças...SHOW.
Quando pusemos a cara na sala, onde se dava o baile demos meia volta, o passo foi quase coreografado, não dava pra acreditar que o som que saia da sala era Patrick Dimon... puts, aquilo foi como uma ducha de agua fria, eu vinha com as bolachas debaixo do braço falei:
_Bóra tomar conta do som.
Voltamos, chegamos e ordenamos que o guri que passava o som descesse o mais rápido possível, aquilo era serviço de homem, meti a mão na agulha e tirei aquele som mela-cueca, pra principiar a matança, peguei um disco chamado ...And now Funk, nem escolhi a faixa, assim que a música inundou o ambiente os meninos gritaram, o guri que fora demitido foi o primeiro que gritou, pulou pro meio da pista e todos o seguiram, meus dois amigos mandaram os caras que cobravam o ingresso na porta ir passear, cobraram uns ingressos e depois liberaram a entrada.
Cesar, nosso amigo dos bailes da Chic Show, apareceu e disse que estava dando um baile mais tarde, pra comemorar o seu aniversário, os caras do Educandário Dom Duarte, estavam convidados.
Depois de encerrar no Attiê, passei no Educa, pra trocar de roupa e arrumar o black, descemos pra Osvaldo Libarino, que na época se chamava Antonio Luis Vieira, onde morava o Cesar, o Biá e o Betão.
Quando chegamos na casa do Cesar, ele me apresentou a irmã Rosangela, que estava acompanhada de uma amiga, cumprimentei a Rosangela, olhando pra amiga, quando peguei na mão da amiga, segurei com toda a calma do mundo, os 3 beijos foram demorados, senti que ela enrúbreceu, as pessoas à minha volta falavam, eu não ouvia nada, meus olhos procuravam os dela, que fugiam.
O baile foi na sala, o Cesar controlava o som do quarto dele, reparei que ele tinha a coleção de discos parecida com a minha.
_Ficou afim da mina, né?!?Xiii, essa é difícil.
Peguei o disco do Jimmy, mostrei a faixa e pedi que ele jogasse essa, fui pra sala.
O DJ esperou o instante de acabar o Roque samba, olhei pra moça, quando a música começou, o Djalminha ameaçou seguir na direção da mina, pus a mão no ombro dele, não precisei dizer nada, ele saiu do caminho, dei uns passos e estiquei-lhe a mão direita, ela veio, em passos tímidos, meio com medo, pus uma mão na cintura e a outra no ombro, ao som da música a conduzi.
E assim foi, esse seleção de lentas durou muito tempo, uma música atras da outra e eu não soltava.
_E aí...vamos dar um rolê ?!?
_Não, nem te conheço.
_Olha pra todo mundo, eu sou o cara mais bonito que você já viu na vida.
_Claro que não, você é muito metido.
_Ó eu vou lutar, mas você podia economizar muito tempo de nossas vidas, já que, é o destino.
_Que destino???Tá maluco???
_Presta atenção...Nossa primeira filha vai se chamar Stephanie, os outros dois serão a mistura do meu escritor favorito.
_ Quem é esse escritor???
_Victor Hugo.
_Você é maluco.
3 meses depois, ela aceitou, num baile da Santa Barbara.
O que é que deu???puts, ela acabou de acordar, me xingou, por estar à essa hora na internet.
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
Davi e Golias
Tudo o que eu sei de esporte e superação, aprendi no E.D.D, pra falar a verdade mesmo, quando fui pra rua, faltava muito pouco pra aprender.
No Educa, me acostumei a ver o Davi derrubar o Golias, sempre o time menor que vence o maior, ou o corredor descalço superar o adversário muito bem aparelhado, passei a infância vendo e vivendo essa historia.
Pra não perder a oportunidade de uma boa lembrança, vai a passagem nossa, num jogo no estádio do Ibirapuera:
Mais uma vez nos aterrorizamos por ver, do outro lado do campo, os atletas do Cristo-Rei, primeiro pensamos que confundiram as categorias, os caras eram maiores, muito maiores.
O professor Claudiney dirigiu-se a nós, na maior calma do mundo.
_Não esquenta não...os caras são grandes, mas a bola é redonda e as traves tem o mesmo tamanho,,,pros dois lados._saiu rindo, como se fosse um mestre chinês.
Como se aquilo fizesse algum sentido.
Ainda no primeiro tempo, bati uma falta, joguei a bola na gaveta(nisso eu era bom), o professor, que nesse momento saboreava um sanduba, gritou com a boca cheia:
_tá vendo aí, ele é grande mas não voa!Incentivado por isso, ainda que, não fizesse o menor sentido, fomos pra cima e vencemos o jogo
pelo placar de 7 x 0, ao final do jogo, o goleiro quis conhecer o autor do gol de falta, me cumprimentou e disse:
_ Eu sabia que quando vocês começassem a jogar bola, seríamos massacrados.
Fiz com os ombros que não tinha entendido e queria saber o porque da afirmação, na maior tranquilidade ele falou:
_Vocês são do Dom Duarte, vocês são assim.
E saiu, nesse momento, o resto do time do Cristo-Rei cercava o Pelézinho, o neguinho tinha feito uma partida perfeita, assinou 4 gols, deu duas assistências e sofreu a falta que eu converti.
Cresci à sombra disso, ou essas coisas me fizeram crescer, sai do colégio e me tornei adulto, mas fiquei por perto, sempre que podia entrava e matava saudades da minha casa.
Por ser vizinho do colégio, meus filhos passaram a frequentar as aulas no grupo escolar e na Ozem.
Nessa época eu já havia montado a minha agremiação, metade dos alunos do ginásio jogavam nela, num belo dia, por não ter um professor de Educação Física, a diretora me convidou para montar um time e disputar os jogos escolares.Não hesitei, aceitei na mesma hora e com o entusiasmo de quem vai reviver um sonho.
Mas os tempos eram outros, pude ver nos olhos dos internos, assim que se apresentaram, esses meninos eram falastrões, indisciplinados, mimados e arrogantes.
Meu sonho se quebrou, com a prancheta na mão, olhei para o grupo, deu vontade de dizer à diretora que havia me arrependido, se não fosse pelos jogadores do Dínamo, que estavam ali também, eu teria feito, pensei que um jogo no comando desse time pudesse completar um ciclo, simbolicamente, eu devia...a mim e aos meus amigos de infância.
Rezando pra a tortura acabar logo, me apresentei no dia do jogo, enquanto escutava as abobrinhas dos meus jogadores no aquecimento, o ônibus do colégio adversário chegou, dele desceram uns guris escurinhos e tímidos, todos pequenos pra idade, olhei pro céu, que ameaçava escurecer naquele momento e entendi a ironia do destino...Eu não só havia crescido e virado adulto, havia me tornado o Golias, Aléx o meu fiel escudeiro, viu que eu tinha um sorriso de incredulidade no rosto e deu a estocada final, disse que aqueles guris eram alunos do Solano Lopes.Eu sempre fui admirador do trabalho de base da escola do Jd Boa Vista, dei de ombros e chamei meu time, passei as instruções, não ia tombar sem luta.
Aqueles meninos pequenos deitaram e rolaram em cima do meu time, eu comandava os gigantes e torcia pro Davi, no fim do jogo entreguei a prancheta pra diretora, diante da pergunta se eu ia continuar no comando, fiz um silencio e não mais voltei.
Como eu disse, não sou santo, me vinguei do Solano Lopes, meses depois, comandando o colégio Palmares.
sábado, 5 de julho de 2014
Em memória do amigo Betão.
Era o ano de 80, inverno rigoroso, tanto que, me demorei pra decidir se ia ficar no pavilhão ou ia sair com os amigos, pegar um som, posto que, era sábado.Quando decidi, fui atrasado, o ponto de encontro era sempre o mesmo, sempre íamos pra rua Osvaldo Libarino, ali, na ponta da favela, juntávamos a turma e andávamos à cata dos bailes, lá moravam o Biá, o Cesar e o Galego. Quando cheguei, pude ver que, ao lado da pick-up Ford do Macalé, que já não andava há muito tempo, havia uma fogueira e 3 meninos se aqueciam nela, eram os dois Djalmas e o Betão.
Os dois Djalmas eram internos do Educandário Dom Duarte feito eu, o Betão morava com sua família, gostava de uma boa piada e quando começava a rir, dava trabalho pra parar.
Era daqueles sujeitos da paz, de boas amizades e muitas piadas, pra falar a verdade, já começava a graça na família... sendo filho de Santista e tendo 2 irmãos Corinthianos, a peça torcia pro Palmeiras, ou seja: piada, logo de testa.
Quando me juntei a eles, era o que ele fazia mesmo, os outros 2 riam compulsivamente, perguntei onde estava a turma, ele disse que alguns tinham ido pra Flamengo, mas lá estava devagar, resolveram conferir o baile da Santa Barbara, perto do final do João XXIII, era assim que funcionava... o pessoal saia no rolê pelo bairro, cada grupo prum lado, depois todos se juntavam no melhor som, a gente podia ficar tranquilo, que dali à poucos, alguém viria dizer qual o melhor rumo.
Enquanto ouvia as piadas do Betão, aquecia as mãos no calor da fogueira e dava uns goles no copo de vinho seco, que passava de mão em mão (à isso se dava o nome de "fazer a carioca").
Enquanto ele falava, ajeitava o cabelo, para arredondar o black, os olhos verdes brilhavam no reflexo das chamas, chamá-lo de Betão já era uma piada, ele era menor que o irmão mais novo... o Rogério, a mãe tinha lhe dado o nome do rei Roberto Carlos e, é claro que isso era, sempre motivo de risos.
Em toda a turma, ele era o único que não tinha diferença com ninguém, quando havia uma discussão entre os amigos, lá estava o Betão pra separar os desafetos.
Ficamos nessa madorna um bom tempo, repentinamente, ouvimos uma correria, alguns meninos desciam a João de Lourenzo em desespero, foram ao nosso encontro, o Reginaldo ainda arfando perguntou da turma, disse que no meio do baile na Flamengo, o tal do Caveira havia prendido os nossos amigos, queria uma fita que ele não soube explicar.
Caveira era um sujeito de maus bofes, que se denominava dono do Jardim São Jorge, o Pelézinho (12) e o Coquinho (24) estavam sob o seu controle, disse o Reginaldo (que era primo do Betão), se a turma não corresse, eles iam sofrer.
Os Djalmas eram pivetes, eram corajosos, mas, pivetes... eu e o Betão nos entreolhamos e foi o Betão quem falou:
_ É... Niltão, não vai dar pra escapar dessa não.
Eu não falei nada, meus amigos estavam em perigo e, ainda que, fossemos o time reserva e a probabilidade de a gente tomar uma surra fosse grande... amigo é amigo.
Enquanto percorríamos o caminho até lá senti a adrenalina explodir, pensava na briga, eu tinha 14 anos e boa estatura, os outros quatro eram baixinhos, tudo bem, eu teria que brigar por mim e pelos outros, e pensar que uma dessas eu estaria dormindo.
Deu pra saber onde era o lugar certo pela música, tocava Bar Kays, ao nos ver, o DJ puxou a agulha do toca discos e ficou de costas, na defesa do aparelho de som.
Ganhei a sala, os meus amigos atrás de mim, o Caveira saiu da cozinha, ela media uns 4 dedos a mais que a minha altura, usava óculos escuros, caminhou ao meu encontro, ergui os braços e as mão, em gesto de Angola, ele fez o mesmo, ficamos numa distância de menos de um palmo, um do outro.
Quando eu ia começar o dialogo, o Caveira deu um pulo pra traz, os outros membros da quadrilha fizeram o mesmo, olhei pra traz e pude entender.
Já do meu lado, o Betão gritava, com a mão direita enfiada nas calças:
_Cadê os meus amigos???
Nunca havia visto o meu amigo daquele jeito, parecia um psicopata, dois dos amigos do Caveira pularam a janela e sumiram na noite, enquanto ele gritava, pigarreava e piscava, até eu fiquei com medo.
O Pelézinho e o Coquinho saíram de um dos quartos e se postaram na nossa frente, o Betão fez sinal com a cabeça, pra gente sair, ficou ali, olhos fixos nos caras, quando percebeu que já estávamos todos do lado de fora, saiu, ainda de frente pra eles.
Ganhamos a rua em silencio, ninguém saiu da casa, caminhamos 2 ou 3 quarteirões e o Betão rompeu o silêncio:
_Niltão, tá na hora de a gente correr.
_Correr pra que? Você não está com o berro na mão???
_Quando foi que eu disse isso???
Aí bateu o pânico, iniciamos a corrida, deu pra escutar alguns tiros, mas já estávamos no nosso território.
Enquanto corríamos, escutávamos o Betão gargalhar.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
O José Almir
Tem uns amigos que você vai lembrar pro resto da vida, alguns, você se lembra do começo de tudo, quando ainda, nem tinha o que lembrar, o amigo já estava lá, tem aqueles amigos que você simpatizou à primeira vista, e, tem aquelas amizades que começaram com a antipatia gratuita, depois de muita brigas, veio a paz e, aos poucos... a amizade.
O Zé Almir foi esse última opção, ele era uns 2 anos mais velho que eu, tenho lembranças da gente brigando e da gente correndo juntos, pra não apanhar, na saída do Morumbi.
Nas muitas aventuras no E.D.D, as turmas dos pavilhões se juntavam, nós, do 14, juntávamos aos caras do 12 e saíamos no rolê, o Zé era do 12, ele era feito eu, sempre relegado ao papel secundário.
O Zé, era o melhor amigo do Valdevino, e eu, era unha e carne com o Viana, nós 4 colecionávamos gibis...O Valdevino tinha um baú, com centenas de revistas do Téx e mais centenas do Fantasma, o Viana era proprietário de uns 200 exemplares dos Vingadores, entre os Marvel do Zé Almir, haviam uns raros, entre eles, a primeira aparição do Falcão Negro e a minha coleção do Homem Aranha chegava à uns 300.
Todos eramos fanáticos pelos mineiros do Clube da Esquina e quando nos juntávamos a outros meninos, editávamos a nossa versão do futebol profissional, saíamos pela área do E.D.D e desafiávamos outros times, quem vencesse, levava umas garrafas de Tubaína.
Por essa época, o capitão Pazzeli montou uma equipe poliesportiva, que alem de jogar o futsal, também praticava o Handebol, o Basquete e as provas olímpicas, tudo isso com apenas 12 atletas, isso fez, com que nós não desapartássemos por nada, ou quase nada.
Dessa turma, o que primeiro conheceu a glória de se enamorar, foi ele, o Zé...e não foi com qualquer uma, foi a Elzamar, simplesmente a mais bonita da escola.
10, entre 10 alunos do grupo escolar suspiravam por ela, sua pele trigueira, os cabelos de um negro que brilhava, de tanto escuro, os lábios carnudos, os olhos d'um castanho irreal e, principalmente o andar suave...muitas vezes, no páteo, aquelas rodinhas de amigos que se formam para falar dos mais variados assuntos eram desfeitas,pra ela passar, depois vinha o silêncio, ela passava, jogava no ar o odor de jasmim, truta, era como se o mundo parasse, só quando ela já estava longe, as rodinhas se formavam e o alarido continuava.
É claro que, passamos a olhar o Zé com a má vontade de quem perde um duelo e passamos a fazer piadas sobre o casal, tachamos o romance de "A bela e a fera".
Coincidentemente, encenávamos uma peça de Shakespeare,( nem sei qual delas) eu, de mocinho, de meia calça e espada, a mocinha em meus braços, o diretor Sergio mandou e eu beijei a Elzamar, muito mais tempo que a cena pedia, depois que gritaram_CORTA, eu a encostei na parede de cenário e a beijei, como se não houvesse amanhã.
Nessa hora, eu não lembrei do amigo, do compromisso dela e ela continuou a cena, quando nos soltamos, notei, pelo avermelhado de sua face, que tinha feito besteira, não me pesou a consciência, não mesmo...aquele foi o primeiro beijo da minha vida.
Instantes depois, coisas de 10 minutos, o Zé me barrou na fila do refeitório, muito revoltado, exigia uma explicação, pra tamanha canalhice, eu não queria brigar, disse que exageraram a coisa toda, foi somente duas pessoas interpretando um beijo, só um beijo técnico.
_Como o amigo pode acreditar que, não lhe tenho a consideração????
O capitão Pazelli não era muito alto, era um militar que gostava de mostrar a sua autoridade, gritava o tempo todo, estando certo...ele grita.Estando errado..ele gritava:
_Democracia???estou cagando e andando pra essa tal de democracia.
Um dia, pedi um aparte e disse, que se fosse possível, ele parasse de me chamar de Niltinho.
_Olha aqui, pivete, até a hora que você merecer, vai ser chamado no diminutivo e, aproveitando que você está ousado hoje, cai no chão e paga 50 flexôes.
E, ainda que fosse assim, tão autoritário e arrogante, era o professor mais querido que já tivemos.Pra falar a verdade, foi nele que eu me inspirei, quando me tornei professor.
Em 1981, fomos disputar uma Olimpíadas entre algumas escolas estaduais, no município de Ribeirão Pires, como eu disse, nosso plantel era composto dos melhores atletas do E.D.D e mais eu, que só fazia parte da equipe, por ser um excelente auxilar técnico, de quebra, fazia o salto em distancia, corria os 400 metros, pegava no gol no handebol e entrava na quadra pra bater as faltas e os penaltes no futsal(entrava, fazia os gols e voltava pro banco) com 12 anos eu já estava fazendo estágio, na minha profissão futura.
Quando descemos na escola, o professor declarou que queria bater o recorde do ano anterior, que tinha sido de 19 medalhas.
No handebol e no Basquete foi tirar doce de criança, no futsal levamos a de ouro, mas foi tão dura a disputa, que a maioria dos atletas mal tinham folego pra disputar as provas individuais.
No salto em distancia, apareceu um guri que media o dobro da minha altura e, ao invés de espinhas na cara, tinha barba, o pior salto dele foi a minha melhor marca, e isso me rendeu a prata, mas peguei o ouro nos 400.Os meninos, que tinham dado tudo no futsal, sentiam as dores, o Valdevino, que fazia 100 em 10 segundos, levou a medalha de ouro, mas acabou com um estiramento dos nervos, nessa altura, havíamos arrecadado 18 medalhas, parecia que o sonho do capitão havia ido pro brejo.
Anunciaram no auto-falante, a última prova, 800 metros rasos, num dia feliz, essa prova seria dividida pelo Zé Almir e o Valdevino, seriam duas medalhas certas, enquanto o professor pediu tempo pros organizadores e foi falar em particular com eles e os outros professores, olhei pros nossos atletas, o Valdevino jazia na arquibancada, sem qualquer condição física, o Zé estava em pé, mas, os 200 metros o havia deixado sem folego nenhum.
Depois de um tempo, voltou o capitão Pazelli a sorrir, me chamou de canto e disse:
_O Valdevino está fora, você está substituindo ele.
_Professor...
_Você vai ser o coelho, fica emparelhado com todo mundo, na marca dos 400, dispara em velocidade, isso vai forçar todos, você pára e o Zé ganha a corrida.
_Professor...
_Isso é uma ordem.
_Professssor...
Pôs a mão direita em meu ombro e segredou:
_O Zé está só o pó da rabiola, você vai ter que, quando disparar, dizer alguma coisa, que faça ela esquecer a dor.
_Professor...
_Sua missão...NILTINHO.
Eu já estava me aquecendo na linha, o Zé chegou na raia dele, se arrastava, mais parecia um corpo sem alma, fiquei pensando o que faria o morto ressuscitar.
O tiro ecoou, partimos, nos 800 não existe arrancada, nesse instante percebi que todos estavam exaustos, não só o Zé, o ritmo da corrida era muito mais lento que se podia imaginar, avançamos 100, velocidade mínima, 200 e 300, ouvimos o retardatário cair, alguém chegou no seu último esforço e tombou, eramos apenas 7, me preparei pro sprint, os 400 já chegavam, olhei pro lado esquerdo, a careta de dor do Zé, me dizia que ele ia se entregar, a marca se aproximava, chamei o Zé :
_Zé...a boca dela é muito macia.
_Que é, moleque ???
Pisei na marco dos 400, disparei e gritei:
_A boca da Elzamar, seu trouxa.
No meio daqueles guris de pernas longas eu acelerava, como se fosse um fundista, nos 600, quando eu ia parar, ouvi a voz do Zé:
_Filho da puta.Ele não tinha intenção nenhuma de me ultrapassar, acelerei, tinha medo que ele me derrubasse naquela pista cheia de pedrinhas, na velocidade que eu ia, a coisa ia ficar feia.
700 e o Zé no meu encalço, dava pra ouvir ele bufando nas minhas costas, o pior é que ele gritava palavrões, acelerei mais ainda.
Ninguém entendeu nada, quando pisei na marca de chegada, continuei a corrida, até o estacionamento e o Zé atras, subi numa arvore, o professor chegou e explicou que era tudo mentira, tudo fazia parte do seu plano, quando desci da arvore, o capitão me levantou e me jogou nos ombros, rumo ao pódio.
_Vamos lá NILTÃO, buscar nossas medalhas.
O Zé Almir foi esse última opção, ele era uns 2 anos mais velho que eu, tenho lembranças da gente brigando e da gente correndo juntos, pra não apanhar, na saída do Morumbi.
Nas muitas aventuras no E.D.D, as turmas dos pavilhões se juntavam, nós, do 14, juntávamos aos caras do 12 e saíamos no rolê, o Zé era do 12, ele era feito eu, sempre relegado ao papel secundário.
O Zé, era o melhor amigo do Valdevino, e eu, era unha e carne com o Viana, nós 4 colecionávamos gibis...O Valdevino tinha um baú, com centenas de revistas do Téx e mais centenas do Fantasma, o Viana era proprietário de uns 200 exemplares dos Vingadores, entre os Marvel do Zé Almir, haviam uns raros, entre eles, a primeira aparição do Falcão Negro e a minha coleção do Homem Aranha chegava à uns 300.
Todos eramos fanáticos pelos mineiros do Clube da Esquina e quando nos juntávamos a outros meninos, editávamos a nossa versão do futebol profissional, saíamos pela área do E.D.D e desafiávamos outros times, quem vencesse, levava umas garrafas de Tubaína.
Por essa época, o capitão Pazzeli montou uma equipe poliesportiva, que alem de jogar o futsal, também praticava o Handebol, o Basquete e as provas olímpicas, tudo isso com apenas 12 atletas, isso fez, com que nós não desapartássemos por nada, ou quase nada.
Dessa turma, o que primeiro conheceu a glória de se enamorar, foi ele, o Zé...e não foi com qualquer uma, foi a Elzamar, simplesmente a mais bonita da escola.
10, entre 10 alunos do grupo escolar suspiravam por ela, sua pele trigueira, os cabelos de um negro que brilhava, de tanto escuro, os lábios carnudos, os olhos d'um castanho irreal e, principalmente o andar suave...muitas vezes, no páteo, aquelas rodinhas de amigos que se formam para falar dos mais variados assuntos eram desfeitas,pra ela passar, depois vinha o silêncio, ela passava, jogava no ar o odor de jasmim, truta, era como se o mundo parasse, só quando ela já estava longe, as rodinhas se formavam e o alarido continuava.
É claro que, passamos a olhar o Zé com a má vontade de quem perde um duelo e passamos a fazer piadas sobre o casal, tachamos o romance de "A bela e a fera".
Coincidentemente, encenávamos uma peça de Shakespeare,( nem sei qual delas) eu, de mocinho, de meia calça e espada, a mocinha em meus braços, o diretor Sergio mandou e eu beijei a Elzamar, muito mais tempo que a cena pedia, depois que gritaram_CORTA, eu a encostei na parede de cenário e a beijei, como se não houvesse amanhã.
Nessa hora, eu não lembrei do amigo, do compromisso dela e ela continuou a cena, quando nos soltamos, notei, pelo avermelhado de sua face, que tinha feito besteira, não me pesou a consciência, não mesmo...aquele foi o primeiro beijo da minha vida.
Instantes depois, coisas de 10 minutos, o Zé me barrou na fila do refeitório, muito revoltado, exigia uma explicação, pra tamanha canalhice, eu não queria brigar, disse que exageraram a coisa toda, foi somente duas pessoas interpretando um beijo, só um beijo técnico.
_Como o amigo pode acreditar que, não lhe tenho a consideração????
O capitão Pazelli não era muito alto, era um militar que gostava de mostrar a sua autoridade, gritava o tempo todo, estando certo...ele grita.Estando errado..ele gritava:
_Democracia???estou cagando e andando pra essa tal de democracia.
Um dia, pedi um aparte e disse, que se fosse possível, ele parasse de me chamar de Niltinho.
_Olha aqui, pivete, até a hora que você merecer, vai ser chamado no diminutivo e, aproveitando que você está ousado hoje, cai no chão e paga 50 flexôes.
E, ainda que fosse assim, tão autoritário e arrogante, era o professor mais querido que já tivemos.Pra falar a verdade, foi nele que eu me inspirei, quando me tornei professor.
Em 1981, fomos disputar uma Olimpíadas entre algumas escolas estaduais, no município de Ribeirão Pires, como eu disse, nosso plantel era composto dos melhores atletas do E.D.D e mais eu, que só fazia parte da equipe, por ser um excelente auxilar técnico, de quebra, fazia o salto em distancia, corria os 400 metros, pegava no gol no handebol e entrava na quadra pra bater as faltas e os penaltes no futsal(entrava, fazia os gols e voltava pro banco) com 12 anos eu já estava fazendo estágio, na minha profissão futura.
Quando descemos na escola, o professor declarou que queria bater o recorde do ano anterior, que tinha sido de 19 medalhas.
No handebol e no Basquete foi tirar doce de criança, no futsal levamos a de ouro, mas foi tão dura a disputa, que a maioria dos atletas mal tinham folego pra disputar as provas individuais.
No salto em distancia, apareceu um guri que media o dobro da minha altura e, ao invés de espinhas na cara, tinha barba, o pior salto dele foi a minha melhor marca, e isso me rendeu a prata, mas peguei o ouro nos 400.Os meninos, que tinham dado tudo no futsal, sentiam as dores, o Valdevino, que fazia 100 em 10 segundos, levou a medalha de ouro, mas acabou com um estiramento dos nervos, nessa altura, havíamos arrecadado 18 medalhas, parecia que o sonho do capitão havia ido pro brejo.
Anunciaram no auto-falante, a última prova, 800 metros rasos, num dia feliz, essa prova seria dividida pelo Zé Almir e o Valdevino, seriam duas medalhas certas, enquanto o professor pediu tempo pros organizadores e foi falar em particular com eles e os outros professores, olhei pros nossos atletas, o Valdevino jazia na arquibancada, sem qualquer condição física, o Zé estava em pé, mas, os 200 metros o havia deixado sem folego nenhum.
Depois de um tempo, voltou o capitão Pazelli a sorrir, me chamou de canto e disse:
_O Valdevino está fora, você está substituindo ele.
_Professor...
_Você vai ser o coelho, fica emparelhado com todo mundo, na marca dos 400, dispara em velocidade, isso vai forçar todos, você pára e o Zé ganha a corrida.
_Professor...
_Isso é uma ordem.
_Professssor...
Pôs a mão direita em meu ombro e segredou:
_O Zé está só o pó da rabiola, você vai ter que, quando disparar, dizer alguma coisa, que faça ela esquecer a dor.
_Professor...
_Sua missão...NILTINHO.
Eu já estava me aquecendo na linha, o Zé chegou na raia dele, se arrastava, mais parecia um corpo sem alma, fiquei pensando o que faria o morto ressuscitar.
O tiro ecoou, partimos, nos 800 não existe arrancada, nesse instante percebi que todos estavam exaustos, não só o Zé, o ritmo da corrida era muito mais lento que se podia imaginar, avançamos 100, velocidade mínima, 200 e 300, ouvimos o retardatário cair, alguém chegou no seu último esforço e tombou, eramos apenas 7, me preparei pro sprint, os 400 já chegavam, olhei pro lado esquerdo, a careta de dor do Zé, me dizia que ele ia se entregar, a marca se aproximava, chamei o Zé :
_Zé...a boca dela é muito macia.
_Que é, moleque ???
Pisei na marco dos 400, disparei e gritei:
_A boca da Elzamar, seu trouxa.
No meio daqueles guris de pernas longas eu acelerava, como se fosse um fundista, nos 600, quando eu ia parar, ouvi a voz do Zé:
_Filho da puta.Ele não tinha intenção nenhuma de me ultrapassar, acelerei, tinha medo que ele me derrubasse naquela pista cheia de pedrinhas, na velocidade que eu ia, a coisa ia ficar feia.
700 e o Zé no meu encalço, dava pra ouvir ele bufando nas minhas costas, o pior é que ele gritava palavrões, acelerei mais ainda.
Ninguém entendeu nada, quando pisei na marca de chegada, continuei a corrida, até o estacionamento e o Zé atras, subi numa arvore, o professor chegou e explicou que era tudo mentira, tudo fazia parte do seu plano, quando desci da arvore, o capitão me levantou e me jogou nos ombros, rumo ao pódio.
_Vamos lá NILTÃO, buscar nossas medalhas.
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