Quando, na Casa de Infância do Menino Jesus, se completava dez anos,
ia-se para quarta série. Os meninos que tinham família entravam no último ano
de voltar para casa e, sentiriam saudades do orfanato.
Aos órfãos, cabia um ano de expectativa, o último ano dos carinhos das
freiras, sair do orfanato, por si só, já era uma tristeza, no entanto, o Educandário Dom Duarte era um caminho
inevitável e, se podia prever uma tempestade futura.
O ano de 1976, cursei a quarta série e o São José era o último pátio,
último estágio na minha jornada de sete anos, eu tinha vinte e nove amigos e
achava que jamais teria amigos tão queridos assim.
Alguns ex-internos vinham, aos domingos de visitas, com novidades sobre
a futura casa e pintavam um quadro sombrio, saber que no fevereiro próximo eu
desembarcaria no educa me apreendia, em cada comemoração ou festa que eu
participava, sabia que seria a última, então eu já vivia no Educandário, um ano
antes de chegar lá.
Cheguei com o Hélio, os irmãos Adalberto e Gilberto, o Luís Sérgio e o
meu irmão, o Sebastião chegou um mês depois.
O lar 14 era comandado por um casal de monstros e, não havia nada a ser
aprendido com esses, briguei e fiquei de castigo no primeiro dia, o desafeto
acabou por ser o meu melhor amigo e, mais tarde nos chamamos de irmãos.
O primeiro dormitório era dos pequenos, todos que chegaram comigo foram
para lá, à despeito da minha idade, eu tinha tamanho de médio, havia uma vaga
no dormitório dos médios, o Sérgio e a dona Ana, ficaram na dúvida se eu devia
ficar no dormitório dos médios e, eu disse:
_. Eu estou no ginásio.
Esse era o argumento que faltava, ganhei a terceira cama, à esquerda de
quem entra, meu armário ficava do lado direito, guardei minhas roupas, todas elas
já estavam com o número 152 carimbado, a minha centena preferida até hoje.
Me lembro de todos os quinze ocupantes, pela ordem, do dormitório dos
médios, mas serei aleatório:
O Feliz se chamava Luís Carlos da Silva, os dentes projetados para fora,
passava a impressão de um sorriso eterno, o Viana era o Maninho Pequeno, o
Floriano era o Maninho Grande, o Valter tinha o apelido de Spock e ele gostava
disso, lembrava o imediato do capitão Kirk, o albino Oscar era chamado de
Bandido, assim como o Luiz Carlos Dias, os irmãos Lucena(João e Hélio) passavam
a impressão de serem opostos, brigavam o tempo todo e, assim mesmo, quem
brigasse com um, tinha que brigar com os dois, o Tadeu era chamado de Padal,
sem o R mesmo, ele tinha mania de comer algumas letras, se na leitura ela não
se destacava, no futebol era um Einstein.
O Lucídio era daquelas almas que jamais farão mal a ninguém, nunca.
O Chumbinho era boa companhia para as aventuras, mas o irmão Edson era a
mansidão e a tempestade, tudo ao mesmo tempo, ao mesmo tempo que defendia os
menores, enfrentava o seu Odilon...o diabo em pessoa.
Em dias de visitas, a mãe do José Antônio trazia os bodes para todo
mundo do pavilhão e o pai do Mamede, que trabalhava na prefeitura de Itapevi,
vinha com o basculante e todo mundo subia na carroceria, só de zoeira.
Em pouco tempo, eu entendi que estava errado no que eu havia projetado
para o futuro, no 14 eu me senti em casa e, tive os melhores amigos que uma
pessoa podia ter tido na vida.
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