quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A paisagem da estrada

  Um dia, pela manhã, enquanto esperávamos dar 6:00 horas e o seu Deoclécio abrir o portão e a gente poder voltar pro lar 22, o Dooley disse que tinha medo de dar mancada na minha frente, disse que tinha certeza que eu ia escrever tudo aquilo.
  Sei lá, na época eu não tinha a menor intenção de fazê-lo, pra falar a verdade, eu nem sabia que ia viver tanto tempo, nesse tempo, a gente estava chegando de um baile, frequentar bailes nessas madrugadas era arriscar a vida, é claro que passamos maus momentos, porém, perigo mesmo eu corria uns tempos antes.
  Na inquietude da minha adolescência, eu achava que não tinha nada a perder, sabendo do perigo que corria, eu, o Miguel e o Satírio nos filiamos ao partidão, frequentávamos as reuniões e saboreávamos da cartilha de Marx, no meio de todos os frequentadores daquelas reuniões clandestinas, eramos os mais jovens, fazíamos aniversários no mesmo mês, com diferença de dias de diferença, em 1979, completaríamos 12 anos, na ficha de filiação, constava que faríamos 15, as estudantes jamais se interessariam por nós, se disséssemos a verdadeira idade.
  Na ocasião, apareceu uma viagem à Mariana-MG, se não me falha a memória, apoiar a greve do sindicato dos fabricantes de vidro.Sem termos qualquer tipo de renda, para garantir o preço da passagem e sem ter um pai pra patrocinar, recorri ao seu Tinoco.
  Esse, protestou, falou grosso, gritou, bateu na mesa e tudo e, por fim, me deu um maço de cruzeiros, amarrado por um elástico e dentro d'um envelope, quando eu o abri, tinha dinheiro suficiente para alugar o ônibus todo só pra nós.
 
O ônibus em questão era tão velho quanto o do Educandário, portanto, houveram algumas paradas no caminho, numa delas, fomos beneficiados com um lindo por-de-sol, nós 3 ficamos apreciando uma casinha num vale de montanhas e, enquanto o sol baixava, por trás das pedras, as cores iam se modificando, até ficar azul e cinza.
  Antes que chegássemos ao fim da viagem, fomos parados pela polícia e fizemos o que todo interno do E.D.D fazia com maestria, corremos muito e rápido, os 3 juntos, só nos desapartamos quando já não ouvimos mais tiros.Nessa noite, antes de nos render ao sono, na traseira de um caminhão que voltava pra São Paulo, nossas orações foram todas pro capitão Pazelli, que nos ensinou a correr.
  E não voltamos de imediato, deu pra ver um show do Lô Borges, no caminho.
  Dois dias depois, enquanto jogávamos rebatida no campão, o Satírio desceu com o cavalete, a tela e as tintas, instalou o cavalete e se sentou na cadeira, mandou o pincel na tela, achamos que ele ia nos imortalizar na tela, jogando bola, enquanto ele pintava, olhava pra nós e fechava os olhos.
  Meia hora depois, chamou por mim e pelo Miguel, fomos olhar a tela e tivemos uma grata surpresa.
  Ele havia reproduzido, com riqueza de detalhes, a paisagem da estrada, tinha até as mudanças de cores acima das montanhas.
  Era mesmo genial, o amigo Satírio.
 

domingo, 28 de dezembro de 2014

A pichação.

   Entre os anos 79 e 80, havia entre nós uma incontestável insatisfação com a política, mas, eu e meus amigos, éramos crianças... pouco, podíamos fazer.Na estrada que levava ao cenáculo, eu enrolava a linha na lata(com todo o cuidado para não embolá-la), o Viana, com toda propriedade, trazia um pipa que fora aparado pela rabiola, nisso ele era mestre.
 Eu não sabia empinar, nem fazia questão de aprender, gostava de pô-lo no ar e, ficava olhando, vendo os movimentos, pura liberdade, o amigo Viana era o oposto da moeda, tinha habilidade pra confeccionar as mais lindas pipas e os manobrava com tal maestria, que, nunca o vi perder um centímetro de linha, bastava olhar prum adversário e, em questão de minutos, já havia cortado e aparado, costumava dizer que, só as pessoas que ele permitia, tinham direito de empinar no seu espaço aéreo.
  O toca-fitas ficava embaixo de uma arvore, bem na curva da estrada, a voz do Milton cantava "Olho d'água", o Viana gostava da sonoridade das músicas do Clube da Esquina, vendo que eu tinha dificuldades em desenrolar a linha, foi me ajudar.
  _Esses nomes... Todos tem um sentido escondidos, né?
  _É, são pessoas que morreram ou desapareceram na luta.
  E, como eu era o outro lado da moeda, tinha a inteligência, que os meninos não costumam ter nessa idade.
  _Cuidado pra não ter seu nome numa canção dessas.
  Nessa altura, não fazia sentido esconder do amigo, que eu frequentava reuniões clandestinas do partidão, o Miguel e o Satírio eram os acompanhantes nessa luta, o Viana que não ligava pra política, disse que ia me proteger, dizia que tinha uma dívida comigo, já que eu havia conseguido o que a escola julgou impossível... alfabetizá-lo.

Embarcamos nessa aventura, isso era muito mais que roubar frutas do Bráulio ou passear no Taboão da Serra, no lombo dos cavalos e, muito mais perigoso.
  Um dia, meu amigo Rogério (que todos chamavam de Punk) deu-nos, em troca de seis pipas, duas latas de tinta spray, ficamos doidos para usa-las.
  Nessa época, o ônibus da Castro fazia o itinerário da Praça da Bandeira, depois de passar em Pinheiros, pegava a Avenida Brasil e seguia até a Nove de Julho... Na avenida Brasil, perto da igreja da Nossa Senhora do Brasil, haviam umas mansões abandonadas, resolvemos que ia ser ali que deixaríamos a nossa marca, o Satírio e o Miguel roeram a corda, sabiam que por esses lados residiam muitos militares e fomos só eu e o Viana.
  Levamos as latas numa mochila verde, dessas que os recrutas ganhavam no exército e vendiam pros civis, descemos em Pinheiros, na Faria Lima e seguimos a pé, se tivéssemos que ser parados, seria nesse percurso, tinha que ser uma que se visse da avenida, essa tinha uma cerca gigante com pontas de lança, escalamos e nos jogamos pra dentro, enquanto eu me escondia no jardim e via o movimento, o Viana abriu a mochila e tirou as latas, ficou com uma e me deu a outra, ele montou guarda, corri até a parede frontal e escrevi: ABAIXO, corri pro muro e o Viana foi escrever o resto da frase, lá fora, uma pessoa que passava no ônibus gritou, o Viana chegou ao meu lado, preparávamos para pular o muro de volta, quando olhei pra parede... que merda, o neguinho havia escrito DITADORA, corri pra parede, fiz duas riscas cruzadas em diagonal e escrevi a palavra certa, pulamos as lanças de volta e ganhamos a rua, jogamos as latas ao lado de uma árvore, o Viana não quis dispensar a mochila, subimos até a Rebouças e seguimos, antes de chegar na metade do quarteirão, fomos emparelhados por uma Veraneio preta e vermelha:
  _Encostem-se à parede!
  Viramos pra parede e colocamos as mãos na nuca.
  _Quais as idades?
  _Eu tenho 12 e ele tem 13_Disse eu, o Viana estava petrificado de medo.

Mandaram e entramos no camburão, a música do Milton me veio à mente, será que ele faria uma, com o meu nome?
  Ficamos em silencio toda a viajem, o carro parou, mandaram que pulássemos e pulamos pra fora, olhamos e conhecemos o local, era o ponto da FOSECO, na Raposo Tavares, meio caminho do E.D. D, assim que chegamos ao banco do ponto, eles ligaram o carro e foram embora.
  Ficamos em silencio parte da viajem e, do nada, o Viana gritou:
  _Que porra que foi isso?
  Sem saber o que dizer, dei de ombros e disse:
  _Sei lá, nosso anjo da guarda fez hora-extra.
  _Moleque, vou sempre andar com você, você é um filho da mãe mais sortudo do mundo.
  E, ninguém entendeu nada, dois guris rindo com gosto.
  Quatro dias, foi o que durou a pichação na Avenida Brasil, mas, todos os nossos amigos viram.
  Dias depois, quando íamos pro centro, vimos, no muro do cemitério da Consolação a palavra DITADORA riscada e corrigida, caímos na gargalhada. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Inocência

      No bambual, quase colado à piscina, morava um enorme lagarto teiú, verde, com detalhes amarelos, talvez nem fosse tão grande assim, (crianças de 10 anos tem tendências ao exagero mesmo) sei que a lembrança que tenho dele é d'um enorme e ameaçador, animal pré-histórico.
  Às vezes, ele aparecia na parte da estrada, que subia para o SENAI ou subia por trás do teatro, no barranco do 15 ou subia a estrada do 14, se escondia no milharal ou ia pro bananal do 12, mas ele morava mesmo, no bambual que descia pro campão.
  Eu, o Viana, o Téquinha e o Chumbinho o perseguiam, quando ele aparecia nos limites do nosso pavilhão, corríamos como caçadores, ágeis e silenciosos... Agilidade e silêncio que não bastavam, nunca chegávamos perto dele e, já ia o danado, sumindo entre o mato e o bambu.
Sempre que estávamos na perseguição do bicho, encontrávamos o Cidão, o Valdeci, o Dalcides e o Ronaldo, que moravam no pavilhão 13, que geograficamente, era mais próximo do bambual e, quando a busca se dava nos limites do 12, apareciam o Zé Almir, o Fabiano e o Valdevino, a certa altura, isso virou uma disputa territorial, cada turma queria a honra de capturar o lagarto, para o seu pavilhão, ninguém anunciou, mas estava no ar.
  Um dia, quando nós, do 14, carregávamos a padiola com a comida para o lar, ao lado do SENAI, escutamos gritos, descemos a padiola,
Fomos até o barranco da piscina e vimos os meninos do 13 correndo, não vimos o teiú, mas, sabíamos do que se tratava, poucos instantes depois, a turma do 12 desceu, sem perder tempo, escondemos a padiola nos arbustos e nos lançamos à empreitada.
  É claro que, mais uma vez, o bicho nos deixou a ver navios e desapareceu na vegetação... Nesse dia o pessoal do lar 14 achou estranho, entre o frango com batatas, havia a companhia de formigas catiçeiras, perguntado desse fenômeno gastronômico, dei de ombros e disse:
  _O pessoal da cozinha central vai de mal à pior na maior cara de pau.
No recreio da escola, tínhamos o habito de fazer hora ao redor do lago, uns iam namorar, outros iam jogar bola e outros se sentavam nas sombras gigantes que as árvores proporcionavam, coincidentemente estávamos todos, as três turmas juntas, olhando a mansidão das águas do lago, ouvimos um barulho no mato, ficamos atentos, entre os mourões da cerca, ele saiu, à margem da água, sob os nossos olhares incrédulos, bebeu a água e voltou para o mato.
  Aquilo era muito mais que um desaforo, a revolta nos dominou e foi assim que se firmou o pacto de união, naquele momento a caça passou a ser nossa obsessão, em todos os fins de semana, nos juntávamos na empreitada, em todos os fins de semanas, terminávamos do mesmo modo, de línguas pra fora e mãos abanando, capturar o réptil valia para nós, o que valia, pra os exploradores, a tumba de Cleópatra e, nesse meio tempo, tornamo-nos inseparáveis.
  Domingo, a missa era celebrada no teatro, as enormes portas laterais ficavam abertas, o padre Graciano, sempre com seu sotaque italiano de aldeões, se não fosse o folheto, com o seguimento das etapas, ninguém entenderia nada, quando terminava, o padre Paulo, (que era cearense) vinha com os seus intermináveis discursos sobre a caridade cristã e os procedimentos e convivência no colégio, dali a pouco aquilo terminava, as portas laterais eram fechadas, as luzes se apagavam e a igreja virava cinema, assim, da angustia ao prazer, em poucos minutos.
O alarido ia se abrandando aos poucos, até virar silencio total, os meninos se sentavam na ordem de seus respectivos pavilhões, por ordem de chegada, nós ficamos atrás do 12 e do 13, ainda nos perguntávamos qual seria o filme da vez... Mazzaropi. Charles Chaplin ou Bruce Lee?
  Na tela, já começavam a aparecer os crédito: Bud Spencer and. Terence Hill... Gritos unanimes no salão TRINITY.
  Percebi que algumas pessoas saíam, pela lateral esquerda, entre a parede e as cadeiras, meio apertadas, como se não quisessem ser percebidos, já acostumado com a escuridão, meus olhos puderam perceber que se tratava do Cidão e o Dalcides, poucos segundos depois, veio o Ronaldo, cutuquei o Viana, que cutucou o Chumbinho, que cutucou o Téquinha e saímos também, sem chamar a atenção de ninguém, ao passar pela turma do 12, o Zé Almir percebeu a movimentação suspeita e se levantou também, é claro que o Fabiano e o Valdevino fizeram o mesmo.
O filme já começava lá dentro, cá fora o clima era de suspense, o Cidão correu na direção do fundo do prédio e gritou:
  _Ele correu pra lá.
  Ao lado do teatro, havia um pequeno córrego de alvenaria, feito para conter as que desciam do bananal do 14 em época de chuvas, entramos nele e nada, entramos no bananal e o avistamos bem abaixo do abacateiro, quando percebeu a nossa presença parou, o Zé não correra conosco, ele e os outros do 12, haviam feito a volta e, num circulo, encurralamos o lagarto, à medida que fechávamos, ele virava a cabeça em todas as direções, quando o circulo fora reduzido a uns 2 metro de diâmetros, deu uma corrida, pra seu azar, escolheu o lado errado, foi pra cima do Valdeci, com a habilidade de um goleiro, dobrou os joelhos, esperou que o réptil passasse ao seu lado e se jogou uma mão no pescoço e outra nos quadris, o danado se bateu, o Valdeci se levantou sem impulso e o ergueu ao céu, como se fosse um troféu.
  Pulávamos de alegria e cantávamos a vitória e com muito cuidado, passávamos o bicho de mão em mão, o danado era muito grande e brilhava no pouco sol, que os galhos do abacateiro permitiam passar, seu tamanho dava a extensão exata do meu braço, nem me atrevi a segurá-lo.
  Dava pra ouvir as risadas que vinham do cinema e então nos acalmamos, sentamo-nos em círculo, entre as folhas secas do abacateiro e outras, da mangueira vizinha, o silêncio tomou conta.
  Foi o Viana, quem quebrou o silêncio:
  _E agora?
  Surgiram ideias desencontradas de prender, de criar, de tirar o couro, todas sem fundamentos, todas eram seguidas de prós e contras, até que Fabiano disse que seria melhor que o comêssemos, disse que o gosto lembrava a carne de peixe.
  Paramos nessa ideia, íamos comer, agora mesmo, lá no teatro, as crianças riam.
  O Fabiano seguiu, vamos fazer uma fogueira aqui mesmo e asar o bicho... Primeiro, temos que matar.
  O silêncio que se seguiu, logo após a palavra matar, foi, durante toda a minha vida, o mais pesado.
  O Valdeci, que era o mais velho, devia ter uns 13 anos, ao ouvir a palavra, passou o lagarto para o Viana, o Viana o segurou por uns breves segundos, ao sentir o peso da palavra, tentou se livrar do bicho, ninguém quis ficar com a função, uma tristeza tomou-lhe, com o dedo indicador principiava um carinho, vimos à cena e entendemos o amigo.
E, não éramos grandes caçadores como nos intitulávamos, éramos 11 crianças e como, só às crianças, cabe o dom da vida, nos abaixamos com o Viana, quando ele soltou o lagarto no chão, ele não foi embora, ficou ali uns instantes, depois sumiu na vegetação, quando voltávamos para o teatro, ali onde havia começado a aventura, pudemos ver na folhagem um ninho, nele havia quatro ovos, tivemos todo o cuidado para cobri-lo e fomos assistir ao filme.
  Sempre que sobravam umas frutas eu o Viana, depositávamos no bambual, os caras do 12 e do 13 faziam a mesma coisa.







 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A morte de Elis

Em 19 de Janeiro de 1982, soubemos da morte de Elis, logo pela manhã.E não foi a morte de uma artista, foi a morte de uma pessoa próxima, eu tinha 16 anos e tudo que eu sabia de música, era pela voz dela, através dela eu conheci o clube da esquina, o balanço de Tim Maia e a poesia de Belchior. Ouvia uma música, não importava o estilo, e já pensava: _Puts, na voz da Pimentinha, fica legal. Eu e meus amigos do colégio, estudávamos no E.E.P.G Alcides da Costa Vidigal, no ginásio e resolvemos que não iriamos pra aula nesse dia, no dia seguinte fiquei sabendo que os poucos guris que foram pra escola, tiveram que voltar, todos os professores e a diretora, haviam faltado. Alguns dos amigos disseram que iam para o velório, eu não fui, até hoje, sou avesso à funerais, fiquei sozinho, fui andar. Como não ia usar o dinheiro da condução, resolvi tomar um refrigerante. Fui até o bar do Barroso, puxei o banquinho, pedi a Coca e sentei, o Barroso estava com os olhos vermelhos, o homem era um troglodita e eu duvidei que fosse por conta do luto, mas, pra me contrariar, ele já foi falando da morte da Elis e, sem qualquer vergonha, chorou compulsivamente e se retirou pra atras do balcão. Eu estava em silencio e assim permaneci, na mesa atras de mim, haviam 3 senhores, que bebericavam suas cervejas tranquilamente, a esposa do Barroso saiu da cozinha, passou pelo balcão, me acenou com a cabeça e foi ligar o radio. O locutor falava da perda da grande estrela: _Essa gaúcha de Porto Alegre... Vendo que a noticia ia fazer mais infeliz o marido dela, girou o botão e desligou o radio. O mais velho, dos homens da mesa falou: _Gaúcha, veja você, eu sempre achei que ela fosse daqui mesmo.Ela tinha um jeitão daquele povo da Moóca. O homem do meio da mesa, tirou o chapéu: _Jurava que era Mineira. O terceiro não disse nada, tinha os olhos fixos no copo, e o silencio imperou no ambiente, uns minutos mais tarde, pegou o maço de flores, que havia acomodado no colo, levantou-se e disse aos outros: _Vamos lá, prestar nossas homenagens.

sábado, 1 de novembro de 2014

Seu Luis da olaria

Em 1977, eu tinha 11 anos, trabalhava pela manhã na olaria e estudava à tarde.
A olaria do E.D.D era tocada por 6 adultos e umas 8 crianças, o seu Paulo operava o trator, jogava a terra ou argila em 2 enormes tanques, que ficavam num plano alto, onde o Osvaldo e o Turquinho, com suas pás, jogavam-na numa esteira, a esteira levava a terra para a boca da máquina, lá, ela era triturada e prensada em formas que giravam, quando as formas viravam com a boca pra baixo, soltavam o tijolo em sua forma retangular em outra esteira, todos deitados, um do lado do outro, um dos meninos levantava-os em dupla, outro menino recolhia duas duplas de tijolos, essa era a quantia certa para mãos de crianças apanhar, depois colocavam num carrinho, duas fileiras com 24 tijolos em cada carrinho, assim que enchia um carrinho o menino saía para as alas, o menino que estava no lado oposto da esteira, começava a encher o seu carrinho.O carrinho era puxado como uma carroça, não era raro machucar o tornozelo, a áste de ferro, que dava equilíbrio ao carrinho, se não estivesse na altura certa...doía muito. Uma vez na fileira, os tijolos eram acomodados com cuidado, com as mãos eram afastados, coisa de 2 dedos de distancia um do outro, a fileira de baixo pra direita, a de cima pra esquerda e assim ia, até completar 8 fiadas de altura, cada fileira media 25 metros, os tijolos afastados permitiam a passagem do vento e o arranjo de zig-zag, dava equilíbrio.Terminado os tijolos do carrinho, o mesmo era virado, pisava-se no eixo com um pé, com as mãos segurava-se o apoio, o pé que ficava no chão servia para dar o impulso, o carrinho agora era um patinete e o menino virava um corredor.
Haviam mais dois funcionários...o Marcos Aurélio era o chefe, a ele cabia a responsabilidade pela produção e o seu Luis, que era quem cuidava da máquina.O Marcos Aurélio era um antigo interno que não conseguira se virar sozinho no mundão e voltou, pra atazanar as nossas vidas, gostava de bater em crianças e achava que nada fosse lhe acontecer. O seu Luis era mais velho, sua filha estudava na minha sala, usava um chapéu de palha e fumava cigarros com palha de milho, daqueles brancos que quando sorriem ficam vermelhos, se o Turquinho era um corinthiano fanático, o seu Luis era mais tranquilo.Certo dia o seu Luis achou uns ossos no meio da argila, disse que era ossos humanos, 10 minutos depois apareceram uns carros do exercito e a olaria foi lacrada por dias, o pior é que, a argila vinha de dentro do Educandário, não disse nada no pavilhão e passei os 3 dias na casa do seu Luis, já que a sua esposa acabara de dar a luz e eu ficava tomando conta da Luciana, filha mais nova. No dia 9 de Outubro daquele ano, o seu Luis me chamou e disse, em tom calmo: _Eu já dei tanto azar pro Corinthians, vê se você não me decepciona. E tirou do bolso um ingresso da final do campeonato paulista, poucos presentes me trouxeram tanta felicidade, no dia 11, entreguei-lhe um par de chuteiras, as mesmas que eu tirei dos pés do Vaguinho, no fim do jogo. Se o seu Luis era um exemplo de homem pra nós, o Marcos Aurélio era o contrario, essa coisa de corrida de carrinho no horário de serviço o deixava furioso e como ele tinha autorização pra manter a disciplina à qualquer custo, encomendou uma palmatória, no dia que ela chegou, numa caixa especial ele mostrou pros outros funcionários, estava tão feliz que não percebeu que os outros se entreolharam, pra falar a verdade, aquilo foi muito esquisito. É claro que, diante da ameaça de apanhar, as corridas foram suspensas, agora só corríamos quando ele se ausentava. Ele tinha o habito de, depois do lanche, ir ao banheiro, punha o rolo de papel higiênico debaixo do braço e ficava lá, uns 10 minutos, nessa hora eu carregava o meu carrinho, o Gilvan, já com o carrinho cheio, ficou me esperando, quando eu terminei e virei o carrinho pra puxar, ele iniciou a corrida pra sua fileira, corremos parelhos e entramos, cada qual de um lado pra descarregar os tijolos, terminamos ao mesmo tempo, ao mesmo tempo viramos os carrinhos, vencemos a ala de tijolos e chegamos ao longo corredor, tinha uns 25 metros, fiz a curva na frente, mais uns 10 metros e estaria liquidado a fatura, chinelei com vontade, só quando cheguei perto da máquina pude perceber que o Aurélio já estava lá e com a palmatória na mão.Era tarde, eu havia corrido tanto que ficara em cima dele, não dava pra fazer mais nada, preparei-me pra sentir a dor. Ele levantou a palmatória no ar, fechei os olhos e a pancada não veio, abri os olhos e o seu Luis o havia impedido de continuar o movimento, segurou a mão dele.Então, aquele homem que ninguém nunca viu levantar a voz gritou: _Não encoste nos meninos. Depois soltou a mão dele, eu ainda estava no mesmo lugar, o Aurélio levantou a mão mais uma vez, o seu Luis tornou a aparar com a mão direita, com aesquerda deu-lhe um soco(pra falar a verdade, não sei se foi um soco ou um tapa, foi muito rápido) só sei que o Aurélio voou uns 5 metros e caiu em cima da esteira,quando ele levantou deu de cara com o Osvaldo e o Turquinho, cada um com sua pá, plantados à sua frente.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O time de coração

  Em 1979, ultrapassei o teto da tecnologia que um guri de 12 anos, que ganhava 10 cruzeiros por semana, comprei um gravador portátil, era o máximo, podia ouvir as minhas fitas cassete o tempo todo.
  Bom, o tempo todo não, comprar 4 pilhas grandes era muito caro, guardava-as na geladeira, ou enterrava-as, pra que durassem bastante.
  Geralmente, só ouvia as fitas de noite, a validade de pilhas congeladas nunca ultrapassou a barreira das 2 horas.
  Por esse tempo, o Miguel do 13 e o Claudinho do 16 tiveram uma ideia de gênio...gravar as partidas do Grêmio Educandário em fita.
  Nos considerávamos os maiores torcedores do time, gostávamos de assistir o time da escada que sobe pras quadras, isso era a exata medida do meio campo, todo mundo gostava de assistir aos jogos do coreto ou dos barrancos que ladeavam o campão e o nosso lugar ficava no lado oposto, quase na altura do campo.
  O Claudinho era o narrador, o Miguel era repórter de campo e eu era o comentarista, nesses termos gravamos 2 jogos, o Claudinho imitava o Osmar Santos, o Miguel era fã do Vanderlei Nogueira e eu tentava ser preciso feito o Claudio Carsughi e, ao fim da partida, desanimado eu disse :
  _O grande Grêmio já não é mais o mesmo, ainda que não tenha conhecido a derrota, já não é, sequer a sombra do Grêmio de outrora.
  É...foi muito bonito mesmo, depois que o gravador foi desligado, meus amigos me cumprimentaram e, ficamos ali, por um tempo, vendo o campo se esvaziar e as sombras da noite reinar no campo do E,D.D, depois saímos, cada qual pro seu lado, imaginando o fim triste que se anunciava.
  Como todo grande time, o Grêmio tinha dois meias, que eram o coração da agremiação, o Ditinho e Pivete mandavam e desmandavam, devido a uma reformulação forçada, o time perdeu na defesa, isso fazia com que os dois voltassem pra marcar, sem criação o time caía das pernas.
  Durante a semana o seu Luis da olaria, disse que o seu cunhado ia entrar no time e ele era volante, segundo ele, a peça que estava faltando.
  Contei pros amigos e ainda que o seu Luis tivesse dito o nome, eu acabei esquecendo.
  Sábado de sol, 4 horas da tarde, equipe posta, faltava o nome do estreante, corri pro campo à cata do nome do sujeito.
  O time já se aquecia, passei pelo Ditinho (que é o meu pai adotivo) nem olhei pra cara dele, todos sabiam que só se podia falar com ele depois do jogo, em caso de derrota, somente dois dias depois.Entrei no vestiário e pude ver o sujeito, ele estava ali, os olhos vidrados, olhando um ponto imaginário na parede, sem fazer barulho e com muito medo na alma, sai do lugar, pra minha sorte, o Ney estava la fora, com seu sorriso simpático disse que o nome do estreante ele não sabia, mas o apelido era Murundum, anotei no caderno e passei pro Claudinho.
  O Claudinho começou a narração assim:
  _Talvez hoje seja o dia, o dia da reabilitação, o tal do Morumbi...quer dizer Mutumbi, sei lá, o camisa 5 vai fazer o Pivete sorrir, pois todo mundo sabe, quando a coisa está boa o Pivete sorri.
  Com 5 minutos de jogo, já estávamos desanimados, 2 lances do sujeito, 2 furadas monumentais.
  A essa altura, o Claudinho já havia decorado o nome e gritava:
  _O que é isso Murundum ???
  A torcida ameaçava uma vaia, podia-se ouvir apupos isolados, o dono da camisa 5 estava calmo, como se soubesse que a coisa ia virar.
  O meia adversário ganhou uma bola e partiu pra cima, vinha com ela colada no seu pé esquerdo, nossos corações gelaram, partiu em diagonal, passou a linha do meio, o Murundum foi combatê-lo, emparelhou com ele, como um leão faz, antes de atingir a jugular da presa, colou o ombro no ombro dele, tomou-lhe a bola e freou, quando o volante parou, o meia que estava sendo carregado, caiu pra fora do campo.A torcida delirou, o juiz nem teve coragem de marcar falta, daí até o fim do jogo, foi um massacre, tiveram que trocar os 4 jogadores do meio de campo, a cada chegado do nosso volante, a torcida gritava Murundum, o Ditinho fazia arte em campo e o Pivete gritava:
  _Arrê Esmagueira.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O destino

  Conheci a Angela em 1982...
  Não me lembro a data exata, só sei que era aniversário do Cesar, era férias escolares e, pela manhã, eu tinha comprado uns LPs de Black músic...uns The Floaters, Commodores, Bernard Wright e Jimmy Bo Horne...umas coisinhas que combinavam com o meu estilo.
  E estava muito metido mesmo, me convidaram prum baile no Luis Elias Attiê, é claro que fomos, eu o Viana e o Dooley, 3 caras livres de black levantados à custa de laquê, sapatos de 2 cores e pizzas nas barras das calças...SHOW.
  Quando pusemos a cara na sala, onde se dava o baile demos meia volta, o passo foi quase coreografado, não dava pra acreditar que o som que saia da sala era Patrick Dimon... puts, aquilo foi como uma ducha de agua fria, eu vinha com as bolachas debaixo do braço falei:
  _Bóra tomar conta do som.
  Voltamos, chegamos e ordenamos que o guri que passava o som descesse o mais rápido possível, aquilo era serviço de homem, meti a mão na agulha e tirei aquele som mela-cueca, pra principiar a matança, peguei um disco chamado ...And now Funk, nem escolhi a faixa, assim que a música inundou o ambiente os meninos gritaram, o guri que fora demitido foi o primeiro que gritou, pulou pro meio da pista e todos o seguiram, meus dois amigos mandaram os caras que cobravam o ingresso na porta ir passear, cobraram uns ingressos e depois liberaram a entrada.
  Cesar, nosso amigo dos bailes da Chic Show, apareceu e disse que estava dando um baile mais tarde, pra comemorar o seu aniversário, os caras do Educandário Dom Duarte, estavam convidados.
  Depois de encerrar no Attiê, passei no Educa, pra trocar de roupa e arrumar o black, descemos pra Osvaldo Libarino, que na época se chamava Antonio Luis Vieira, onde morava o Cesar, o Biá e o Betão.
  Quando chegamos na casa do Cesar, ele me apresentou a irmã Rosangela, que estava acompanhada de uma amiga, cumprimentei a Rosangela, olhando pra amiga, quando peguei na mão da amiga, segurei com toda a calma do mundo, os 3 beijos foram demorados, senti que ela enrúbreceu, as pessoas à minha volta falavam, eu não ouvia nada, meus olhos procuravam os dela, que fugiam.
  O baile foi na sala, o Cesar controlava o som do quarto dele, reparei que ele tinha a coleção de discos parecida com a minha.
  _Ficou afim da mina, né?!?Xiii, essa é difícil.
  Peguei o disco do Jimmy, mostrei a faixa e pedi que ele jogasse essa, fui pra sala.
  O DJ esperou o instante de acabar o Roque samba, olhei pra moça, quando a música começou, o Djalminha ameaçou seguir na direção da mina, pus a mão no ombro dele, não precisei dizer nada, ele saiu do caminho, dei uns passos e estiquei-lhe a mão direita, ela veio, em passos tímidos, meio com medo, pus uma mão na cintura e a outra no ombro, ao som da música a conduzi.
  E assim foi, esse seleção de lentas durou muito tempo, uma música atras da outra e eu não soltava.
  _E aí...vamos dar um rolê ?!?
  _Não, nem te conheço.
  _Olha pra todo mundo, eu sou o cara mais bonito que você já viu na vida.
  _Claro que não, você é muito metido.
  _Ó eu vou lutar, mas você podia economizar muito tempo de nossas vidas, já que, é o destino.
  _Que destino???Tá maluco???
  _Presta atenção...Nossa primeira filha vai se chamar Stephanie, os outros dois serão a mistura do meu escritor favorito.
  _ Quem é esse escritor???
  _Victor Hugo.
  _Você é maluco.
  3 meses depois, ela aceitou, num baile da Santa Barbara.
  O que é que deu???puts, ela acabou de acordar, me xingou, por estar à essa hora na internet.