quinta-feira, 21 de maio de 2015

Na Casa de Infância do Menino Jesus

 

  Tudo tinha horário, depois do almoço um pouco de televisão e, logo subíamos pro dormitório. Hora de descansar a sesta, pra mim era hora de tortura, nunca me habituei a isso.
Deitávamos nas camas, jogávamos a toalha de mão sobre o rosto "dormíamos" até as 14h00min horas, a Rúbia passava por todas as camas, em revista, e sempre descobria que eu e Fernandinho não estávamos dormindo e como sempre vinha o castigo, (castigo pra ela, pra nós era uma compensação) mandava que nos levantássemos e nos dava um cesto de vime ovalado, que servia pra acondicionar as roupas, tínhamos que descer até a rouparia e pegar as roupas da troca.

Na saída do dormitório recolhíamos o tapete em forma de pé, que ficava na entrada do banheiro, jogávamos-vos dentro do cesto, felizes da vida cruzávamos o hall dos dormitórios e chegávamos às escadas, no começo da escada púnhamos o cesto no chão, um de nós se sentava na frente, o outro o empurrava e pulava pra dentro, o cesto descia carregando-nos e, apesar da felicidade, não podíamos gritar.
Até o térreo, contavam-se quatro lances de escadas e a cena se repetia, sempre trocando a posição dos navegantes, no último, onde se podia ver o bairro do Ipiranga pela janela, nos separávamos, um pegava o pezão e o outro ficava com o cesto.
  O corrimão era largo, a pedra do acabamento tinha cor de barro e era lustrado periodicamente, para alcançar o alto do corrimão e se sentar na posição de montaria, um tinha que ajudar o outro, fazia-se a posição de cadeirinha com as mãos e o outro punha um pé, um impulso e pronto... sentava-se no tapete e se deixava escorrer, ao outro cabia descer sozinho no cesto.
 
No térreo, um longo corredor com sete portas que levavam aos pátios, no fim do corredor havia uma porta dupla azul que dava pra uma sala enorme, do lado oposto ficava a cozinha, sempre se via as vovozinhas, pelo guichê aberto, quando se entrava na sala, se deixava nas costas um grande relógio de pêndulo que batia de três em 3 horas, (isso, por si só, já era assustador) mas não era só. Ao lado do relógio, tinha uma moldura do Sagrado Coração de Cristo que seguia-nos com os olhos, de qualquer local da sala se podia ver que a imagem olhava direto pra si.
  Nesse ponto, o fato de todos estarem dormindo e nós nos divertindo, dava certo temor, passávamos ali correndo... até a próxima escada, mais dois lances e chegávamos à rouparia, a Margarida ouvia a sua rádio novela e sempre estava de mal humor, enchia o cesto com as roupas ainda quentes.


domingo, 17 de maio de 2015

A cobra do lago


 

  A copa de 78, aquela que fomos garfados pela Argentina, assistimos na sala do pavilhão 14, aquele ano fez muito frio, o chão quadriculado de marrom e bege nos deixou marcas nossos traseiros. Os jogos foram disputados à noite, então corríamos da escola pra chegar em tempo de não perder um minuto de jogo, lembro que o Mattiole e o Dalcides discutiram no recreio e chegaram mesmo a ficar beiço a beiço, numa atitude de vias de fato, o padre Paulo chegou e separou-os, agarrado pela turma de deixa disso o Dalcides gritou em tom ameaçador:
  _8 e 15.
Isso equivalia a uma marcação de briga na saída, posto que, o término das aulas se dava nesse exato horário, nos corredores começou o alarido, conversas e expectativas por conta da briga.
  O grande problema é que era... Quinta-feira, logo mais o Brasil iria enfrentar a Áustria. É lógico que quando o sinal das 08h15min bateu, todos correram, pros seus pavilhões e nem se deram conta da briga marcada. O fato é que o Dalcides e o Mattiole nunca brigaram e ninguém mais tocou no assunto.
  Ruim mesmo era ser criança e ter que aguentar, durante o jogo, as sandices do Seu Odilon. Na cabeça dele, a culpa toda foi do goleiro Leão. Quando o guarda metas da seleção fazia uma defesa, ele gritava:
  _Esse Lião é muito macho.
  Quando ele tomava gols, o grito era outro:
  _Esse Lião é um méida.
  A culpa mesmo eu colocava no Claudio Coutinho, que bateu o pé e não levou o Falcão.
  Nos dias seguintes tinha uma narrativa diferenciada do jogo, ela era feita pelo Lucídio, um neguinho que gostava de contar histórias e interpretar aventuras, usava uns sapatos de bico fino e calças pula brejo, sua figura lembrava o personagem do Al Jolson no "Cantor de Jazz", com uma diferença, o ator se pintava e o Lucídio era daquela cor mesmo. Sempre que o neguinho se apresenta, todo mundo parava, ele fazia vozes diferentes, quatro ou cinco vozes, que conversavam entre si... um show mesmo, ele jurava que iria trabalhar na televisão.
  O preferido de todos era o Carlitos do Chaplin, fazia isso com propriedade e por força do hábito, devido á um problema nas pernas, andava sempre com ela fechadas e quase não conseguia dobra-las.
  Por conta disso, não podia ser utilizado no eito, não dava conta de carpir por muito tempo e como esse era o castigo predileto do Seu Odilon, ele se vingou.
  Pra indignação de todos, foi mandado para trabalhar na olaria, onde eu trabalhava, todos os menores do 14 me pediram pra tomar conta dele, alguns me ameaçaram se não o fizesse.
  Fui no primeiro dia com ele, demos a volta na horta do japonês, já que a descida do campo era muito declive pra ele, isso aumentava o meu percurso uns 800 metros, fui o caminho preparado pra brigar, se alguém se metesse a besta. Mas qual, a simpatia do neguinho era fatal, em alguns minutos, já havia feito o que eu demorei umas semanas e já o seu público havia aumento, na hora do descanso ele já mostrava a sua arte.
  Na volta, eu tinha que andar no passo curto dele, passávamos um descampado que levava ao lago, a mata à esquerda e o canavial do 11 à direita, seguia-se um pequeno pântano e chega-se ao lago da horta e uma bifurcação, à direita chegava o campo do 14 em frente à mata. Nesse ponto, corria entre os meninos a lenda de uma cobra gigante que andava por aquelas paradas, dificilmente um guri não sentia arrepios nessa bifurcação.
  Em dias de chuva, devido à lama que se formava na estrada o neguinho não conseguia subir o barranco da horta e eu tinha que empurrá-lo morro acima. A cena era muito engraçada, toda aquela lama, eu com os chinelos nas mãos, escorregando e empurrando o Lucídio, eu gritando pra ele colaborar e ele se acabando de rir. Quase sempre ficavam uns gaiatos do outro lado do campo, no barranco do mandiocal, eles sempre assistiam a cena e chamavam os outros meninos pra assistir, quando chegávamos no pavilhão estávamos cobertos de lama vermelha.
  Por essa época o Roda estava com o habito de caçar cobras, pra vender ao Instituto Butantã e eu fui a umas expedições que ele fazia na mata e até inventei um cabo no bambu oco que prendia a cabeça da cobra, mantendo-a longe.

 Um dia na saída, quando já íamos entrar na curva da horta, ouvimos um barulho na vegetação, voltamos e avistamos uma cobra enorme que media uns bons 12 metros, o Lucídio tremia de medo eu estava fascinado, nunca imaginei ver uma daquele tamanho, se afastava lentamente na direção do lago. Resolvi que ia segui-la, pra saber onde era o esconderijo, mais tarde eu chamaria o Roda.
  O neguinho ali parado, eu disse:
  _Fica aí mesmo que eu já volto.
  E me apressei à bruta já estava longe... muito lenta se encaminhou e quase desapareceu nas touceiras, sem fazer barulho continuei na espreita, na parte sombreada do lago havia uma enorme seringueira, embaixo da arvore um buraco onde ela entrou muito devagar, quando metade do corpo dela havia passado, escutei uma correria atrás de mim, eram os amigos Chumbinho, Téquinha e Viana vinham gritando e ao avistar metade da cobra silenciaram, ficamos os 4 olhando.
  Ao final da cena o Viana me deu uma piaba:
  _Tá maluco moleque?
  Voltamos pro caminho, imaginei que o Lucídio devia estar em pânico... mas, espera aí_disse eu.
  _Como foi que vocês chegaram tão rápido?
  _O Lucídio chegou correndo, dizendo que você estava em perigo... Não terminou a frase, desatou a rir, eu e os outros caímos no mato de tanto rir.

  O Lucídio, que não conseguia andar, acabara de quebrar a barreira do som.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A paisagem da estrada

  Um dia, pela manhã, enquanto esperávamos dar 6:00 horas e o seu Deoclécio abrir o portão e a gente poder voltar pro lar 22, o Dooley disse que tinha medo de dar mancada na minha frente, disse que tinha certeza que eu ia escrever tudo aquilo.
  Sei lá, na época eu não tinha a menor intenção de fazê-lo, pra falar a verdade, eu nem sabia que ia viver tanto tempo, nesse tempo, a gente estava chegando de um baile, frequentar bailes nessas madrugadas era arriscar a vida, é claro que passamos maus momentos, porém, perigo mesmo eu corria uns tempos antes.
  Na inquietude da minha adolescência, eu achava que não tinha nada a perder, sabendo do perigo que corria, eu, o Miguel e o Satírio nos filiamos ao partidão, frequentávamos as reuniões e saboreávamos da cartilha de Marx, no meio de todos os frequentadores daquelas reuniões clandestinas, eramos os mais jovens, fazíamos aniversários no mesmo mês, com diferença de dias de diferença, em 1979, completaríamos 12 anos, na ficha de filiação, constava que faríamos 15, as estudantes jamais se interessariam por nós, se disséssemos a verdadeira idade.
  Na ocasião, apareceu uma viagem à Mariana-MG, se não me falha a memória, apoiar a greve do sindicato dos fabricantes de vidro.Sem termos qualquer tipo de renda, para garantir o preço da passagem e sem ter um pai pra patrocinar, recorri ao seu Tinoco.
  Esse, protestou, falou grosso, gritou, bateu na mesa e tudo e, por fim, me deu um maço de cruzeiros, amarrado por um elástico e dentro d'um envelope, quando eu o abri, tinha dinheiro suficiente para alugar o ônibus todo só pra nós.
 
O ônibus em questão era tão velho quanto o do Educandário, portanto, houveram algumas paradas no caminho, numa delas, fomos beneficiados com um lindo por-de-sol, nós 3 ficamos apreciando uma casinha num vale de montanhas e, enquanto o sol baixava, por trás das pedras, as cores iam se modificando, até ficar azul e cinza.
  Antes que chegássemos ao fim da viagem, fomos parados pela polícia e fizemos o que todo interno do E.D.D fazia com maestria, corremos muito e rápido, os 3 juntos, só nos desapartamos quando já não ouvimos mais tiros.Nessa noite, antes de nos render ao sono, na traseira de um caminhão que voltava pra São Paulo, nossas orações foram todas pro capitão Pazelli, que nos ensinou a correr.
  E não voltamos de imediato, deu pra ver um show do Lô Borges, no caminho.
  Dois dias depois, enquanto jogávamos rebatida no campão, o Satírio desceu com o cavalete, a tela e as tintas, instalou o cavalete e se sentou na cadeira, mandou o pincel na tela, achamos que ele ia nos imortalizar na tela, jogando bola, enquanto ele pintava, olhava pra nós e fechava os olhos.
  Meia hora depois, chamou por mim e pelo Miguel, fomos olhar a tela e tivemos uma grata surpresa.
  Ele havia reproduzido, com riqueza de detalhes, a paisagem da estrada, tinha até as mudanças de cores acima das montanhas.
  Era mesmo genial, o amigo Satírio.
 

domingo, 28 de dezembro de 2014

A pichação.

   Entre os anos 79 e 80, havia entre nós uma incontestável insatisfação com a política, mas, eu e meus amigos, éramos crianças... pouco, podíamos fazer.Na estrada que levava ao cenáculo, eu enrolava a linha na lata(com todo o cuidado para não embolá-la), o Viana, com toda propriedade, trazia um pipa que fora aparado pela rabiola, nisso ele era mestre.
 Eu não sabia empinar, nem fazia questão de aprender, gostava de pô-lo no ar e, ficava olhando, vendo os movimentos, pura liberdade, o amigo Viana era o oposto da moeda, tinha habilidade pra confeccionar as mais lindas pipas e os manobrava com tal maestria, que, nunca o vi perder um centímetro de linha, bastava olhar prum adversário e, em questão de minutos, já havia cortado e aparado, costumava dizer que, só as pessoas que ele permitia, tinham direito de empinar no seu espaço aéreo.
  O toca-fitas ficava embaixo de uma arvore, bem na curva da estrada, a voz do Milton cantava "Olho d'água", o Viana gostava da sonoridade das músicas do Clube da Esquina, vendo que eu tinha dificuldades em desenrolar a linha, foi me ajudar.
  _Esses nomes... Todos tem um sentido escondidos, né?
  _É, são pessoas que morreram ou desapareceram na luta.
  E, como eu era o outro lado da moeda, tinha a inteligência, que os meninos não costumam ter nessa idade.
  _Cuidado pra não ter seu nome numa canção dessas.
  Nessa altura, não fazia sentido esconder do amigo, que eu frequentava reuniões clandestinas do partidão, o Miguel e o Satírio eram os acompanhantes nessa luta, o Viana que não ligava pra política, disse que ia me proteger, dizia que tinha uma dívida comigo, já que eu havia conseguido o que a escola julgou impossível... alfabetizá-lo.

Embarcamos nessa aventura, isso era muito mais que roubar frutas do Bráulio ou passear no Taboão da Serra, no lombo dos cavalos e, muito mais perigoso.
  Um dia, meu amigo Rogério (que todos chamavam de Punk) deu-nos, em troca de seis pipas, duas latas de tinta spray, ficamos doidos para usa-las.
  Nessa época, o ônibus da Castro fazia o itinerário da Praça da Bandeira, depois de passar em Pinheiros, pegava a Avenida Brasil e seguia até a Nove de Julho... Na avenida Brasil, perto da igreja da Nossa Senhora do Brasil, haviam umas mansões abandonadas, resolvemos que ia ser ali que deixaríamos a nossa marca, o Satírio e o Miguel roeram a corda, sabiam que por esses lados residiam muitos militares e fomos só eu e o Viana.
  Levamos as latas numa mochila verde, dessas que os recrutas ganhavam no exército e vendiam pros civis, descemos em Pinheiros, na Faria Lima e seguimos a pé, se tivéssemos que ser parados, seria nesse percurso, tinha que ser uma que se visse da avenida, essa tinha uma cerca gigante com pontas de lança, escalamos e nos jogamos pra dentro, enquanto eu me escondia no jardim e via o movimento, o Viana abriu a mochila e tirou as latas, ficou com uma e me deu a outra, ele montou guarda, corri até a parede frontal e escrevi: ABAIXO, corri pro muro e o Viana foi escrever o resto da frase, lá fora, uma pessoa que passava no ônibus gritou, o Viana chegou ao meu lado, preparávamos para pular o muro de volta, quando olhei pra parede... que merda, o neguinho havia escrito DITADORA, corri pra parede, fiz duas riscas cruzadas em diagonal e escrevi a palavra certa, pulamos as lanças de volta e ganhamos a rua, jogamos as latas ao lado de uma árvore, o Viana não quis dispensar a mochila, subimos até a Rebouças e seguimos, antes de chegar na metade do quarteirão, fomos emparelhados por uma Veraneio preta e vermelha:
  _Encostem-se à parede!
  Viramos pra parede e colocamos as mãos na nuca.
  _Quais as idades?
  _Eu tenho 12 e ele tem 13_Disse eu, o Viana estava petrificado de medo.

Mandaram e entramos no camburão, a música do Milton me veio à mente, será que ele faria uma, com o meu nome?
  Ficamos em silencio toda a viajem, o carro parou, mandaram que pulássemos e pulamos pra fora, olhamos e conhecemos o local, era o ponto da FOSECO, na Raposo Tavares, meio caminho do E.D. D, assim que chegamos ao banco do ponto, eles ligaram o carro e foram embora.
  Ficamos em silencio parte da viajem e, do nada, o Viana gritou:
  _Que porra que foi isso?
  Sem saber o que dizer, dei de ombros e disse:
  _Sei lá, nosso anjo da guarda fez hora-extra.
  _Moleque, vou sempre andar com você, você é um filho da mãe mais sortudo do mundo.
  E, ninguém entendeu nada, dois guris rindo com gosto.
  Quatro dias, foi o que durou a pichação na Avenida Brasil, mas, todos os nossos amigos viram.
  Dias depois, quando íamos pro centro, vimos, no muro do cemitério da Consolação a palavra DITADORA riscada e corrigida, caímos na gargalhada. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Inocência

      No bambual, quase colado à piscina, morava um enorme lagarto teiú, verde, com detalhes amarelos, talvez nem fosse tão grande assim, (crianças de 10 anos tem tendências ao exagero mesmo) sei que a lembrança que tenho dele é d'um enorme e ameaçador, animal pré-histórico.
  Às vezes, ele aparecia na parte da estrada, que subia para o SENAI ou subia por trás do teatro, no barranco do 15 ou subia a estrada do 14, se escondia no milharal ou ia pro bananal do 12, mas ele morava mesmo, no bambual que descia pro campão.
  Eu, o Viana, o Téquinha e o Chumbinho o perseguiam, quando ele aparecia nos limites do nosso pavilhão, corríamos como caçadores, ágeis e silenciosos... Agilidade e silêncio que não bastavam, nunca chegávamos perto dele e, já ia o danado, sumindo entre o mato e o bambu.
Sempre que estávamos na perseguição do bicho, encontrávamos o Cidão, o Valdeci, o Dalcides e o Ronaldo, que moravam no pavilhão 13, que geograficamente, era mais próximo do bambual e, quando a busca se dava nos limites do 12, apareciam o Zé Almir, o Fabiano e o Valdevino, a certa altura, isso virou uma disputa territorial, cada turma queria a honra de capturar o lagarto, para o seu pavilhão, ninguém anunciou, mas estava no ar.
  Um dia, quando nós, do 14, carregávamos a padiola com a comida para o lar, ao lado do SENAI, escutamos gritos, descemos a padiola,
Fomos até o barranco da piscina e vimos os meninos do 13 correndo, não vimos o teiú, mas, sabíamos do que se tratava, poucos instantes depois, a turma do 12 desceu, sem perder tempo, escondemos a padiola nos arbustos e nos lançamos à empreitada.
  É claro que, mais uma vez, o bicho nos deixou a ver navios e desapareceu na vegetação... Nesse dia o pessoal do lar 14 achou estranho, entre o frango com batatas, havia a companhia de formigas catiçeiras, perguntado desse fenômeno gastronômico, dei de ombros e disse:
  _O pessoal da cozinha central vai de mal à pior na maior cara de pau.
No recreio da escola, tínhamos o habito de fazer hora ao redor do lago, uns iam namorar, outros iam jogar bola e outros se sentavam nas sombras gigantes que as árvores proporcionavam, coincidentemente estávamos todos, as três turmas juntas, olhando a mansidão das águas do lago, ouvimos um barulho no mato, ficamos atentos, entre os mourões da cerca, ele saiu, à margem da água, sob os nossos olhares incrédulos, bebeu a água e voltou para o mato.
  Aquilo era muito mais que um desaforo, a revolta nos dominou e foi assim que se firmou o pacto de união, naquele momento a caça passou a ser nossa obsessão, em todos os fins de semana, nos juntávamos na empreitada, em todos os fins de semanas, terminávamos do mesmo modo, de línguas pra fora e mãos abanando, capturar o réptil valia para nós, o que valia, pra os exploradores, a tumba de Cleópatra e, nesse meio tempo, tornamo-nos inseparáveis.
  Domingo, a missa era celebrada no teatro, as enormes portas laterais ficavam abertas, o padre Graciano, sempre com seu sotaque italiano de aldeões, se não fosse o folheto, com o seguimento das etapas, ninguém entenderia nada, quando terminava, o padre Paulo, (que era cearense) vinha com os seus intermináveis discursos sobre a caridade cristã e os procedimentos e convivência no colégio, dali a pouco aquilo terminava, as portas laterais eram fechadas, as luzes se apagavam e a igreja virava cinema, assim, da angustia ao prazer, em poucos minutos.
O alarido ia se abrandando aos poucos, até virar silencio total, os meninos se sentavam na ordem de seus respectivos pavilhões, por ordem de chegada, nós ficamos atrás do 12 e do 13, ainda nos perguntávamos qual seria o filme da vez... Mazzaropi. Charles Chaplin ou Bruce Lee?
  Na tela, já começavam a aparecer os crédito: Bud Spencer and. Terence Hill... Gritos unanimes no salão TRINITY.
  Percebi que algumas pessoas saíam, pela lateral esquerda, entre a parede e as cadeiras, meio apertadas, como se não quisessem ser percebidos, já acostumado com a escuridão, meus olhos puderam perceber que se tratava do Cidão e o Dalcides, poucos segundos depois, veio o Ronaldo, cutuquei o Viana, que cutucou o Chumbinho, que cutucou o Téquinha e saímos também, sem chamar a atenção de ninguém, ao passar pela turma do 12, o Zé Almir percebeu a movimentação suspeita e se levantou também, é claro que o Fabiano e o Valdevino fizeram o mesmo.
O filme já começava lá dentro, cá fora o clima era de suspense, o Cidão correu na direção do fundo do prédio e gritou:
  _Ele correu pra lá.
  Ao lado do teatro, havia um pequeno córrego de alvenaria, feito para conter as que desciam do bananal do 14 em época de chuvas, entramos nele e nada, entramos no bananal e o avistamos bem abaixo do abacateiro, quando percebeu a nossa presença parou, o Zé não correra conosco, ele e os outros do 12, haviam feito a volta e, num circulo, encurralamos o lagarto, à medida que fechávamos, ele virava a cabeça em todas as direções, quando o circulo fora reduzido a uns 2 metro de diâmetros, deu uma corrida, pra seu azar, escolheu o lado errado, foi pra cima do Valdeci, com a habilidade de um goleiro, dobrou os joelhos, esperou que o réptil passasse ao seu lado e se jogou uma mão no pescoço e outra nos quadris, o danado se bateu, o Valdeci se levantou sem impulso e o ergueu ao céu, como se fosse um troféu.
  Pulávamos de alegria e cantávamos a vitória e com muito cuidado, passávamos o bicho de mão em mão, o danado era muito grande e brilhava no pouco sol, que os galhos do abacateiro permitiam passar, seu tamanho dava a extensão exata do meu braço, nem me atrevi a segurá-lo.
  Dava pra ouvir as risadas que vinham do cinema e então nos acalmamos, sentamo-nos em círculo, entre as folhas secas do abacateiro e outras, da mangueira vizinha, o silêncio tomou conta.
  Foi o Viana, quem quebrou o silêncio:
  _E agora?
  Surgiram ideias desencontradas de prender, de criar, de tirar o couro, todas sem fundamentos, todas eram seguidas de prós e contras, até que Fabiano disse que seria melhor que o comêssemos, disse que o gosto lembrava a carne de peixe.
  Paramos nessa ideia, íamos comer, agora mesmo, lá no teatro, as crianças riam.
  O Fabiano seguiu, vamos fazer uma fogueira aqui mesmo e asar o bicho... Primeiro, temos que matar.
  O silêncio que se seguiu, logo após a palavra matar, foi, durante toda a minha vida, o mais pesado.
  O Valdeci, que era o mais velho, devia ter uns 13 anos, ao ouvir a palavra, passou o lagarto para o Viana, o Viana o segurou por uns breves segundos, ao sentir o peso da palavra, tentou se livrar do bicho, ninguém quis ficar com a função, uma tristeza tomou-lhe, com o dedo indicador principiava um carinho, vimos à cena e entendemos o amigo.
E, não éramos grandes caçadores como nos intitulávamos, éramos 11 crianças e como, só às crianças, cabe o dom da vida, nos abaixamos com o Viana, quando ele soltou o lagarto no chão, ele não foi embora, ficou ali uns instantes, depois sumiu na vegetação, quando voltávamos para o teatro, ali onde havia começado a aventura, pudemos ver na folhagem um ninho, nele havia quatro ovos, tivemos todo o cuidado para cobri-lo e fomos assistir ao filme.
  Sempre que sobravam umas frutas eu o Viana, depositávamos no bambual, os caras do 12 e do 13 faziam a mesma coisa.







 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A morte de Elis

Em 19 de Janeiro de 1982, soubemos da morte de Elis, logo pela manhã.E não foi a morte de uma artista, foi a morte de uma pessoa próxima, eu tinha 16 anos e tudo que eu sabia de música, era pela voz dela, através dela eu conheci o clube da esquina, o balanço de Tim Maia e a poesia de Belchior. Ouvia uma música, não importava o estilo, e já pensava: _Puts, na voz da Pimentinha, fica legal. Eu e meus amigos do colégio, estudávamos no E.E.P.G Alcides da Costa Vidigal, no ginásio e resolvemos que não iriamos pra aula nesse dia, no dia seguinte fiquei sabendo que os poucos guris que foram pra escola, tiveram que voltar, todos os professores e a diretora, haviam faltado. Alguns dos amigos disseram que iam para o velório, eu não fui, até hoje, sou avesso à funerais, fiquei sozinho, fui andar. Como não ia usar o dinheiro da condução, resolvi tomar um refrigerante. Fui até o bar do Barroso, puxei o banquinho, pedi a Coca e sentei, o Barroso estava com os olhos vermelhos, o homem era um troglodita e eu duvidei que fosse por conta do luto, mas, pra me contrariar, ele já foi falando da morte da Elis e, sem qualquer vergonha, chorou compulsivamente e se retirou pra atras do balcão. Eu estava em silencio e assim permaneci, na mesa atras de mim, haviam 3 senhores, que bebericavam suas cervejas tranquilamente, a esposa do Barroso saiu da cozinha, passou pelo balcão, me acenou com a cabeça e foi ligar o radio. O locutor falava da perda da grande estrela: _Essa gaúcha de Porto Alegre... Vendo que a noticia ia fazer mais infeliz o marido dela, girou o botão e desligou o radio. O mais velho, dos homens da mesa falou: _Gaúcha, veja você, eu sempre achei que ela fosse daqui mesmo.Ela tinha um jeitão daquele povo da Moóca. O homem do meio da mesa, tirou o chapéu: _Jurava que era Mineira. O terceiro não disse nada, tinha os olhos fixos no copo, e o silencio imperou no ambiente, uns minutos mais tarde, pegou o maço de flores, que havia acomodado no colo, levantou-se e disse aos outros: _Vamos lá, prestar nossas homenagens.

sábado, 1 de novembro de 2014

Seu Luis da olaria

Em 1977, eu tinha 11 anos, trabalhava pela manhã na olaria e estudava à tarde.
A olaria do E.D.D era tocada por 6 adultos e umas 8 crianças, o seu Paulo operava o trator, jogava a terra ou argila em 2 enormes tanques, que ficavam num plano alto, onde o Osvaldo e o Turquinho, com suas pás, jogavam-na numa esteira, a esteira levava a terra para a boca da máquina, lá, ela era triturada e prensada em formas que giravam, quando as formas viravam com a boca pra baixo, soltavam o tijolo em sua forma retangular em outra esteira, todos deitados, um do lado do outro, um dos meninos levantava-os em dupla, outro menino recolhia duas duplas de tijolos, essa era a quantia certa para mãos de crianças apanhar, depois colocavam num carrinho, duas fileiras com 24 tijolos em cada carrinho, assim que enchia um carrinho o menino saía para as alas, o menino que estava no lado oposto da esteira, começava a encher o seu carrinho.O carrinho era puxado como uma carroça, não era raro machucar o tornozelo, a áste de ferro, que dava equilíbrio ao carrinho, se não estivesse na altura certa...doía muito. Uma vez na fileira, os tijolos eram acomodados com cuidado, com as mãos eram afastados, coisa de 2 dedos de distancia um do outro, a fileira de baixo pra direita, a de cima pra esquerda e assim ia, até completar 8 fiadas de altura, cada fileira media 25 metros, os tijolos afastados permitiam a passagem do vento e o arranjo de zig-zag, dava equilíbrio.Terminado os tijolos do carrinho, o mesmo era virado, pisava-se no eixo com um pé, com as mãos segurava-se o apoio, o pé que ficava no chão servia para dar o impulso, o carrinho agora era um patinete e o menino virava um corredor.
Haviam mais dois funcionários...o Marcos Aurélio era o chefe, a ele cabia a responsabilidade pela produção e o seu Luis, que era quem cuidava da máquina.O Marcos Aurélio era um antigo interno que não conseguira se virar sozinho no mundão e voltou, pra atazanar as nossas vidas, gostava de bater em crianças e achava que nada fosse lhe acontecer. O seu Luis era mais velho, sua filha estudava na minha sala, usava um chapéu de palha e fumava cigarros com palha de milho, daqueles brancos que quando sorriem ficam vermelhos, se o Turquinho era um corinthiano fanático, o seu Luis era mais tranquilo.Certo dia o seu Luis achou uns ossos no meio da argila, disse que era ossos humanos, 10 minutos depois apareceram uns carros do exercito e a olaria foi lacrada por dias, o pior é que, a argila vinha de dentro do Educandário, não disse nada no pavilhão e passei os 3 dias na casa do seu Luis, já que a sua esposa acabara de dar a luz e eu ficava tomando conta da Luciana, filha mais nova. No dia 9 de Outubro daquele ano, o seu Luis me chamou e disse, em tom calmo: _Eu já dei tanto azar pro Corinthians, vê se você não me decepciona. E tirou do bolso um ingresso da final do campeonato paulista, poucos presentes me trouxeram tanta felicidade, no dia 11, entreguei-lhe um par de chuteiras, as mesmas que eu tirei dos pés do Vaguinho, no fim do jogo. Se o seu Luis era um exemplo de homem pra nós, o Marcos Aurélio era o contrario, essa coisa de corrida de carrinho no horário de serviço o deixava furioso e como ele tinha autorização pra manter a disciplina à qualquer custo, encomendou uma palmatória, no dia que ela chegou, numa caixa especial ele mostrou pros outros funcionários, estava tão feliz que não percebeu que os outros se entreolharam, pra falar a verdade, aquilo foi muito esquisito. É claro que, diante da ameaça de apanhar, as corridas foram suspensas, agora só corríamos quando ele se ausentava. Ele tinha o habito de, depois do lanche, ir ao banheiro, punha o rolo de papel higiênico debaixo do braço e ficava lá, uns 10 minutos, nessa hora eu carregava o meu carrinho, o Gilvan, já com o carrinho cheio, ficou me esperando, quando eu terminei e virei o carrinho pra puxar, ele iniciou a corrida pra sua fileira, corremos parelhos e entramos, cada qual de um lado pra descarregar os tijolos, terminamos ao mesmo tempo, ao mesmo tempo viramos os carrinhos, vencemos a ala de tijolos e chegamos ao longo corredor, tinha uns 25 metros, fiz a curva na frente, mais uns 10 metros e estaria liquidado a fatura, chinelei com vontade, só quando cheguei perto da máquina pude perceber que o Aurélio já estava lá e com a palmatória na mão.Era tarde, eu havia corrido tanto que ficara em cima dele, não dava pra fazer mais nada, preparei-me pra sentir a dor. Ele levantou a palmatória no ar, fechei os olhos e a pancada não veio, abri os olhos e o seu Luis o havia impedido de continuar o movimento, segurou a mão dele.Então, aquele homem que ninguém nunca viu levantar a voz gritou: _Não encoste nos meninos. Depois soltou a mão dele, eu ainda estava no mesmo lugar, o Aurélio levantou a mão mais uma vez, o seu Luis tornou a aparar com a mão direita, com aesquerda deu-lhe um soco(pra falar a verdade, não sei se foi um soco ou um tapa, foi muito rápido) só sei que o Aurélio voou uns 5 metros e caiu em cima da esteira,quando ele levantou deu de cara com o Osvaldo e o Turquinho, cada um com sua pá, plantados à sua frente.