domingo, 6 de outubro de 2013

Seu Alones


Quando guri, trabalhei na olaria, trabalho duro pra uma criança, mas dava um dinheirinho.Num belo dia apareceu por lá, a comissão de direitos humanos da OAB e ficou caracterizado como trabalho escravo, lacraram tudo.Fui trabalhar na administração trabalho de escritório, lá trabalhavam 3 ex-internos: O seu Reginaldo, o seu Alones e o seu Tinoco, eu fui designado pra ser o auxiliar do seu Tinoco que era o mais velho deles, um contador à moda antiga, (daqueles mesmo de livro-caixa, lápis preto e polainas), era mal humorado e ainda usava roupas do tempo do império.
O fato de ele ser octogenário e ter a coluna um tanto arqueada , enganava os meninos desavisados, olhavam-no e achavam que poderiam tirar farinha, ledo engano, diante de meninos bagunceiros, ele se movia com extrema habilidade e a mão era pesada, vira e mexe, algum guri tomava um tapão na orelha.
Eu me dava muito bem com ele, ainda que muitas vezes, eu o fizesse chegar ao extremo de arfar de raiva, por ser contrário às suas opiniões, foi com ele que eu descobri o local exato, onde as tropas de Getúlio Vargas, que vieram do Paraná, passaram e surpreenderam o destacamento de Pinheiros, no inverno de 1931.
Mas, isso é outra historia, eu vou contar uma, sobre o seu Alones, que diferente do seu companheiro, era mais moderno, sabia usar uma máquina de escrever elétrica e sorria o tempo todo, apesar de ter uma cabeleira branca, era ligeiro e amistoso(tipo de gente que, hoje em dia é chamado de sangue bom)De fato, não havia quem não gostasse dele, até porque, toda tarde, depois do expediente, só havia um lugar pra encontrar o praça.Muito da energia e ligeireza do atlético senhor era devido à sua excepcional forma física, ele tinha, por habito, bater bola. Entre o campão e o campo de cima, havia uma faixa de terreno, de terra vermelha batida, onde todas as tardes, os funcionários jogavam futsal.
Todas as tardes, todos os dias, tinha jogo naquela quadra, geralmente, era entre os funcionário, as partidas, se faltasse alguém, completava-se com algum interno, mas ele nunca faltava, podia-se sempre contar que, às 16:00 horas você ia vê-lo sair da pensão, em direção da quadra, com seu indefectível calção branco com listras vermelhas nas laterais, todo santo dia, sem falta.
Ali, na quadra de terra,acontecia uma metamorfose...aquele cara boa praça, sempre que começava um "racha", ele virava um bicho.
Tem gente que é assim, entre no jogo e vira outro, deixa de uma pessoa de bons modos e quer ganhar à qualquer custo e, ele passa a ser uma pessoa odiosa, o seu Alones era assim, xingava, esbravejava e, batia até na própria mãe, se necessário, pra ganhar um jogo.Um dia, eu cai na besteira de aceitar o convite, entrei no jogo, na vaga que faltava, fiquei no time dele e, é claro, perdemos o jogo.O homem só faltou me fuzilar, me disse todos os palavrõ
es do mundo e ameaçou me capar e, por incrível que pareça, a falha, que resultou na derrota, foi ele, quem cometeu e...dizer o que ? eu era o único menor no jogo e o cara, ainda por cima, era meu chefe.A vontade de mandá-lo às favas vinha, mas, eu sabia que aquilo era momentâneo, ao passar 5 minutos, o sangue esfriava e ele voltava a ser o cara de sempre.
No dia seguinte me cumprimentou pela manhã, como se não tivesse acontecido nada.
CONTINUA.

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