segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
O Batata
Já fora do Educa, fomos visitar e tiramos essa foto. Eu, meu melhor amigo(Viana) e o Rogério Japonês, a máquina era do Ditinho e ele bateu as fotos, ali no 14 ficaram os guris mais novos, sempre que passávamos por lá, os guris faziam festa...esse guri que está usando o galho da Paineira feito cipó é o Batata, por ser loirinho recebeu o apelido de Alemão-Batata, com o passar dos tempos ficou só Batata.
Desses guris ligados na eletricidade, que nunca ficam quietos, vez em quando levávamo-lo pras aventuras.
Anos mais tarde, quando eu passeava por Mariana, em Minas, o cara que passava o som da banda do Lô Borges, quando me viu, me gritou e eu fiquei sem fazer ideia de quem se tratava, ele disse já me apertando contra o peito:
_Sou eu, o Batata... do lar 14.
Retribui o carinho, ele largou a mesa de som e fomos pra um boteco do outro lado da praça, chamamos umas brêjas e sentamo-nos.
Lembrou que começou a gostar dos caras do Clube da Esquina de tanto ouvir os meus discos e que tinha por mim o apreço de um irmão mais velho.
Eu fiquei espantado, é certo que, reencontrar um amigo depois de muitos anos é um motivo de alegria, eu só não entendia o que eu tinha feito pra merecer tal consideração.
Pra me justificar, entre um copo e outro, contou uma história, que eu participei e já havia me esquecido...
Assim que a dona Camila e o seu marido Carlão foram escorraçados da diretoria do E.D. D, todos os internos com mais de 14 anos foram transferidos pro lar 22, a princípio esqueceram-se de mim e eu tive que ficar no 14, a justificativa que deram foi que eu, por me dar bem com os menores, podia auxiliar o larista, ideia que não contou com a minha simpatia, eu queria ficar com os meus amigos.
Os laristas eram o Camargo e sua esposa Neuza, boas pessoas e ainda jovens, vi os meninos gozarem um tempo melhor que o meu, na idade deles.
Num belo fim de semana, o casal saiu de folga, não tinha emergente nenhum e disseram que o pavilhão estava sob a minha responsabilidade.
Fazer o quê? Fiquei de chefe por um fim de semana.
Servi o café da manhã, chá mate e um pedaço de filão com manteiga pra cada, havia uns 20 meninos, o resto fora passar o fim de semana com suas famílias. Assim que escovaram os dentes e cada um terminou a sua parte na escala, fui à sapateira e entreguei a bola e a recomendação que ficassem todos juntos, se alguém saísse, todos saíam.
Assim que eles desceram pro campo, peguei um livro e subi pros pés de uválha, sentei-me e comecei a leitura.
Nem bem tinha lido uns três capítulos, sobe um guri gritando:
_Niltão, o Batata se machucou, ele foi dar uma bicicleta e machucou o braço.
Antes de ele concluir eu já estava correndo pro campo, de cima do barranco, pude ver que havia um bolinho perto da trave e o Batata estava no chão, apressei o passo.
Os meninos abriram e eu pude avistar o Batata, ainda que eu não tenha demonstrado, a cena foi de arrepiar, o braço direito dele havia se soltado do osso e balançava, os outros meninos tinham olhares de puro desespero, eu também estava, mas peguei-o no colo e fui dando ordens:
_Danilo. Pega a chave e tranca o pavilhão, Leandro corre e vai chamar o irmão Wilson, fala pra ele ir pra enfermaria urgente, o resto vem comigo.
Ajeitei o braço que pendia, fechei o corpo dele nos meus braços e com a mão direita segurava o braço na posição que deveria ser, subimos o barranco do campo, paramos na estrada e esperamos o Danilo se juntar a nós, quando via o braço, o Batata desandava a chorar.
_Moleque, não olha pro braço, ninguém olha pro braço dele.
O Danilo chegou e iniciamos a jornada até a assistência, ao lado do pavilhão 11, dava pra ouvir os passos dos meninos, o atrito nas pedras e todos tinha uma apreensão em seus corações.
Quando chegamos no 12, disse pra cada um contar uma história, histórias ninguém sabia, uma piada mais besta que a outra, minha coluna doía meu braço direito estava duro, mas o Batata ria, ao chegar aos pés de jabuticaba, deu pra avistar a Assistência e o irmão Wilson não havia chegado ainda, falei pro moleques avançarem nos pés, uma parte seria dada pra mim e pro Batata.
Fizeram à limpa e fomos pra entrada da Assistência, enquanto o socorro não chegava, os meninos voltaram a atacar com suas piadas, quando a Kombi do seu Matos chegou com o irmão Wilson, o Batata já estava tendo convulsões... de tanto rir.
Sem o nosso medo, o enfermeiro pegou o braço, ajeitou-o e enfaixou, havia passado na administração e pego a ficha do menino e o levou pro hospital.
Voltamos ao pavilhão e ninguém mais queria jogar bola, ficamos todos na área em silêncio, a cabeça voltada pro destino do Batata, deu a hora do almoço e descemos pra cozinha central em silêncio.
A Kombi chegou à mesma hora que nós, o irmão Wilson me entregou o menino com o braço engessado, eu e os guris ficamos felizes.
Assim que desceu do carro gritou:
_Aquela partida não terminou, vou querer revanche.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
O tempo
Via de regra, eu sou um sujeito muito mal humorado, não queria me expor
dessa forma, porém, se eu não dissesse isso, faltaria com a verdade... é da
minha natureza, essas coisas que já vem do ovo, não tem cura mesmo.
Com o tempo, a gente vai abrandando, e ou, as pessoas aprendem a te
aceitar como você é.
E, aqui vão tres passagens, separadas num espaço de 10 anos, onde o mau
humor foi acrescido de dor de dente.
Puts calcule uma pessoa que já sofre da doença da chatice crônica e
junte a isso uma dor insuportável... pronto, você terá que se proteger num
abrigo anti-aéreo.
Em 1978, meus amigos eram sempre os mesmos, aqueles que dividiam as
aventuras do futebol e das armações, entretanto, no grupo escolar, eu era um
pouco menos atirado, não participava das bagunças e não cabulava aulas... é,
pra sua decepção, caro leitor, ainda que no tempo tivesse outro nome, eu era
nerd.
Eu, o João Augusto do 12 e o Augusto do 17, costumávamos chegar umas 2
horas antes do horário e ficávamos no mesmo lugar, em frente da escola havia
umas arvores que desenhavam uma metade de um circulo, uma construção de
alvenaria foi feita em redor dessas arvores, a intenção deve ter sido de se
fazer um jardim, mas acabou virando um enorme banco, ali os meninos aguardavam
e podiam ver se algum professor faltaria pras aulas.
Ali, naquele espaço arejado e protegido pela sombra, nesse curto espaço
de tempo, debatíamos as coisas da época, tipo:
O espetacular poder do Uri Geller, que entortava talheres com a força da
mente, a existência do Pé Grande ou os mistérios do Triangulo das Bermudas,
algumas vezes, só ficávamos olhando o campão, em silêncio.
Noutras, quase chegando às vias de fato, discutíamos coisas de suma importância
pra existência humana, tipo:
_Numa luta, quem venceria... o Coisa ou o Hulk??
Todo santo dia, a Clarisse chegava uns minutos depois de nós e se
sentava uns cinco metros à nossa direita, ela morava no Jardim Cambará, minutos
depois chegava o Clóvis e se sentava a uns 5 metros a nossa esquerda, ele era
filho de um funcionário do Cemitério Israelita que morava no serviço.
Ambos sofriam do mal da timidez e seus olhares ficavam a se procurar e,
nós três no meio, todo santo dia a mesma coisa.
Um dia falei pro Clóvis chamar a moça pra conversa, ele disse que
tomaria coragem e nada, às vezes, no calor de uma discutição, parávamos e
ficávamos constrangidos com os olhares deles, parecia que os dois estavam na
conversa.
Um dia, acordei com o dente do siso me rasgando a gengiva, a dor era
qualquer coisa entre o inferno e coisa pior, fui à administração e dentista só
no dia seguinte, peguei um sol de rachar o dia todo e a dor só aumentava, não
pude mastigar o almoço e fui pra escola, quando cheguei, já estavam lá os
amigos, que perceberam que eu não estava bem, o mundo rodava e a dor aumentava.
Como de costume, chegou o casal e ficaram a nos fitar, isso fez a dor ir
ao ponto da explosão.
Levantei-me e fui ter com a Clarisse:
_Está vendo aquele guri ali?Ele quer te namorar e não tem coragem, você
quer namorar ele e não tem coragem. Peguei-a pelo braço e a levei até ele.
_Esse cara nunca vai se declarar... pelo amor de Deus, aceita logo e
mudem de lugar, caramba.
As últimas palavras saíram gritadas, sem opção, o Clóvis a tomou no
braço e os dois saíram pro lado do lago.
No dia seguinte, nenhum dos dois apareceu na escola, no dia seguinte
chegaram de mãos dadas, mas foram se acomodar pros lados da casinha do campão,
que era mais apropriado.
Quando a escola fechou pra reforma e tivemos que nos mudar pro Attiê,
ficou muito longe pros dois e eles foram estudar no Guiomar, nunca mais os
vimos.
Em 1988, eu já era pai de uma filha e morava na Osvaldão, o mesmo dente
me machucava, a massinha caíra e uma carie me corroia a gengiva.
Na época do prefeito Mario Covas, havia dentista 24 horas no posto de
saúde do São Jorge. Eu estava sentado na sala de espera, quando um sujeito
muito grande e calvo apareceu gritando pro meu lado:
_Pinhé, como vai à vida?
Sem olhar pras fuças do sujeito, já fui rebatendo:
_Pinhé é o escambau, meu nome é Nilton.
O sujeito parou na minha frente com os braços abertos:
_Sou eu, o Clóvis.
Não demonstrei entusiasmo, ele percebeu a minha cara de dor e disse:
_Daqui a pouco eu volto e saiu.
Esperei um pouco mais e fui atendido, um alemão com os olhos vermelhos
enfiou uma seringa na minha gengiva, depois que a anestesia fez efeito, meteu o
boticão e arrancou o dente, perguntou se eu o queria, diante da negativa,
encestou no lixo sem chuá.
Quando sai da sala, meio cambaleando, estavam lá o Clóvis e a Clarisse,
duas crianças pequenas e um bebê ao colo.
Fiquei feliz, a Clarisse me deu o bebê, perguntei o nome da linda
criaturazinha.
_Nilton. Responderam juntos.
Dez anos mais tarde, o guri apareceu pra jogar no meu
"Dínamo"...
Num dia de fúria, eu disse pro menino:
_Ta falando o quê menino, se não fosse eu, você nem teria nascido.
sábado, 23 de janeiro de 2016
Tiros na noite.
Os cenários mudam, a
vida é uma evolução e, devemos vivê-la plenamente... num sentido mais pleno, a
vida é um aprendizado, mesmo quando viramos a cara, ela nos dá ensinamentos.
As tardes ociosas do
pavilhão 14 me deram as aventuras com os amigos e um gosto pelo viver, mesmo
quando sozinho, sabia que ia crescer e ser livre, as tardes também me deram a
trilha sonora da infância.
No teatro do Educa,
uma fina seleção musical era exibida e, aonde que eu me encontrasse, essas
músicas me acompanhavam, no fim, viraram a trilha sonora da minha adolescência.
Dentre essas músicas, algumas da banda "The Commodores" e, entre
essas, "Sail on" era a minha predileta, daí por diante, sempre que
ela fosse exibida, eu daria uma atenção especial, ainda hoje, ela mexe comigo.
Nas imediações do
teatro, eu cantava para acompanhar o Lionel, mais tarde, nos bailes, eu tirava
uma dama e cantava no ouvido dela.
Como eu disse, a
vida é evolução e, eu cresci... estamos em 1982, moro no pavilhão 22, estudando
no Vidigal e trabalhando na P.G.E, não era mais o coadjuvante de costume, não
buscava mais a gloria no futebol, o coração das meninas, agora me movia.
Ainda que o mundo
tivesse alargado e ultrapassado as fronteiras do E.D.D, a sorte me protegia e
os amigos ainda eram os mesmos, na escola, nos bailes e nas ruas, costumávamos
andar em bando.
Um dia, uns alunos
encrenqueiros resolveram fazer bulling com o Flávio do 16, esse tinha o apelido
de Fú, o apelido era uma alusão ao personagem da série da TV que se chamava
"Kung Fú", posto que, o Flávio, como o personagem, andava sempre com
os cabelos cortados à zero.
Assim que fizeram a
rodinha em volta dele, os outros amigos correram a me procurar pela escola.
Eu estava perto da
quadra, abraçado à Lúcia, assim que me avistaram, me contaram do que estava
ocorrendo, esses amigos eram: O Djalma do 15, o Coquinho do 24, o João Augusto
do 12, o Pelezinho do 12, assim que soube do ocorrido, corri em socorro do amigo.
O Fú era pequeno para
a idade e estava rodeado por cinco valentões, em volta do círculo deles, os
outros alunos formaram uma barreira e deu trabalho furá-la, empurrei os outros
elementos e fiquei frente a frente com o líder, perguntei o que o meu amigo
havia feito e antes que ele respondesse, já havia lhe desferido um soco na
boca.
As poucas coisas que
sabíamos sobre ele era que morava no Parque do Lago, gostava de andar com
malandros e tinha o apelido de Vassoura.
Agora estávamos
frente a frente, os meus amigos nas minhas costas, os amigos dele às suas
costas e o resto dos alunos nos circundavam e torciam em silêncio, do lábio do
meu oponente escorria um filete de sangue, a adrenalina fazia o meu suor
escorrer, ambos mantínhamos os pulsos em frente ao rosto e olhávamo-nos.
Como eu já havia
atacado fiquei esperando o movimento que partiria dele, ele arfava de raiva, os
olhos lagrimejavam, me mantive calmo, qualquer coisa que ele fizesse seria em
desespero, assim que ele se projetou em minha direção e a sua mão direita
procurou o meu rosto me esquivei, um segundo soco e mais uma esquiva, quando
voltei a me levantar, segurei os braços perdidos dele e, como ele havia aberto
mão da defesa, inclinei o dorso para trás e joguei a minha cabeça na direção dele,
a minha testa atingiu em cheio o nariz, quando ele tombou houveram gritos e a
pequena multidão se abriu, no meio da multidão apareceu a Sonia, que era a
inspetora do pátio e todos chamavam de "Monga".
Queria saber o
motivo da balburdia, o Vassoura já havia se levantado e tinha uma camisa na
mão, limpava o sangue, que agora, também lhe escorria do nariz, a inspetora
perguntou e ele nada disse, olhou para mim e eu fiz cara de que não sabia de
nada, ele saiu em direção à sala de aula, achei a Lúcia no pátio e voltamos para
a quadra.
Na hora da saída,
todos os internos ficaram me esperando sair da escola, mesmo os que não haviam
participado na hora do recreio, feito o Gil do 20 e o Miguel do 13.
Atravessamos as ruas
do Peri-Peri, éramos uns 15 e sabíamos que quando chegássemos ao ponto da
Raposo Tavares, nos encontraríamos com os moleques do Parque do Lago e seria
uma briga épica.
E, como eu digo
sempre, posso não ter amealhado dinheiro na minha jornada, mas, a sorte sempre
foi minha companheira.
Naquela sexta-feira,
todos os internos que estudavam em Pinheiros resolveram nos visitar, na
verdade, eles vieram atrás das meninas do Vidigal, o total da turma subiu para
uns 35, os caras do Lago sumiram.
Lógico que a coisa
toda se empurrava para a segunda feira, mas a sorte é má conselheira, ela te
tira o medo, vestido nela você pensa que nada, nunca te fará mal.
No 12 da Raposo
Tavares, havia o "Pombal", um salão improvisado que a equipe D’Paulus
dava um som muito bom, sábado à noite era o dia.
Enquanto eu me
aprontava, o Djalma usava toda sorte de argumentos para me demover da cabeça a
ideia de ir para lá, já que, a turma do Parque do Lago costumava frequentar aquele
salão.
Disse-lhe que não
deixaria de ir a lugar algum, por medo de alguém, se fizesse isso, seria refém
do medo e não poderia sair nunca mais, já que não conseguiu me fazer mudar de
ideia, ele iria para me acompanhar.
Era bom mesmo, o som
do D’Paulus, assim que entrei na pista percebi que uns olhos grandes e
castanhos me seguiram, já me pus à disposição da dama, larguei a turma e fui
até ela, queria saber se estava sozinha, não eram só os olhos mais lindos que
eu já havia visto, ela era toda linda e, exalava um odor de Lavanda.
Ainda tocava um
balanço e ela já havia contado parte de sua vida, quando eu já me aproximava do
beijo, o Djalma me bateu no ombro e disse que o Vassoura estava lá fora, eu
disse para a moça que já voltava, só iria lá fora, resolver um probleminha.
A turma reunida se
encaminhava para a porta de saída, o Djalma me puxava e eu olhava os enormes
olhos castanhos, a música dava seus últimos acordes, fez-se um silêncio e
pôde-se ouvir a agulha cair no vinil, o som foi subindo... Sail on down the
line, 'bout...
Livrei-me do Djalma
e empolgado com a música tirei a dama dos olhos castanhos, nada poderia ser
mais importante que isso, colei meu corpo ao dela, repousei a mão esquerda no
rosto dela e a direita na cintura, minha face se uniu à dela e cantei a letra
em seu ouvido, conforme a música, nossos corpos floreavam no ritmo, o mundo não
tinha qualquer sentido, isso era viver e seria também a melhor das mortes.
Sempre que tocava
essa música eu me levava em mente no tempo dela, então, na imaginação levei a
dama dos olhos castanhos direto para o teatro do Educandário Dom Duarte.
Quando a música
chegou ao fim, encaminhei a moça para a companhia das amigas delas e me
desculpei, tinha mesmo que sair.
Á meio caminho da
porta de saída, soaram quatro tiros e houve pânico no salão, algumas pessoas
entraram para se abrigar, saímos e vimos um corpo no chão e conversas
desencontradas, chegamos mais perto e pudemos ver o rosto da vítima... o tal do
Vassoura agonizava numa enorme poça de sangue, em sua mão havia um revolver
carregado.
Disseram-nos que, o
outro sacou mais rápido... 4 minutos, foi o tempo que durou a música, 4 minutos
de atraso com o inevitável.
Maria era o nome da
moça dos olhos castanhos, nunca mais a vi e, até hoje, nem sei se ela existiu
mesmo.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
O Pelézinho.
Essa história é diferente das outras, é feito a vida e a vida não é feita apenas de boas lembranças, fatos ruins são somente fatos, se contarmos só as alegrias, caímos no erro de omitir a verdade.
No dia 2 de outubro de 1992, ocorreu o massacre do Carandiru, 111 mortos, segundo os dados oficiais, entre as vítimas estava o Pelézinho do 12.
Não julgo ninguém, é prerrogativa de cada qual seguir o caminho que lhe convém, caminhos levam às consequências, assim é a vida.
Pelézinho se chamava Wilson Roberto e chegou ao Educa em 1977, mesmo ano que eu, vindo da FEBEM.
O apelido, não era só pela aparência com o personagem do Maurício de Souza, a habilidade no campo, lhe conferia o merecimento de ser chamado de rei, e dos meninos de todos os pavilhões, do meu tempo, ele era o mais famoso de todos, portar a camisa 10 do Grêmio era lhe fazer justiça.
No campeonato de 80, eu, o Viana e o Feliz nos reuníamos pra traçar as estratégias do próximo jogo, nossa função era destruir o meio campo adversário e o próximo jogo seria contra o 12.
Sentados na caixa de alvenaria, ao lado da primavera, discutíamos sobre como parar o Pelézinho, éramos duros em campo, pra não deixar o adversário jogar era comum algumas jogadas mais violentas e discutíamos justamente isso... como parar o Pelézinho sem bater.
Diferente dos outros adversários, o guri era nosso amigo e vizinho, por outro lado, se permitíssemos que ele jogasse solto, perderíamos o confronto.
Passamos um bom tempo nessa conversa, sem que achássemos uma solução, pra falar a verdade, o Feliz nunca falava nada, eu e o Viana falávamos por nós e por ele.
Acabou que não chegamos a lugar nenhum e encerramos a reunião, à noite a gente falava sobre isso, seguimos na direção do pomar, roubar mexericas como fazíamos quase todas as tardes, descemos pela horta do Japonês, antes, porém, uma nadadinha no lago.
Quando chegamos ao lago, já estava lá o pessoal do 12, ao nos ver cumprimentaram, à beira do lago havia umas arvores os longos troncos das arvores serviam de trampolim, se o guri tivesse as manhas, poderia saltar do galho pro meio do lago, lá estava o Pelézinho.
_Ó, o tripé de meio campo do 14. Disse isso com tom de ironia.
Pulou na agua fazendo pose, mergulhou uns metros, subiu e com braçadas firmes, foi ter conosco.
Ficamos ali conversando amenidades, sabendo que o jogo se aproximava, falamos de um tudo, menos de futebol, depois as duas turmas subiram pelo lado da mata, em busca das mexericas.
A mesma história de sempre... dar nó nas mangas e na gola das camisas, vencer a vegetação da mata fechada, esgueirar-se no arame farpado, subir nas arvores, encher as camisas, desviar dos tiros de sal, correr dos cachorros, voltar pra casa e dividir o produto com os amigos.
Voltamos pelo mesmo caminho, beirando a horta dava pra ver o campo do 14 e seguimos a estrada onde uma majestosa araucária fazia uma sombra absoluta, nesse ponto os meninos do 12 se despediram, o Pelézinho ficou.
Não desviou o assunto, com a camisa carregada de mexericas às costas disse:
_Amanhã vou destruir vocês e não levem a mal.
Diante de tal sinceridade, eu disse:
_Neguinho, a gente estava discutindo um jeito de não picar a bota em você...
A risada que ele deu foi estrondosa, beirava mesmo o desprezo:
_Se eu fosse vocês, batia mesmo, por que eu vou deixa-los no chão, isso é uma promessa.
Falou isso e ajeitou a camisa nas costas e, ainda rindo, foi-se.
Ficamos ali, sorrindo, conforme ele se afastava de nós, nos mostrava no balançar do corpo um gingado de malandro e ria de nós.
_Ó, que carinha cabuloso. Disse o Viana.
Depois que o Pelézinho sumiu, o Feliz disse:
_Amanhã vou bater nesse guri feito mala velha, pra tirar baratas.
No jogo, fomos impecáveis, sem o recurso da violência, literalmente paramos o craque adversário e quando se anula o craque não dá outra, chocolate.
Não falou o jogo todo, parecia mesmo resignado o Pelézinho, em qualquer lugar do campo que ele pudesse pegar a bola, lá estava o trio, se ele fintasse um, os outros lhe tomavam a bola, a cada roubada de bola, imitávamos o riso que ele dera na véspera.
Quando o jogo chegava a final e a nossa vitória já se consolidava, o Feliz achou de sair brincando da defesa, passou o pé em cima da bola e, sem perceber que o dito cujo estava em cima dele, iniciou uma corrida pela esquerda, o Pelézinho emparelhou-se no lado oposto e tomou-lhe a bola, vendo isso, eu e o Viana corremos pra socorrer o Feliz, um de cada lado.
Assim que teve a pose da bola, parou e ficou esperando o Feliz dar o bote, o Feliz foi com sede pro bote, muito rápido e sem espaço, o neguinho enfiou a bola no meio das pernas dele, eu vinha no embalo, travei a chapa e tomei o meu, passou por mim e ficou de cara com o goleiro Marcos, entrou na área e o Viana corria nas suas costas, era só bater no gol, levantou a bola e tirou o corpo, no espaço que ele saiu o Viana passou lotado, aparou a bola com o pé esquerdo e completou a touca, com o mesmo pé ajeitou a bola, soltou o corpo no ar e deu um voleio.
Eu, o Viana e o Feliz vimos àquela obra-prima deitados, ao invés de comemorar o gol, me deu a mão, se não fosse isso eu estaria lá no chão até hoje.
No final do jogo, o Feliz argumentou:
_Que adianta isso tudo? Nós ganhamos o jogo.
Muito senhor de si, o neguinho sentenciou:
_Não disse que ia ganhar o jogo, eu disse que ia deixar os três no chão.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
De sonhos, bicicletas e papagaios.
Tem pouco tempo, com a ajuda do meu neto Miguel, abri uma fabrica de pipas.
Somos três sócios ao todo, eu, o Miguel e o nosso cachorro Nino, um poodle que acha que é Pitbull.
Devidamente aposentado, quis fazer uma coisa que me fazia feliz na infância e, por gosto, contei essa passagem pro meu neto.
Verão de 1979, já o velho Odilon havia ido embora e o seu João era o larista do 14, respirávamos uma liberdade que nunca havíamos podido antes, já se podia andar em qualquer lugar do Educa, sem ter medo do corcel II do Domingão.
É claro que o parceiro de sempre era o Viana, havíamos acabado de perder uma pipa, um cara, lá na colchoaria empinava uma enorme pipa preta e cortava todos os outros, um a um.
Isso representava guerra, já que, o Viana se considerava o dono dos ares, juntamos o pouco dinheiro e fomos comprar papel e linha.
Ao lado do mercado Paraná, a meio caminho do Guiomar, havia uma papelaria e estavam muito caro, fomos pela Asdrúbal, no sentido da Moreninha, onde havia outra papelaria, no caminho encontramos o Zanella montado numa bicicleta, ele parou e nos cumprimentou, desceu e nos mostrou à magrela, ficamos maravilhados com as modificações e a conservação. Disse-nos o preço e que o pai havia entrado nas prestações.
_Puts, ainda vou ter a minha. Disse o Viana.
O Zanella disse que ali perto, havia um senhor que estava vendendo uma usada, descemos a rua que sai do ponto final do Arpoador, seguindo as casa do BNH, quando chegamos, a vimos na garagem, uma linda Caloi barra forte com garupa e lanterna no guidom e foi paixão à primeira vista.
Batemos palma e o dono da casa veio nos atender, seu Hélio era um militar aposentado da Marinha e tinha historia ótimas da caserna, fora precocemente aposentado por conta de sua postura socialista, agora o filho havia crescido e se alistado, não ia usar mais a bicicleta.
_São 90 cruzeiros, a exata metade do preço de uma nova na loja.
Disse isso e deve ter percebido as nossas caras de tristeza, quase não olhamos pra ele, todos os olhos estavam naquela maravilha de duas rodas. Despedimos-nos do amigo Zanella compramos as coisas na papelaria, no caminho de volta só falamos na Caloi.
Descendo a João de Lorenzo, o motorista do ônibus da Castro buzinou e abriu a porta trazeira, subimos e era o China ao volante, seu filho estudava comigo no Attiê, agradecemos e ele nos deixou no portão do Educa, uma saudação ao seu Felipe na portaria e seguimos a estrada de paralelepípedos que leva ao SENAI e quebramos à esquerda, paramos na escada do teatro, a conversa foi toda sobre como levantar 90 cruzeiros, ideias e mais ideias vinham e eram descartadas e nada de concreto.
A certa altura da conversa, olhamos pro céu e uma pipa verde fazia manobras no céu, um menino sentado no barranco da piscina se divertia, soltava a linha, segurava e dava soquinhos, sua pipa desbicava no ar, ficamos admirando as evoluções.
Coisa duns 10 minutos ficamos ali em silêncio.
Por detrás da casa da dona Camila, veio de roldão, uma enorme pipa preta, em diagonal desceu a linha só tocou na linha do guri e cortou solto no ar a pipa do guri voou ao vento, a pipa preta foi buscá-lo, subiu e desceu, enrolou-se na rabiola e a recolheu.
O guri da piscina chorava, pasmos com a habilidade do vilão, falamos juntos:
_Cortou e aparou.
Corremos pro 14 e juramos inimizade eterna ao cara da colchoaria, antes era por vaidade, agora era por fazer um guri chorar.
No dia seguinte, afinamos o bambu e modelamos uma gigantesca pipa branca, desenhamos uma cruz vermelha dos templários e a colamos ao centro, batizamos-a com o nome de Justiceiro do ar.
Confeccionamos outro, de tamanho normal, que seria a isca, plano bolado por dois neguinhos desaforados...
Eu iria levantar o meu, assim que o vilão se mostrasse, o Viana vinha e zás, exibiríamos a pipa preta na trave do campão.
Quando terminamos, já se fazia noite e deixamos a vingança pro dia seguinte, nessa noite... Sonhamos com pipas e bicicletas.
Vingança não é uma coisa saudável pra uma criança, o bom do destino é que ele não escolhe a hora de fazer o mal virar bem, sem perceber, ele muda as coisas.
Costumávamos empinar as pipas na estrada do 12, mas desta feita iríamos mudar o local, queríamos que todos vissem a nossa vitória.
Peguei o pipa grande, sua envergadura cobria toda a extensão das minhas costas, do pescoço até a cintura, fomos em sentido à jaqueira, no meio do caminho o Viana se lembrou que tinha uns abacates para enrustir, fiquei na estrada e ele adentrou o bananal, sentei-me na caixa de alvenaria ao lado do milharal e fiquei a esperar.
Vindo do Cenáculo, uma Veraneio parou do meu lado, um homem que aparentava uns 30 anos abriu a janela e disse:
_Ô menino, quer vender essa pipa?
Fiquei em silêncio e fiz uma cara de que não havia entendido a isso se dá o nome de presença de espirito, na verdade, eu não fazia a menor ideia de quando devia fazer o preço. Ele repetiu a pergunta.
_Moço, eu acho que você não teria o dinheiro suficiente pra pagar essa pipa aqui...
O homem perdeu a paciência, saiu do carro e gritou:
_Comprei uma pipa na Vila Borges e paguei cinco cruzeiros.
_Conheço essas da Vila Borges, nem chegam aos pés dessa, pode observar.
Com a gigantesca pipa na mão, ele pareceu hipnotizado, era dos nossos, jogou a pipa dentro do carro, tirou a carteira e disse:
_Só dou 10.
_15?
_10.
_15.
_12.
_Fechado.
Quando o Viana saiu, teve um susto ao me ver de mão abanando, mostrei as notas e fomos pra papelaria, compramos o material pra confeccionar 30 pipas e um troquinho pra Tubaína, confeccionamos as pipas e vendemos na feira de quinta e na de domingo.
Apuramos 78 cruzeiros e ficamos com medo de alguém comprar antes de chegarmos à quantia exata, resolvemos entregar ao seu Hélio o que tínhamos e ele tirava a placa de venda, até a gente conseguir o resto.
Quando o homem viu o dinheiro em nossas mãos, ficou boquiaberto, contamos o que fizemos e fizemos a proposta.
_Então, vamos recapitular... eu fico com o dinheiro, guardo a bicicleta e quando me derem a quantia restante, levam a bicicleta?
_Isso mesmo.
Estava espantado com a nossa disponibilidade, coçou a cabeça e disse:
Guardem o dinheiro, venham amanhã, vou pensar e amanhã faço uma contra proposta, quando íamos embora, o vimos levar a bicicleta pra dentro.
No dia seguinte, lá estávamos nós e haviam duas bicicletas na garagem.
Impressionado com a nossa atitude, o homem não só não aceitou o nosso dinheiro, como deu uma bicicleta pra cada.
E, os guris que queria ser os reis dos ares, tiveram que se contentar em ser os reis da estrada.
Somos três sócios ao todo, eu, o Miguel e o nosso cachorro Nino, um poodle que acha que é Pitbull.
Devidamente aposentado, quis fazer uma coisa que me fazia feliz na infância e, por gosto, contei essa passagem pro meu neto.
Verão de 1979, já o velho Odilon havia ido embora e o seu João era o larista do 14, respirávamos uma liberdade que nunca havíamos podido antes, já se podia andar em qualquer lugar do Educa, sem ter medo do corcel II do Domingão.
É claro que o parceiro de sempre era o Viana, havíamos acabado de perder uma pipa, um cara, lá na colchoaria empinava uma enorme pipa preta e cortava todos os outros, um a um.
Isso representava guerra, já que, o Viana se considerava o dono dos ares, juntamos o pouco dinheiro e fomos comprar papel e linha.
Ao lado do mercado Paraná, a meio caminho do Guiomar, havia uma papelaria e estavam muito caro, fomos pela Asdrúbal, no sentido da Moreninha, onde havia outra papelaria, no caminho encontramos o Zanella montado numa bicicleta, ele parou e nos cumprimentou, desceu e nos mostrou à magrela, ficamos maravilhados com as modificações e a conservação. Disse-nos o preço e que o pai havia entrado nas prestações.
_Puts, ainda vou ter a minha. Disse o Viana.
O Zanella disse que ali perto, havia um senhor que estava vendendo uma usada, descemos a rua que sai do ponto final do Arpoador, seguindo as casa do BNH, quando chegamos, a vimos na garagem, uma linda Caloi barra forte com garupa e lanterna no guidom e foi paixão à primeira vista.
Batemos palma e o dono da casa veio nos atender, seu Hélio era um militar aposentado da Marinha e tinha historia ótimas da caserna, fora precocemente aposentado por conta de sua postura socialista, agora o filho havia crescido e se alistado, não ia usar mais a bicicleta.
_São 90 cruzeiros, a exata metade do preço de uma nova na loja.
Disse isso e deve ter percebido as nossas caras de tristeza, quase não olhamos pra ele, todos os olhos estavam naquela maravilha de duas rodas. Despedimos-nos do amigo Zanella compramos as coisas na papelaria, no caminho de volta só falamos na Caloi.
Descendo a João de Lorenzo, o motorista do ônibus da Castro buzinou e abriu a porta trazeira, subimos e era o China ao volante, seu filho estudava comigo no Attiê, agradecemos e ele nos deixou no portão do Educa, uma saudação ao seu Felipe na portaria e seguimos a estrada de paralelepípedos que leva ao SENAI e quebramos à esquerda, paramos na escada do teatro, a conversa foi toda sobre como levantar 90 cruzeiros, ideias e mais ideias vinham e eram descartadas e nada de concreto.
A certa altura da conversa, olhamos pro céu e uma pipa verde fazia manobras no céu, um menino sentado no barranco da piscina se divertia, soltava a linha, segurava e dava soquinhos, sua pipa desbicava no ar, ficamos admirando as evoluções.
Coisa duns 10 minutos ficamos ali em silêncio.
Por detrás da casa da dona Camila, veio de roldão, uma enorme pipa preta, em diagonal desceu a linha só tocou na linha do guri e cortou solto no ar a pipa do guri voou ao vento, a pipa preta foi buscá-lo, subiu e desceu, enrolou-se na rabiola e a recolheu.
O guri da piscina chorava, pasmos com a habilidade do vilão, falamos juntos:
_Cortou e aparou.
Corremos pro 14 e juramos inimizade eterna ao cara da colchoaria, antes era por vaidade, agora era por fazer um guri chorar.
No dia seguinte, afinamos o bambu e modelamos uma gigantesca pipa branca, desenhamos uma cruz vermelha dos templários e a colamos ao centro, batizamos-a com o nome de Justiceiro do ar.
Confeccionamos outro, de tamanho normal, que seria a isca, plano bolado por dois neguinhos desaforados...
Eu iria levantar o meu, assim que o vilão se mostrasse, o Viana vinha e zás, exibiríamos a pipa preta na trave do campão.
Quando terminamos, já se fazia noite e deixamos a vingança pro dia seguinte, nessa noite... Sonhamos com pipas e bicicletas.
Vingança não é uma coisa saudável pra uma criança, o bom do destino é que ele não escolhe a hora de fazer o mal virar bem, sem perceber, ele muda as coisas.
Costumávamos empinar as pipas na estrada do 12, mas desta feita iríamos mudar o local, queríamos que todos vissem a nossa vitória.
Peguei o pipa grande, sua envergadura cobria toda a extensão das minhas costas, do pescoço até a cintura, fomos em sentido à jaqueira, no meio do caminho o Viana se lembrou que tinha uns abacates para enrustir, fiquei na estrada e ele adentrou o bananal, sentei-me na caixa de alvenaria ao lado do milharal e fiquei a esperar.
Vindo do Cenáculo, uma Veraneio parou do meu lado, um homem que aparentava uns 30 anos abriu a janela e disse:
_Ô menino, quer vender essa pipa?
Fiquei em silêncio e fiz uma cara de que não havia entendido a isso se dá o nome de presença de espirito, na verdade, eu não fazia a menor ideia de quando devia fazer o preço. Ele repetiu a pergunta.
_Moço, eu acho que você não teria o dinheiro suficiente pra pagar essa pipa aqui...
O homem perdeu a paciência, saiu do carro e gritou:
_Comprei uma pipa na Vila Borges e paguei cinco cruzeiros.
_Conheço essas da Vila Borges, nem chegam aos pés dessa, pode observar.
Com a gigantesca pipa na mão, ele pareceu hipnotizado, era dos nossos, jogou a pipa dentro do carro, tirou a carteira e disse:
_Só dou 10.
_15?
_10.
_15.
_12.
_Fechado.
Quando o Viana saiu, teve um susto ao me ver de mão abanando, mostrei as notas e fomos pra papelaria, compramos o material pra confeccionar 30 pipas e um troquinho pra Tubaína, confeccionamos as pipas e vendemos na feira de quinta e na de domingo.
Apuramos 78 cruzeiros e ficamos com medo de alguém comprar antes de chegarmos à quantia exata, resolvemos entregar ao seu Hélio o que tínhamos e ele tirava a placa de venda, até a gente conseguir o resto.
Quando o homem viu o dinheiro em nossas mãos, ficou boquiaberto, contamos o que fizemos e fizemos a proposta.
_Então, vamos recapitular... eu fico com o dinheiro, guardo a bicicleta e quando me derem a quantia restante, levam a bicicleta?
_Isso mesmo.
Estava espantado com a nossa disponibilidade, coçou a cabeça e disse:
Guardem o dinheiro, venham amanhã, vou pensar e amanhã faço uma contra proposta, quando íamos embora, o vimos levar a bicicleta pra dentro.
No dia seguinte, lá estávamos nós e haviam duas bicicletas na garagem.
Impressionado com a nossa atitude, o homem não só não aceitou o nosso dinheiro, como deu uma bicicleta pra cada.
E, os guris que queria ser os reis dos ares, tiveram que se contentar em ser os reis da estrada.
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
O castigo
Nessa, vou pedindo desculpas pras moças.
As mulheres, esse maravilhoso presente de Deus, que fazem os meninos suspirarem, que silenciam uma conversa animada, que nos causam dores na alma e nos tiram o sono, nos faz poetas e patetas.
Tudo isso, num tempo mais tarde, na infância nosso maior material de adorno tem outro nome... bola.
Feito isso, deu pra perceber que vem aí mais uma aventura de futebol, futebol e amizade.
_Caramba Niltão, você só pensava em bola? Perguntará o leitor.
_Absolutamente, eu pensava em coisas como, a paz mundial, ganhar na loteria esportiva, conhecer o Simba Safari e quebrar a cara do George Foreman. É... pensando bem, eu só pensava na bola mesmo.
Na verdade, eu não conseguiria falar desse amigo, sem falar de uma partida de futebol memorável.
Antes disso, um prólogo que vai, no fim do texto, dar sentido à narrativa:
No final de 1979, mais ou menos, houve uma verdadeira revolução no Educa, quase todos os grandes foram "expulsos", os buldogs da dona Camila passaram a fazer parte da paisagem, os irmãos foram embora, o pavilhão 11 foi desativado e mais tarde viraria a creche, livre dos grandes o pavilhão 15 virou um lar de meninos com idade de seis e sete anos.
Os meninos do 15 viraram a grande atração, quando eles desciam, em fila indiana, para o refeitório central, causava certa euforia nos outros internos, qualquer um que estivesse na frente da fila, dava licença pra eles, eram os caçulinhas de todos. Vendo um deles, que se movia muito rápido e entre todos era o mais bagunceiro, meu amigo Viana disse:
_Aquele ali parece o Ligeirinho, aquele ratinho das histórias infantis, todos concordamos e o apelido pegou.
Então vamos ao assunto:
O Valdir Lustosa havia vindo da Casa de Infância, mais um dos meus amigos mais velhos, tinha o irmão Paulo e eles moravam no lar 24.
Disse em outra postagem, quando falei do Sebastião, que na Casa da Infância haviam dois grandes goleiros, o outro era o Valdir.
Ainda que ele fosse um "fora de série" no gol, o time do 24 era de medíocre à ruim, suas belas defesas não salvavam o time.
Nosso próximo adversário seria o 24, a hegemonia do 14 era tão grande que a expectativa era um massacre, com muitos gols.
Cego pela arrogância encontrei o Valdir no Attiê, na hora do recreio, falamos sobre o jogo próximo e devo ter sido bem pretencioso, ele ameaçou de partir pra pancada, formou-se uma rodinha em volta, uns me seguravam e outros o seguravam.
_Tá pensando que vai ser fácil assim? Vamos deixar vocês de joelhos, vão ver, vão ver.
Alterado, mas tentando me manter calmo disse, entre o riso sarcástico:
_Só um milagre vai salvá-los da ruína.
É, fui prepotente, arrogante e nada humilde, vai dizer o leitor.
Sabendo que, se eu alegasse ter doze anos à época, não seria uma boa desculpa, admito que fosse bem canálha nesse episódio. Pessoa mais espiritualizada, diria que eu iria pagar nas próximas encarnações.
Porém, isso não acontece no meu caso, se Deus espera o momento certo pra ajustar as contas com todos... no meu caso, o castigo vem na hora, sempre foi assim.
Da sexta pro sábado, sem aviso nenhum, caiu um verdadeiro dilúvio, fomos dormir com uma chuva medonha e ela perdurou a noite toda, a manhã toda e cessou as 13:00 horas e o jogo estava marcado pras 14.
O campão do Educa era um sonho, grande, bem localizado e imponente, mas em termos de drenagem...
Quando chegamos ao local do combate, veio-nos uma vontade de chorar, o campão havia se transformado numa gigante piscina de lama, pensamos em conversar pra adiar a partida.
O Luís Paulo que, já era preto, trajava um uniforme muito preto. Olhou-nos de rabo de olho, o apito já à boca, balançou a cabeça numa negativa.
O time do 24 chegou, vestindo camisa, calção e meiões cinzas, o Valdir vinha sorrindo na frente da fila, olhei pro céu e o sol era firme, a torcida estava disposta a ver um espetáculo pastelão e gritava pra partida começar logo.
Naquele lamaçal nada adiantaria nosso toque de bola, se o Negão e o Mamede eram os mais rápidos laterais ou se o Tadeu era o melhor jogador de todo o Educa, se o trio de volante do 14 era o mais eficiente do campeonato, a gente mal conseguía nos manter em pé.
Na hora que os times se cumprimentavam, o Valdir ainda ria quando me apertava a mão:
_Eu acredito em milagres, e você?
Nesse momento eu fui ao inferno e voltei e, se tinha uma coisa que pouca gente sabia era que o Valdir era feito o Ayrton Senna, normalmente um ótimo goleiro, na lama ele era imbatível.
Estava em silencio quando nos juntamos no meio do campo, o Viana falou:
_Vamos jogar feio, se tiver espaço, paulada no gol.
E foi mesmo um jogo feio, sem passes, sem toque de bola, sem jogadas de efeito e a torcida se divertido com o espetáculo, a chuva voltou e todos se amontoavam na casinha da arquibancada.
Fizemos o combinado, de qualquer lugar batíamos pro gol, cada chute que dávamos o Valdir fazia uma defesa mais linda e ele ganhou o carinho da torcida.
No primeiro tempo ainda, o Luís Paulo marcou uma penalidade pra nós e ninguém contestou, fui pra bater, posto que, eu era o batedor oficial.
Ajeitei a bola na única parte de grama da área do gol que fica na frente da bica, a torcida gritava o nome do Valdir, ignorei e bati com convicção, esticou-se e buscou a bola, nunca havia perdido um pênalti na minha vida, quando o rebote voltou pro meu lado, me desequilibrei e cai na lama. É claro que virei à piada do jogo, parte da torcida gritava o nome do goleiro, a outra parte me xingava.
Poucos minutos depois, outra penalidade foi marcada, fui pra bola pensando em vingança, antes disso o Tadeu pegou a bola e disse que ele ia bater, minha liderança havia sido desafiada e ninguém do time me apoiou puro pesadelo eu vivia.
Naquele instante, fazer um gol era imprescindível, a vergonha batia em nossos ombros, gente que geralmente torcia por nós, agora gritava o nome do Valdir e ele sorria.
Se na minha vez a defesa foi plástica, o Tadeu bateu firme no canto oposto, à meia altura e o miserável do Lustosa buscou e encachou ela e sorrindo uma gargalhada alta, bateu no peito.
É do brasileiro, essa coisa de torcer pro mais fraco, ainda que eles nem chegassem ao meio do campo, a torcida gritava 24, em alto e bom som.
O pesadelo perdurou o jogo todo, sem poder jogar, chutávamos de qualquer lugar e o Valdir fechava o gol, empurrados pela torcida, todos os jogadores ficaram dentro da área, 11 goleiros e o desespero aumentavam e isso nos contagiou, paramos de agredir, tudo se caminhava pro zero a zero.
O Luís Paulo já consultava o relógio, faltavam poucos minutos pro fim do jogo, uma falta foi marcada na intermediária, conforme eu ajeitava a bola, o arbitro olhava o relógio, o Viana foi pra ponta da barreira, ajoelhei e fiquei falando em voz baixa, falando com a bola, o Luís Sérgio passou por mim e perguntou o que eu estava fazendo, respondi que estava fazendo uma promessa.
Última chance coloquei o pé esquerdo ao lado da bola e calculei um perfeito angulo de 45 graus, dei três passos pra trás e bati.
A bola passou a quatro dedos da cabeça do Viana, rodando na caminhada pra trave e ia no endereço certo, O Valdir saiu com o corpo todo no ar, a impulsão o fez deitar, pareceu um voo, foi lá no angulo pegou a bola com as duas mãos e, ainda no ar, a trouxe para o peito, quando caiu espalhou a lama, entre os olhares de todos e a euforia da torcida, ficou uns breves centésimos de segundos no meio da lama, deu um grito desafiador e esse grito foi pra mim.
Já o Luís Paulo tinha o apito na boca, só faltava soprar, pra aquele pesadelo chegar ao fim.
Ainda com a bola na mão e olhando na minha direção, tive a impressão de que ele ia jogar a bola em mim, deu uns passos pra trás, pra tomar distancia e dar o chutão.
Mais um passo pra trás e escorregou na lama, com a bola na mão, caiu pra dentro do gol.
O silencio que se fez, foi um misto de comédia e tristeza, ninguém acreditava naquela cena, antes de apitar o gol, o Luís Paulo soltou uma longa gargalhada.
Depois do jogo, o próprio goleiro fazia piadas de si, os dois times se cumprimentaram cobertos de lama.
Pra cumprir a minha promessa e me redimir, passei um mês ajudando o a tomar conta dos pivetinhos do 15.
As mulheres, esse maravilhoso presente de Deus, que fazem os meninos suspirarem, que silenciam uma conversa animada, que nos causam dores na alma e nos tiram o sono, nos faz poetas e patetas.
Tudo isso, num tempo mais tarde, na infância nosso maior material de adorno tem outro nome... bola.
Feito isso, deu pra perceber que vem aí mais uma aventura de futebol, futebol e amizade.
_Caramba Niltão, você só pensava em bola? Perguntará o leitor.
_Absolutamente, eu pensava em coisas como, a paz mundial, ganhar na loteria esportiva, conhecer o Simba Safari e quebrar a cara do George Foreman. É... pensando bem, eu só pensava na bola mesmo.
Na verdade, eu não conseguiria falar desse amigo, sem falar de uma partida de futebol memorável.
Antes disso, um prólogo que vai, no fim do texto, dar sentido à narrativa:
No final de 1979, mais ou menos, houve uma verdadeira revolução no Educa, quase todos os grandes foram "expulsos", os buldogs da dona Camila passaram a fazer parte da paisagem, os irmãos foram embora, o pavilhão 11 foi desativado e mais tarde viraria a creche, livre dos grandes o pavilhão 15 virou um lar de meninos com idade de seis e sete anos.
Os meninos do 15 viraram a grande atração, quando eles desciam, em fila indiana, para o refeitório central, causava certa euforia nos outros internos, qualquer um que estivesse na frente da fila, dava licença pra eles, eram os caçulinhas de todos. Vendo um deles, que se movia muito rápido e entre todos era o mais bagunceiro, meu amigo Viana disse:
_Aquele ali parece o Ligeirinho, aquele ratinho das histórias infantis, todos concordamos e o apelido pegou.
Então vamos ao assunto:
O Valdir Lustosa havia vindo da Casa de Infância, mais um dos meus amigos mais velhos, tinha o irmão Paulo e eles moravam no lar 24.
Disse em outra postagem, quando falei do Sebastião, que na Casa da Infância haviam dois grandes goleiros, o outro era o Valdir.
Ainda que ele fosse um "fora de série" no gol, o time do 24 era de medíocre à ruim, suas belas defesas não salvavam o time.
Nosso próximo adversário seria o 24, a hegemonia do 14 era tão grande que a expectativa era um massacre, com muitos gols.
Cego pela arrogância encontrei o Valdir no Attiê, na hora do recreio, falamos sobre o jogo próximo e devo ter sido bem pretencioso, ele ameaçou de partir pra pancada, formou-se uma rodinha em volta, uns me seguravam e outros o seguravam.
_Tá pensando que vai ser fácil assim? Vamos deixar vocês de joelhos, vão ver, vão ver.
Alterado, mas tentando me manter calmo disse, entre o riso sarcástico:
_Só um milagre vai salvá-los da ruína.
É, fui prepotente, arrogante e nada humilde, vai dizer o leitor.
Sabendo que, se eu alegasse ter doze anos à época, não seria uma boa desculpa, admito que fosse bem canálha nesse episódio. Pessoa mais espiritualizada, diria que eu iria pagar nas próximas encarnações.
Porém, isso não acontece no meu caso, se Deus espera o momento certo pra ajustar as contas com todos... no meu caso, o castigo vem na hora, sempre foi assim.
Da sexta pro sábado, sem aviso nenhum, caiu um verdadeiro dilúvio, fomos dormir com uma chuva medonha e ela perdurou a noite toda, a manhã toda e cessou as 13:00 horas e o jogo estava marcado pras 14.
O campão do Educa era um sonho, grande, bem localizado e imponente, mas em termos de drenagem...
Quando chegamos ao local do combate, veio-nos uma vontade de chorar, o campão havia se transformado numa gigante piscina de lama, pensamos em conversar pra adiar a partida.
O Luís Paulo que, já era preto, trajava um uniforme muito preto. Olhou-nos de rabo de olho, o apito já à boca, balançou a cabeça numa negativa.
O time do 24 chegou, vestindo camisa, calção e meiões cinzas, o Valdir vinha sorrindo na frente da fila, olhei pro céu e o sol era firme, a torcida estava disposta a ver um espetáculo pastelão e gritava pra partida começar logo.
Naquele lamaçal nada adiantaria nosso toque de bola, se o Negão e o Mamede eram os mais rápidos laterais ou se o Tadeu era o melhor jogador de todo o Educa, se o trio de volante do 14 era o mais eficiente do campeonato, a gente mal conseguía nos manter em pé.
Na hora que os times se cumprimentavam, o Valdir ainda ria quando me apertava a mão:
_Eu acredito em milagres, e você?
Nesse momento eu fui ao inferno e voltei e, se tinha uma coisa que pouca gente sabia era que o Valdir era feito o Ayrton Senna, normalmente um ótimo goleiro, na lama ele era imbatível.
Estava em silencio quando nos juntamos no meio do campo, o Viana falou:
_Vamos jogar feio, se tiver espaço, paulada no gol.
E foi mesmo um jogo feio, sem passes, sem toque de bola, sem jogadas de efeito e a torcida se divertido com o espetáculo, a chuva voltou e todos se amontoavam na casinha da arquibancada.
Fizemos o combinado, de qualquer lugar batíamos pro gol, cada chute que dávamos o Valdir fazia uma defesa mais linda e ele ganhou o carinho da torcida.
No primeiro tempo ainda, o Luís Paulo marcou uma penalidade pra nós e ninguém contestou, fui pra bater, posto que, eu era o batedor oficial.
Ajeitei a bola na única parte de grama da área do gol que fica na frente da bica, a torcida gritava o nome do Valdir, ignorei e bati com convicção, esticou-se e buscou a bola, nunca havia perdido um pênalti na minha vida, quando o rebote voltou pro meu lado, me desequilibrei e cai na lama. É claro que virei à piada do jogo, parte da torcida gritava o nome do goleiro, a outra parte me xingava.
Poucos minutos depois, outra penalidade foi marcada, fui pra bola pensando em vingança, antes disso o Tadeu pegou a bola e disse que ele ia bater, minha liderança havia sido desafiada e ninguém do time me apoiou puro pesadelo eu vivia.
Naquele instante, fazer um gol era imprescindível, a vergonha batia em nossos ombros, gente que geralmente torcia por nós, agora gritava o nome do Valdir e ele sorria.
Se na minha vez a defesa foi plástica, o Tadeu bateu firme no canto oposto, à meia altura e o miserável do Lustosa buscou e encachou ela e sorrindo uma gargalhada alta, bateu no peito.
É do brasileiro, essa coisa de torcer pro mais fraco, ainda que eles nem chegassem ao meio do campo, a torcida gritava 24, em alto e bom som.
O pesadelo perdurou o jogo todo, sem poder jogar, chutávamos de qualquer lugar e o Valdir fechava o gol, empurrados pela torcida, todos os jogadores ficaram dentro da área, 11 goleiros e o desespero aumentavam e isso nos contagiou, paramos de agredir, tudo se caminhava pro zero a zero.
O Luís Paulo já consultava o relógio, faltavam poucos minutos pro fim do jogo, uma falta foi marcada na intermediária, conforme eu ajeitava a bola, o arbitro olhava o relógio, o Viana foi pra ponta da barreira, ajoelhei e fiquei falando em voz baixa, falando com a bola, o Luís Sérgio passou por mim e perguntou o que eu estava fazendo, respondi que estava fazendo uma promessa.
Última chance coloquei o pé esquerdo ao lado da bola e calculei um perfeito angulo de 45 graus, dei três passos pra trás e bati.
A bola passou a quatro dedos da cabeça do Viana, rodando na caminhada pra trave e ia no endereço certo, O Valdir saiu com o corpo todo no ar, a impulsão o fez deitar, pareceu um voo, foi lá no angulo pegou a bola com as duas mãos e, ainda no ar, a trouxe para o peito, quando caiu espalhou a lama, entre os olhares de todos e a euforia da torcida, ficou uns breves centésimos de segundos no meio da lama, deu um grito desafiador e esse grito foi pra mim.
Já o Luís Paulo tinha o apito na boca, só faltava soprar, pra aquele pesadelo chegar ao fim.
Ainda com a bola na mão e olhando na minha direção, tive a impressão de que ele ia jogar a bola em mim, deu uns passos pra trás, pra tomar distancia e dar o chutão.
Mais um passo pra trás e escorregou na lama, com a bola na mão, caiu pra dentro do gol.
O silencio que se fez, foi um misto de comédia e tristeza, ninguém acreditava naquela cena, antes de apitar o gol, o Luís Paulo soltou uma longa gargalhada.
Depois do jogo, o próprio goleiro fazia piadas de si, os dois times se cumprimentaram cobertos de lama.
Pra cumprir a minha promessa e me redimir, passei um mês ajudando o a tomar conta dos pivetinhos do 15.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
Nobreza
Completei 51, nesse blog eu conto histórias de um tempo passado, que
determinou toda a estrada que eu ia trilhar pra me tornar o homem que eu me
tornei.
Minha historia não foi feita só por mim, fatos e acontecimentos foram
divididos por meus amigos, cada amigo meu deu um pouco de material e inspiração
e eu me apropriei disso, juntei tudo e usei pra construir o meu caráter.
No instante crucial, anos mais tarde, quando partimos pra cima dos
escudos e cassetetes da tropa de choque no largo da Batata, na conquista dos
meus troféus no esporte ou quando vi minha filha dar a luz ao meu neto, nunca
me esqueci do menino que eu fui no Educandário.
No livro "Conta comigo", Stephen King conta a história dos
seus amigos de infância, na hora de terminar o conto, deu um branco e ele não
sabia o modo mais bonito pra encerrar, ficou uns dias pensando e escreveu a
frase mais simples de todas:
"Eu nunca mais tive amigos, como os que eu tinha, quando tinha 12
anos"...
E nessa frase simples, expressou a mais verdadeira de todas as frases.
A vida era dura, vão dizer os meus contemporâneos, claro que sim,
concordo eu, mas dureza molda a vida e te põe uma armadura, quanto maior a integridade,
maior é o brilho de sua espada ao sol.
Poderia gastar linhas e linhas pra enumerar coisas que lhe arrepiariam
os cabelos e te faria dizer:
_Nossa, eram endiabrados esses internos.
Eu contaria coisas engraçadas e coisas que você desconfiaria da veracidade
e diria que sou um contador de anedotas ou talvez eu pudesse ser chamado de
historiador, aliás, é assim que a minha esposa me define.
Não falo da nobreza que a posse de dinheiro ostenta, nobreza é a coisa
que te separa da besta, nobreza é fazer o certo, mesmo quando não existe razão
pra tal, eram nobres meus amigos e não acho que tenha sido uma coisa isolada do
pavilhão 14, meu lar, creio que isso era a atitude do interno em geral.
Já contei que o Sebastião era respeitado por todos os outros meninos,
também contei do zelo que todos tinham pelo Lucídio e que fui ameaçado, se não
cuidasse dele.
O Adalberto era portador de uma doença que atrofiava os músculos, sendo
assim, não podia jogar bola e sempre aparecia alguém que trazia um apito, no
campo ele apitava os treinos, sem entender coisa nenhuma de regras, meninos que
tinham o pavio curto, relevavam e acatavam as decisões dele, caso ele
expulsasse alguém, ninguém reclamava.
Acreditavam os meninos que isso faria o Adalberto se sentir tão bem
quanto os jogadores e isso é nobreza.
De vez em quando, o Odilon esquecia que ele não podia fazer esforço
físico, os meninos nunca.
O eito era medido com duas enxadas deitadas, o chefe media e se retirava
os meninos mandavam o Adalberto ficar na sombra, cada um carpia o seu eito e
mais alguns centímetros, isso feito por todos, facilmente cobriria a parte do
Adalberto, enquanto isso ele fica à sombra, se o chefe aparecesse no barranco,
ele pegava a enxada e fazia que capinava, quando o chefe saía, ele voltava pra
debaixo da jaqueira.
Quando todos terminavam, conforme um acabava, ajudava os demais, a
última touceira arrancada determinava o fim do trabalho, todos jogavam o cabo
no ombro, se juntavam ao amigo e subiam pro pavilhão.
O mais estranho é que nunca se fez uma reunião, pra combinar isso.
Só fazíamos pelo fato de ser a coisa certa a se fazer... eram nobres,
meus amigos.
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