sábado, 23 de janeiro de 2016

Tiros na noite.


 
  Os cenários mudam, a vida é uma evolução e, devemos vivê-la plenamente... num sentido mais pleno, a vida é um aprendizado, mesmo quando viramos a cara, ela nos dá ensinamentos.
  As tardes ociosas do pavilhão 14 me deram as aventuras com os amigos e um gosto pelo viver, mesmo quando sozinho, sabia que ia crescer e ser livre, as tardes também me deram a trilha sonora da infância.
  No teatro do Educa, uma fina seleção musical era exibida e, aonde que eu me encontrasse, essas músicas me acompanhavam, no fim, viraram a trilha sonora da minha adolescência. Dentre essas músicas, algumas da banda "The Commodores" e, entre essas, "Sail on" era a minha predileta, daí por diante, sempre que ela fosse exibida, eu daria uma atenção especial, ainda hoje, ela mexe comigo.
  Nas imediações do teatro, eu cantava para acompanhar o Lionel, mais tarde, nos bailes, eu tirava uma dama e cantava no ouvido dela.
  Como eu disse, a vida é evolução e, eu cresci... estamos em 1982, moro no pavilhão 22, estudando no Vidigal e trabalhando na P.G.E, não era mais o coadjuvante de costume, não buscava mais a gloria no futebol, o coração das meninas, agora me movia.
  Ainda que o mundo tivesse alargado e ultrapassado as fronteiras do E.D.D, a sorte me protegia e os amigos ainda eram os mesmos, na escola, nos bailes e nas ruas, costumávamos andar em bando.
  Um dia, uns alunos encrenqueiros resolveram fazer bulling com o Flávio do 16, esse tinha o apelido de Fú, o apelido era uma alusão ao personagem da série da TV que se chamava "Kung Fú", posto que, o Flávio, como o personagem, andava sempre com os cabelos cortados à zero.
  Assim que fizeram a rodinha em volta dele, os outros amigos correram a me procurar pela escola.
  Eu estava perto da quadra, abraçado à Lúcia, assim que me avistaram, me contaram do que estava ocorrendo, esses amigos eram: O Djalma do 15, o Coquinho do 24, o João Augusto do 12, o Pelezinho do 12, assim que soube do ocorrido, corri em socorro do amigo.
  O Fú era pequeno para a idade e estava rodeado por cinco valentões, em volta do círculo deles, os outros alunos formaram uma barreira e deu trabalho furá-la, empurrei os outros elementos e fiquei frente a frente com o líder, perguntei o que o meu amigo havia feito e antes que ele respondesse, já havia lhe desferido um soco na boca.
  As poucas coisas que sabíamos sobre ele era que morava no Parque do Lago, gostava de andar com malandros e tinha o apelido de Vassoura.
  Agora estávamos frente a frente, os meus amigos nas minhas costas, os amigos dele às suas costas e o resto dos alunos nos circundavam e torciam em silêncio, do lábio do meu oponente escorria um filete de sangue, a adrenalina fazia o meu suor escorrer, ambos mantínhamos os pulsos em frente ao rosto e olhávamo-nos.
  Como eu já havia atacado fiquei esperando o movimento que partiria dele, ele arfava de raiva, os olhos lagrimejavam, me mantive calmo, qualquer coisa que ele fizesse seria em desespero, assim que ele se projetou em minha direção e a sua mão direita procurou o meu rosto me esquivei, um segundo soco e mais uma esquiva, quando voltei a me levantar, segurei os braços perdidos dele e, como ele havia aberto mão da defesa, inclinei o dorso para trás e joguei a minha cabeça na direção dele, a minha testa atingiu em cheio o nariz, quando ele tombou houveram gritos e a pequena multidão se abriu, no meio da multidão apareceu a Sonia, que era a inspetora do pátio e todos chamavam de "Monga".
  Queria saber o motivo da balburdia, o Vassoura já havia se levantado e tinha uma camisa na mão, limpava o sangue, que agora, também lhe escorria do nariz, a inspetora perguntou e ele nada disse, olhou para mim e eu fiz cara de que não sabia de nada, ele saiu em direção à sala de aula, achei a Lúcia no pátio e voltamos para a quadra.
  Na hora da saída, todos os internos ficaram me esperando sair da escola, mesmo os que não haviam participado na hora do recreio, feito o Gil do 20 e o Miguel do 13.
  Atravessamos as ruas do Peri-Peri, éramos uns 15 e sabíamos que quando chegássemos ao ponto da Raposo Tavares, nos encontraríamos com os moleques do Parque do Lago e seria uma briga épica.
  E, como eu digo sempre, posso não ter amealhado dinheiro na minha jornada, mas, a sorte sempre foi minha companheira.
  Naquela sexta-feira, todos os internos que estudavam em Pinheiros resolveram nos visitar, na verdade, eles vieram atrás das meninas do Vidigal, o total da turma subiu para uns 35, os caras do Lago sumiram.
  Lógico que a coisa toda se empurrava para a segunda feira, mas a sorte é má conselheira, ela te tira o medo, vestido nela você pensa que nada, nunca te fará mal.
  No 12 da Raposo Tavares, havia o "Pombal", um salão improvisado que a equipe D’Paulus dava um som muito bom, sábado à noite era o dia.
  Enquanto eu me aprontava, o Djalma usava toda sorte de argumentos para me demover da cabeça a ideia de ir para lá, já que, a turma do Parque do Lago costumava frequentar aquele salão.
  Disse-lhe que não deixaria de ir a lugar algum, por medo de alguém, se fizesse isso, seria refém do medo e não poderia sair nunca mais, já que não conseguiu me fazer mudar de ideia, ele iria para me acompanhar.
  Era bom mesmo, o som do D’Paulus, assim que entrei na pista percebi que uns olhos grandes e castanhos me seguiram, já me pus à disposição da dama, larguei a turma e fui até ela, queria saber se estava sozinha, não eram só os olhos mais lindos que eu já havia visto, ela era toda linda e, exalava um odor de Lavanda.
  Ainda tocava um balanço e ela já havia contado parte de sua vida, quando eu já me aproximava do beijo, o Djalma me bateu no ombro e disse que o Vassoura estava lá fora, eu disse para a moça que já voltava, só iria lá fora, resolver um probleminha.
  A turma reunida se encaminhava para a porta de saída, o Djalma me puxava e eu olhava os enormes olhos castanhos, a música dava seus últimos acordes, fez-se um silêncio e pôde-se ouvir a agulha cair no vinil, o som foi subindo... Sail on down the line, 'bout...
  Livrei-me do Djalma e empolgado com a música tirei a dama dos olhos castanhos, nada poderia ser mais importante que isso, colei meu corpo ao dela, repousei a mão esquerda no rosto dela e a direita na cintura, minha face se uniu à dela e cantei a letra em seu ouvido, conforme a música, nossos corpos floreavam no ritmo, o mundo não tinha qualquer sentido, isso era viver e seria também a melhor das mortes.
  Sempre que tocava essa música eu me levava em mente no tempo dela, então, na imaginação levei a dama dos olhos castanhos direto para o teatro do Educandário Dom Duarte​.
  Quando a música chegou ao fim, encaminhei a moça para a companhia das amigas delas e me desculpei, tinha mesmo que sair.
  Á meio caminho da porta de saída, soaram quatro tiros e houve pânico no salão, algumas pessoas entraram para se abrigar, saímos e vimos um corpo no chão e conversas desencontradas, chegamos mais perto e pudemos ver o rosto da vítima... o tal do Vassoura agonizava numa enorme poça de sangue, em sua mão havia um revolver carregado.
  Disseram-nos que, o outro sacou mais rápido... 4 minutos, foi o tempo que durou a música, 4 minutos de atraso com o inevitável.
  Maria era o nome da moça dos olhos castanhos, nunca mais a vi e, até hoje, nem sei se ela existiu mesmo.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O Pelézinho.


Essa história é diferente das outras, é feito a vida e a vida não é feita apenas de boas lembranças, fatos ruins são somente fatos, se contarmos só as alegrias, caímos no erro de omitir a verdade.
No dia 2 de outubro de 1992, ocorreu o massacre do Carandiru, 111 mortos, segundo os dados oficiais, entre as vítimas estava o Pelézinho do 12.
Não julgo ninguém, é prerrogativa de cada qual seguir o caminho que lhe convém, caminhos levam às consequências, assim é a vida.
Pelézinho se chamava Wilson Roberto e chegou ao Educa em 1977, mesmo ano que eu, vindo da FEBEM.
O apelido, não era só pela aparência com o personagem do Maurício de Souza, a habilidade no campo, lhe conferia o merecimento de ser chamado de rei, e dos meninos de todos os pavilhões, do meu tempo, ele era o mais famoso de todos, portar a camisa 10 do Grêmio era lhe fazer justiça.
No campeonato de 80, eu, o Viana e o Feliz nos reuníamos pra traçar as estratégias do próximo jogo, nossa função era destruir o meio campo adversário e o próximo jogo seria contra o 12.
Sentados na caixa de alvenaria, ao lado da primavera, discutíamos sobre como parar o Pelézinho, éramos duros em campo, pra não deixar o adversário jogar era comum algumas jogadas mais violentas e discutíamos justamente isso... como parar o Pelézinho sem bater.
Diferente dos outros adversários, o guri era nosso amigo e vizinho, por outro lado, se permitíssemos que ele jogasse solto, perderíamos o confronto.
Passamos um bom tempo nessa conversa, sem que achássemos uma solução, pra falar a verdade, o Feliz nunca falava nada, eu e o Viana falávamos por nós e por ele.
Acabou que não chegamos a lugar nenhum e encerramos a reunião, à noite a gente falava sobre isso, seguimos na direção do pomar, roubar mexericas como fazíamos quase todas as tardes, descemos pela horta do Japonês, antes, porém, uma nadadinha no lago.
Quando chegamos ao lago, já estava lá o pessoal do 12, ao nos ver cumprimentaram, à beira do lago havia umas arvores os longos troncos das arvores serviam de trampolim, se o guri tivesse as manhas, poderia saltar do galho pro meio do lago, lá estava o Pelézinho.
_Ó, o tripé de meio campo do 14. Disse isso com tom de ironia.
Pulou na agua fazendo pose, mergulhou uns metros, subiu e com braçadas firmes, foi ter conosco.
Ficamos ali conversando amenidades, sabendo que o jogo se aproximava, falamos de um tudo, menos de futebol, depois as duas turmas subiram pelo lado da mata, em busca das mexericas.
A mesma história de sempre... dar nó nas mangas e na gola das camisas, vencer a vegetação da mata fechada, esgueirar-se no arame farpado, subir nas arvores, encher as camisas, desviar dos tiros de sal, correr dos cachorros, voltar pra casa e dividir o produto com os amigos.
Voltamos pelo mesmo caminho, beirando a horta dava pra ver o campo do 14 e seguimos a estrada onde uma majestosa araucária fazia uma sombra absoluta, nesse ponto os meninos do 12 se despediram, o Pelézinho ficou.
Não desviou o assunto, com a camisa carregada de mexericas às costas disse:
_Amanhã vou destruir vocês e não levem a mal.
Diante de tal sinceridade, eu disse:
_Neguinho, a gente estava discutindo um jeito de não picar a bota em você...
A risada que ele deu foi estrondosa, beirava mesmo o desprezo:
_Se eu fosse vocês, batia mesmo, por que eu vou deixa-los no chão, isso é uma promessa.
Falou isso e ajeitou a camisa nas costas e, ainda rindo, foi-se.
Ficamos ali, sorrindo, conforme ele se afastava de nós, nos mostrava no balançar do corpo um gingado de malandro e ria de nós.
_Ó, que carinha cabuloso. Disse o Viana.
Depois que o Pelézinho sumiu, o Feliz disse:
_Amanhã vou bater nesse guri feito mala velha, pra tirar baratas.
No jogo, fomos impecáveis, sem o recurso da violência, literalmente paramos o craque adversário e quando se anula o craque não dá outra, chocolate.
Não falou o jogo todo, parecia mesmo resignado o Pelézinho, em qualquer lugar do campo que ele pudesse pegar a bola, lá estava o trio, se ele fintasse um, os outros lhe tomavam a bola, a cada roubada de bola, imitávamos o riso que ele dera na véspera.
Quando o jogo chegava a final e a nossa vitória já se consolidava, o Feliz achou de sair brincando da defesa, passou o pé em cima da bola e, sem perceber que o dito cujo estava em cima dele, iniciou uma corrida pela esquerda, o Pelézinho emparelhou-se no lado oposto e tomou-lhe a bola, vendo isso, eu e o Viana corremos pra socorrer o Feliz, um de cada lado.
Assim que teve a pose da bola, parou e ficou esperando o Feliz dar o bote, o Feliz foi com sede pro bote, muito rápido e sem espaço, o neguinho enfiou a bola no meio das pernas dele, eu vinha no embalo, travei a chapa e tomei o meu, passou por mim e ficou de cara com o goleiro Marcos, entrou na área e o Viana corria nas suas costas, era só bater no gol, levantou a bola e tirou o corpo, no espaço que ele saiu o Viana passou lotado, aparou a bola com o pé esquerdo e completou a touca, com o mesmo pé ajeitou a bola, soltou o corpo no ar e deu um voleio.
Eu, o Viana e o Feliz vimos àquela obra-prima deitados, ao invés de comemorar o gol, me deu a mão, se não fosse isso eu estaria lá no chão até hoje.
No final do jogo, o Feliz argumentou:
_Que adianta isso tudo? Nós ganhamos o jogo.
Muito senhor de si, o neguinho sentenciou:
_Não disse que ia ganhar o jogo, eu disse que ia deixar os três no chão.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

De sonhos, bicicletas e papagaios.


  Tem pouco tempo, com a ajuda do meu neto Miguel, abri uma fabrica de pipas.
Somos três sócios ao todo, eu, o Miguel e o nosso cachorro Nino, um poodle que acha que é Pitbull.
Devidamente aposentado, quis fazer uma coisa que me fazia feliz na infância e, por gosto, contei essa passagem pro meu neto.
Verão de 1979, já o velho Odilon havia ido embora e o seu João era o larista do 14, respirávamos uma liberdade que nunca havíamos podido antes, já se podia andar em qualquer lugar do Educa, sem ter medo do corcel II do Domingão.
É claro que o parceiro de sempre era o Viana, havíamos acabado de perder uma pipa, um cara, lá na colchoaria empinava uma enorme pipa preta e cortava todos os outros, um a um.
Isso representava guerra, já que, o Viana se considerava o dono dos ares, juntamos o pouco dinheiro e fomos comprar papel e linha.
Ao lado do mercado Paraná, a meio caminho do Guiomar, havia uma papelaria e estavam muito caro, fomos pela Asdrúbal, no sentido da Moreninha, onde havia outra papelaria, no caminho encontramos o Zanella montado numa bicicleta, ele parou e nos cumprimentou, desceu e nos mostrou à magrela, ficamos maravilhados com as modificações e a conservação. Disse-nos o preço e que o pai havia entrado nas prestações.
_Puts, ainda vou ter a minha. Disse o Viana.
O Zanella disse que ali perto, havia um senhor que estava vendendo uma usada, descemos a rua que sai do ponto final do Arpoador, seguindo as casa do BNH, quando chegamos, a vimos na garagem, uma linda Caloi barra forte com garupa e lanterna no guidom e foi paixão à primeira vista.
Batemos palma e o dono da casa veio nos atender, seu Hélio era um militar aposentado da Marinha e tinha historia ótimas da caserna, fora precocemente aposentado por conta de sua postura socialista, agora o filho havia crescido e se alistado, não ia usar mais a bicicleta.
_São 90 cruzeiros, a exata metade do preço de uma nova na loja.
Disse isso e deve ter percebido as nossas caras de tristeza, quase não olhamos pra ele, todos os olhos estavam naquela maravilha de duas rodas. Despedimos-nos do amigo Zanella compramos as coisas na papelaria, no caminho de volta só falamos na Caloi.
Descendo a João de Lorenzo, o motorista do ônibus da Castro buzinou e abriu a porta trazeira, subimos e era o China ao volante, seu filho estudava comigo no Attiê, agradecemos e ele nos deixou no portão do Educa, uma saudação ao seu Felipe na portaria e seguimos a estrada de paralelepípedos que leva ao SENAI e quebramos à esquerda, paramos na escada do teatro, a conversa foi toda sobre como levantar 90 cruzeiros, ideias e mais ideias vinham e eram descartadas e nada de concreto.
A certa altura da conversa, olhamos pro céu e uma pipa verde fazia manobras no céu, um menino sentado no barranco da piscina se divertia, soltava a linha, segurava e dava soquinhos, sua pipa desbicava no ar, ficamos admirando as evoluções.
Coisa duns 10 minutos ficamos ali em silêncio.
Por detrás da casa da dona Camila, veio de roldão, uma enorme pipa preta, em diagonal desceu a linha só tocou na linha do guri e cortou solto no ar a pipa do guri voou ao vento, a pipa preta foi buscá-lo, subiu e desceu, enrolou-se na rabiola e a recolheu.
O guri da piscina chorava, pasmos com a habilidade do vilão, falamos juntos:
_Cortou e aparou.
Corremos pro 14 e juramos inimizade eterna ao cara da colchoaria, antes era por vaidade, agora era por fazer um guri chorar.
No dia seguinte, afinamos o bambu e modelamos uma gigantesca pipa branca, desenhamos uma cruz vermelha dos templários e a colamos ao centro, batizamos-a com o nome de Justiceiro do ar.
Confeccionamos outro, de tamanho normal, que seria a isca, plano bolado por dois neguinhos desaforados...
Eu iria levantar o meu, assim que o vilão se mostrasse, o Viana vinha e zás, exibiríamos a pipa preta na trave do campão.
Quando terminamos, já se fazia noite e deixamos a vingança pro dia seguinte, nessa noite... Sonhamos com pipas e bicicletas.
Vingança não é uma coisa saudável pra uma criança, o bom do destino é que ele não escolhe a hora de fazer o mal virar bem, sem perceber, ele muda as coisas.
Costumávamos empinar as pipas na estrada do 12, mas desta feita iríamos mudar o local, queríamos que todos vissem a nossa vitória.
Peguei o pipa grande, sua envergadura cobria toda a extensão das minhas costas, do pescoço até a cintura, fomos em sentido à jaqueira, no meio do caminho o Viana se lembrou que tinha uns abacates para enrustir, fiquei na estrada e ele adentrou o bananal, sentei-me na caixa de alvenaria ao lado do milharal e fiquei a esperar.
Vindo do Cenáculo, uma Veraneio parou do meu lado, um homem que aparentava uns 30 anos abriu a janela e disse:
_Ô menino, quer vender essa pipa?
Fiquei em silêncio e fiz uma cara de que não havia entendido a isso se dá o nome de presença de espirito, na verdade, eu não fazia a menor ideia de quando devia fazer o preço. Ele repetiu a pergunta.
_Moço, eu acho que você não teria o dinheiro suficiente pra pagar essa pipa aqui...
O homem perdeu a paciência, saiu do carro e gritou:
_Comprei uma pipa na Vila Borges e paguei cinco cruzeiros.
_Conheço essas da Vila Borges, nem chegam aos pés dessa, pode observar.
Com a gigantesca pipa na mão, ele pareceu hipnotizado, era dos nossos, jogou a pipa dentro do carro, tirou a carteira e disse:
_Só dou 10.
_15?
_10.
_15.
_12.
_Fechado.
Quando o Viana saiu, teve um susto ao me ver de mão abanando, mostrei as notas e fomos pra papelaria, compramos o material pra confeccionar 30 pipas e um troquinho pra Tubaína, confeccionamos as pipas e vendemos na feira de quinta e na de domingo.
Apuramos 78 cruzeiros e ficamos com medo de alguém comprar antes de chegarmos à quantia exata, resolvemos entregar ao seu Hélio o que tínhamos e ele tirava a placa de venda, até a gente conseguir o resto.
Quando o homem viu o dinheiro em nossas mãos, ficou boquiaberto, contamos o que fizemos e fizemos a proposta.
_Então, vamos recapitular... eu fico com o dinheiro, guardo a bicicleta e quando me derem a quantia restante, levam a bicicleta?
_Isso mesmo.
Estava espantado com a nossa disponibilidade, coçou a cabeça e disse:
Guardem o dinheiro, venham amanhã, vou pensar e amanhã faço uma contra proposta, quando íamos embora, o vimos levar a bicicleta pra dentro.
No dia seguinte, lá estávamos nós e haviam duas bicicletas na garagem.
Impressionado com a nossa atitude, o homem não só não aceitou o nosso dinheiro, como deu uma bicicleta pra cada.
E, os guris que queria ser os reis dos ares, tiveram que se contentar em ser os reis da estrada.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O castigo

Nessa, vou pedindo desculpas pras moças.
As mulheres, esse maravilhoso presente de Deus, que fazem os meninos suspirarem, que silenciam uma conversa animada, que nos causam dores na alma e nos tiram o sono, nos faz poetas e patetas.
Tudo isso, num tempo mais tarde, na infância nosso maior material de adorno tem outro nome... bola.
Feito isso, deu pra perceber que vem aí mais uma aventura de futebol, futebol e amizade.
_Caramba Niltão, você só pensava em bola? Perguntará o leitor.
_Absolutamente, eu pensava em coisas como, a paz mundial, ganhar na loteria esportiva, conhecer o Simba Safari e quebrar a cara do George Foreman. É... pensando bem, eu só pensava na bola mesmo.
Na verdade, eu não conseguiria falar desse amigo, sem falar de uma partida de futebol memorável.
Antes disso, um prólogo que vai, no fim do texto, dar sentido à narrativa:
No final de 1979, mais ou menos, houve uma verdadeira revolução no Educa, quase todos os grandes foram "expulsos", os buldogs da dona Camila passaram a fazer parte da paisagem, os irmãos foram embora, o pavilhão 11 foi desativado e mais tarde viraria a creche, livre dos grandes o pavilhão 15 virou um lar de meninos com idade de seis e sete anos.
Os meninos do 15 viraram a grande atração, quando eles desciam, em fila indiana, para o refeitório central, causava certa euforia nos outros internos, qualquer um que estivesse na frente da fila, dava licença pra eles, eram os caçulinhas de todos. Vendo um deles, que se movia muito rápido e entre todos era o mais bagunceiro, meu amigo Viana disse:
_Aquele ali parece o Ligeirinho, aquele ratinho das histórias infantis, todos concordamos e o apelido pegou.
Então vamos ao assunto:
O Valdir Lustosa havia vindo da Casa de Infância, mais um dos meus amigos mais velhos, tinha o irmão Paulo e eles moravam no lar 24.
Disse em outra postagem, quando falei do Sebastião, que na Casa da Infância haviam dois grandes goleiros, o outro era o Valdir.
Ainda que ele fosse um "fora de série" no gol, o time do 24 era de medíocre à ruim, suas belas defesas não salvavam o time.
Nosso próximo adversário seria o 24, a hegemonia do 14 era tão grande que a expectativa era um massacre, com muitos gols.
Cego pela arrogância encontrei o Valdir no Attiê, na hora do recreio, falamos sobre o jogo próximo e devo ter sido bem pretencioso, ele ameaçou de partir pra pancada, formou-se uma rodinha em volta, uns me seguravam e outros o seguravam.
_Tá pensando que vai ser fácil assim? Vamos deixar vocês de joelhos, vão ver, vão ver.
Alterado, mas tentando me manter calmo disse, entre o riso sarcástico:
_Só um milagre vai salvá-los da ruína.
É, fui prepotente, arrogante e nada humilde, vai dizer o leitor.
Sabendo que, se eu alegasse ter doze anos à época, não seria uma boa desculpa, admito que fosse bem canálha nesse episódio. Pessoa mais espiritualizada, diria que eu iria pagar nas próximas encarnações.
Porém, isso não acontece no meu caso, se Deus espera o momento certo pra ajustar as contas com todos... no meu caso, o castigo vem na hora, sempre foi assim.
Da sexta pro sábado, sem aviso nenhum, caiu um verdadeiro dilúvio, fomos dormir com uma chuva medonha e ela perdurou a noite toda, a manhã toda e cessou as 13:00 horas e o jogo estava marcado pras 14.
O campão do Educa era um sonho, grande, bem localizado e imponente, mas em termos de drenagem...
Quando chegamos ao local do combate, veio-nos uma vontade de chorar, o campão havia se transformado numa gigante piscina de lama, pensamos em conversar pra adiar a partida.
O Luís Paulo que, já era preto, trajava um uniforme muito preto. Olhou-nos de rabo de olho, o apito já à boca, balançou a cabeça numa negativa.
O time do 24 chegou, vestindo camisa, calção e meiões cinzas, o Valdir vinha sorrindo na frente da fila, olhei pro céu e o sol era firme, a torcida estava disposta a ver um espetáculo pastelão e gritava pra partida começar logo.
Naquele lamaçal nada adiantaria nosso toque de bola, se o Negão e o Mamede eram os mais rápidos laterais ou se o Tadeu era o melhor jogador de todo o Educa, se o trio de volante do 14 era o mais eficiente do campeonato, a gente mal conseguía nos manter em pé.
Na hora que os times se cumprimentavam, o Valdir ainda ria quando me apertava a mão:
_Eu acredito em milagres, e você?
Nesse momento eu fui ao inferno e voltei e, se tinha uma coisa que pouca gente sabia era que o Valdir era feito o Ayrton Senna, normalmente um ótimo goleiro, na lama ele era imbatível.
Estava em silencio quando nos juntamos no meio do campo, o Viana falou:
_Vamos jogar feio, se tiver espaço, paulada no gol.
E foi mesmo um jogo feio, sem passes, sem toque de bola, sem jogadas de efeito e a torcida se divertido com o espetáculo, a chuva voltou e todos se amontoavam na casinha da arquibancada.
Fizemos o combinado, de qualquer lugar batíamos pro gol, cada chute que dávamos o Valdir fazia uma defesa mais linda e ele ganhou o carinho da torcida.
No primeiro tempo ainda, o Luís Paulo marcou uma penalidade pra nós e ninguém contestou, fui pra bater, posto que, eu era o batedor oficial.
Ajeitei a bola na única parte de grama da área do gol que fica na frente da bica, a torcida gritava o nome do Valdir, ignorei e bati com convicção, esticou-se e buscou a bola, nunca havia perdido um pênalti na minha vida, quando o rebote voltou pro meu lado, me desequilibrei e cai na lama. É claro que virei à piada do jogo, parte da torcida gritava o nome do goleiro, a outra parte me xingava.
Poucos minutos depois, outra penalidade foi marcada, fui pra bola pensando em vingança, antes disso o Tadeu pegou a bola e disse que ele ia bater, minha liderança havia sido desafiada e ninguém do time me apoiou puro pesadelo eu vivia.
Naquele instante, fazer um gol era imprescindível, a vergonha batia em nossos ombros, gente que geralmente torcia por nós, agora gritava o nome do Valdir e ele sorria.
Se na minha vez a defesa foi plástica, o Tadeu bateu firme no canto oposto, à meia altura e o miserável do Lustosa buscou e encachou ela e sorrindo uma gargalhada alta, bateu no peito.
É do brasileiro, essa coisa de torcer pro mais fraco, ainda que eles nem chegassem ao meio do campo, a torcida gritava 24, em alto e bom som.
O pesadelo perdurou o jogo todo, sem poder jogar, chutávamos de qualquer lugar e o Valdir fechava o gol, empurrados pela torcida, todos os jogadores ficaram dentro da área, 11 goleiros e o desespero aumentavam e isso nos contagiou, paramos de agredir, tudo se caminhava pro zero a zero.
O Luís Paulo já consultava o relógio, faltavam poucos minutos pro fim do jogo, uma falta foi marcada na intermediária, conforme eu ajeitava a bola, o arbitro olhava o relógio, o Viana foi pra ponta da barreira, ajoelhei e fiquei falando em voz baixa, falando com a bola, o Luís Sérgio passou por mim e perguntou o que eu estava fazendo, respondi que estava fazendo uma promessa.
Última chance coloquei o pé esquerdo ao lado da bola e calculei um perfeito angulo de 45 graus, dei três passos pra trás e bati.
A bola passou a quatro dedos da cabeça do Viana, rodando na caminhada pra trave e ia no endereço certo, O Valdir saiu com o corpo todo no ar, a impulsão o fez deitar, pareceu um voo, foi lá no angulo pegou a bola com as duas mãos e, ainda no ar, a trouxe para o peito, quando caiu espalhou a lama, entre os olhares de todos e a euforia da torcida, ficou uns breves centésimos de segundos no meio da lama, deu um grito desafiador e esse grito foi pra mim.
Já o Luís Paulo tinha o apito na boca, só faltava soprar, pra aquele pesadelo chegar ao fim.
Ainda com a bola na mão e olhando na minha direção, tive a impressão de que ele ia jogar a bola em mim, deu uns passos pra trás, pra tomar distancia e dar o chutão.
Mais um passo pra trás e escorregou na lama, com a bola na mão, caiu pra dentro do gol.
O silencio que se fez, foi um misto de comédia e tristeza, ninguém acreditava naquela cena, antes de apitar o gol, o Luís Paulo soltou uma longa gargalhada.
Depois do jogo, o próprio goleiro fazia piadas de si, os dois times se cumprimentaram cobertos de lama.
Pra cumprir a minha promessa e me redimir, passei um mês ajudando o a tomar conta dos pivetinhos do 15.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Nobreza


Completei 51, nesse blog eu conto histórias de um tempo passado, que determinou toda a estrada que eu ia trilhar pra me tornar o homem que eu me tornei.
Minha historia não foi feita só por mim, fatos e acontecimentos foram divididos por meus amigos, cada amigo meu deu um pouco de material e inspiração e eu me apropriei disso, juntei tudo e usei pra construir o meu caráter.
No instante crucial, anos mais tarde, quando partimos pra cima dos escudos e cassetetes da tropa de choque no largo da Batata, na conquista dos meus troféus no esporte ou quando vi minha filha dar a luz ao meu neto, nunca me esqueci do menino que eu fui no Educandário.
No livro "Conta comigo", Stephen King conta a história dos seus amigos de infância, na hora de terminar o conto, deu um branco e ele não sabia o modo mais bonito pra encerrar, ficou uns dias pensando e escreveu a frase mais simples de todas:
"Eu nunca mais tive amigos, como os que eu tinha, quando tinha 12 anos"...
E nessa frase simples, expressou a mais verdadeira de todas as frases.
A vida era dura, vão dizer os meus contemporâneos, claro que sim, concordo eu, mas dureza molda a vida e te põe uma armadura, quanto maior a integridade, maior é o brilho de sua espada ao sol.
Poderia gastar linhas e linhas pra enumerar coisas que lhe arrepiariam os cabelos e te faria dizer:
_Nossa, eram endiabrados esses internos.
Eu contaria coisas engraçadas e coisas que você desconfiaria da veracidade e diria que sou um contador de anedotas ou talvez eu pudesse ser chamado de historiador, aliás, é assim que a minha esposa me define.
Não falo da nobreza que a posse de dinheiro ostenta, nobreza é a coisa que te separa da besta, nobreza é fazer o certo, mesmo quando não existe razão pra tal, eram nobres meus amigos e não acho que tenha sido uma coisa isolada do pavilhão 14, meu lar, creio que isso era a atitude do interno em geral.
Já contei que o Sebastião era respeitado por todos os outros meninos, também contei do zelo que todos tinham pelo Lucídio e que fui ameaçado, se não cuidasse dele.
O Adalberto era portador de uma doença que atrofiava os músculos, sendo assim, não podia jogar bola e sempre aparecia alguém que trazia um apito, no campo ele apitava os treinos, sem entender coisa nenhuma de regras, meninos que tinham o pavio curto, relevavam e acatavam as decisões dele, caso ele expulsasse alguém, ninguém reclamava.
Acreditavam os meninos que isso faria o Adalberto se sentir tão bem quanto os jogadores e isso é nobreza.
De vez em quando, o Odilon esquecia que ele não podia fazer esforço físico, os meninos nunca.
O eito era medido com duas enxadas deitadas, o chefe media e se retirava os meninos mandavam o Adalberto ficar na sombra, cada um carpia o seu eito e mais alguns centímetros, isso feito por todos, facilmente cobriria a parte do Adalberto, enquanto isso ele fica à sombra, se o chefe aparecesse no barranco, ele pegava a enxada e fazia que capinava, quando o chefe saía, ele voltava pra debaixo da jaqueira.
Quando todos terminavam, conforme um acabava, ajudava os demais, a última touceira arrancada determinava o fim do trabalho, todos jogavam o cabo no ombro, se juntavam ao amigo e subiam pro pavilhão.
O mais estranho é que nunca se fez uma reunião, pra combinar isso.

Só fazíamos pelo fato de ser a coisa certa a se fazer... eram nobres, meus amigos.

sábado, 14 de novembro de 2015

O pai ausente


Ainda naquele assunto de ser órfão, fui-o desde os três anos e nunca tive problemas com esse fato, no Sampaio Viana era tudo muito confuso e muito escuro, na Casa de Infância veio a luz e a alegria e no Educa me tornei homem.
Diz-se que, órfão não tem mãe e isso é um erro gigantesco, eu tive umas 20 mães e umas 50 madrastas. Funcionárias de orfanatos e freiras não resistem a um menino carente e eu tinha um rosto de anjo e, sabia usá-lo nas conveniências.
O pai do órfão aquele que lhe providencia o lugar onde dormir, comer, estudar e passar a infância em relativa segurança, então o órfão tem como pai legal, o juiz de menores.
E ele é um nome na ficha do interno, é ele quem responde pelo interno, até que ele atinja a maioridade.
Eu fui o primeiro interno a estudar numa escola fora dos domínios do Educandário, me mandaram pro Vidigal, se desse certo, mais internos poderiam estudar fora e deu muito certo.
Nos dias de reunião dos pais, meu pai era o padre Paulo, o cabeça-chata nunca usava a batina, no dia da reunião dos pais, ele vinha de batina.
Sempre tinha um guri mais engraçadinho que fazia a piada:
_Aquele ali é o seu pai?
E eu vinha logo de voadora:
_É, e a minha mãe é a mula sem cabeça.
O padre Paulo foi mais um dos homens que cuidaram de mim pôde contar uma dezena deles, mas, meu pai legalmente era o juiz de menores, cuidava de mim de longe e fazia bem o seu trabalho, a vida toda eu sabia que não o conheceria, mas o destino é brincalhão e a minha vida é uma comédia.
Em Agosto de 1983, eu já completara 16 anos, trabalhava, namorava, ia pras baladas e estudava. Mandaram-me chamar na administração do Educa, em sua sala, a dona Néri tinha a companhia do padre Paulo.
Cumprimentei-os e entraram no assunto que mudou a minha vida.
Disse-me que eu ia ser transferido pra um pensionato na Vila Carrão, o pensionato recebia menores do Educa e da FEBEM, tinha horários e regras...
Enquanto ela contava os prós e os contras, um filme me veio à mente, lembrei-me do dia que eu cheguei ao Educa, a dureza de ser novão, a adaptação à nova vida e percebi que havia crescido, minha prisão havia me ensinado o gosto pela liberdade.
Paciente, esperei que ela terminasse o padre Paulo que me conhecia e sabia que eu não ia aceitar aquilo, desviou o olhar.
_ Isso foi o que determinou o juiz de menores. Arrematou ela.
Levantei-me da cadeira e numa tranquilidade assustadora, estendi-lhe a mão, assim que ela apertou-me os ossos eu disse:
_Desculpe-me, mas meu tempo de ser mandado acabou agora, a partir desse momento eu me dou a maioridade, nunca mais alguém vai dizer o que eu tenho ou não que fazer.
Apertei a mão do padre Paulo e agradeci, sai dali e segui para o pavilhão 22, juntei minhas poucas coisas e me despedi dos meninos, sem qualquer drama, como fora toda a minha vida no Educa, fui-me, de cabeça erguida e mil planos na cabeça, quando cruzei o portão, o seu Felipe, bem mais velho do que no tempo em que eu cheguei ali, me perguntou:
_Não vai se despedir do amigo? O velho sorriso de sempre.
_Mas que despedir, todo santo dia vou estar aqui, pra esperar o ônibus, seu careca ridículo.
Apertei-o contra o peito, um abraço pra um amigo que me viu entrar criança e sair adulto.
E fui morar ali, na Osvaldão. Trabalhava na Procuradoria Geral do Estado e o diretor me mandou chamar e disse que nesses casos o juiz emitia um mandado de captura contra o menor evadido, se isso acontecesse ele teria que me demitir.
Bom, aproveitei o correio e escrevi uma carta ao tal juiz, não me lembro com exatidão do conteúdo da carta, nela eu agradecia os anos de ajuda e tudo mais e saiu com um capricho tão grande a carta, que teve resposta.
Dois dias depois, recebi um telefonema, a secretária do tal juiz marcou uma audiência, finalmente eu ia conhecer o meu pai, ri interiormente e tive medo de rir na presença dele.
No dia marcado, a secretária me conduziu a uma sala ampla com ar condicionado, sentei-me na cadeira que ficava na frente de uma enorme mesa de magno, acabada num verniz quase vermelho, do outro lado da mesa havia uma cadeira estofada, atrás da cadeira uma porta de cerejeira, dali sairia o juiz.
Esperei um quarto de hora, o estranho é que havia uns barulhos confusos que vinham da direção daquela porta, finalmente a porta se abriu e saíram umas 30 pessoas, todas com papeis na mão, levantei-me em sinal de respeito.
Um homem grisalho postou-se a minha frente e disse que era o juiz que me representava os outros todos também eram juízes de menores, ficara tão impressionado com minha carta, que fizera copias dela, mandou pros amigos e todos eles estavam ali pra me conhecer.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A vida segue seu rumo...


Toda vida e todo destino segue o rumo que tem que seguir, alegrias e sofrimentos vem, conforme o merecimento de cada um.
Minha mãe, alguns anos atrás, pediu desculpas pelas coisas que aconteceram e me levaram a viver uma vida de órfão, sorri pra ela e disse:
_Não tem o que perdoar, jamais abriria mão da vida intensa, das aventuras, dos aprendizados e dos amigos que conquistei.
E não é média não, se eu vivesse uma vida comum, lá no Bexiga, tenho certeza que não teria metade das coisas que tenho pra contar, aprendi a olhar o comportamento humano e a ser tolerante com a vida, medir as consequências dos meus atos e a respeitar a opinião alheia.
Relegado ao meu papel secundário e sempre na posição de observador, vi a injustiça aflorar, vi milagres e lições que, só quem presta atenção vê e nada disso eu poderia ver, senão na pele do interno.
Sempre poupado pela sorte que, me virava os olhos nas horas do perigo pude ver que na vida não cabe espaço para “mocinhos e bandidos”, cada qual dá o seu melhor e a vida se desenrola, independente se alguém a observa.
Minha vida no Educa se desenrola na passagem da infância para a adolescência e, convenhamos... esse é o tempo melhor da vida.
O Ovinho do 14, tinha o nome de Adilson, o apelido era devido ao formato da cabeça, em época de corte de cabelo obrigatório, o tampo da cabeça dele lembrava um ovo deitado.
Era daqueles guris hiperativos, vindos da FEBEM muito pequeno, tão pequeno que, nem fazia a mínima ideia de sua família, como todos nós tínhamos problemas nesse departamento, não costumávamos falar desse assunto, a melhor terapia era bater uma bolinha e esperar as coisas se ajeitarem.
É claro que isso era uma fuga do assunto, geralmente funcionava bem, mas em domingos de visita essa condição ficava insuportável e, depois do almoço, sumíamos do Educa.
Na Rua Santa Barbara, o Ovinho tinha uma namorada e fugindo do fusquinha do irmão Domingos, íamos pra lá. Pra não ficar segurando vela, aproveitava pra visitar os amigos da escola e o Edson Pirata (ex-interno do 17) que já tinha mulher e duas filhas, quase de noite, voltávamos pro Educa.
Ambos tínhamos 11 anos idade certa pro time dos pequenos, não me sentia pequeno e, não tendo vaga pra mim no time dos médios, me recusei a disputar o campeonato de 1978, torci pro meu pavilhão e ensinei o Ovinho a se posicionar como centro avante na área, ele terminou o campeonato com 47 gols, não parece muito, mas, em 12 jogos disputados é muita coisa.
Assim crescem as crianças, alheias as condições e circunstancia, o importante é se divertir. Se o seu mundo é limitado, sua capacidade de ser feliz não conhece limitações.
Num belo dia, quando assávamos milho verde na brasa, bem perto do milharal, apareceu no lar 14 um senhor dizendo ser o pai do Ovinho, digo Adilson, foi um susto.
O homem contou uma historia com passagens complicadas e circunstancia triste, não que tenhamos entendido metade de tudo aquilo, mas ficamos felizes pelo amigo e foi-se embora o amigo Adilson.
Fui algumas vezes visitar a sua família, que possuía residência na Consolação e escritório na Paulista e podia se perceber que o Adilson se sentia um peixe fora d’água, tinha saudades de ser o Ovinho.
Todo domingo de visita, saía do luxo de sua vida nova e visitava os irmãos que a vida lhe dera.