terça-feira, 22 de setembro de 2015

O chupim


Na segunda metade dos anos 70, o Educa era uma pequena cidade do interior em pleno coração da capital paulista, muito pouco do ruído de fora, interferia no cotidiano dos moradores dessa cidade, pra fazer justiça de verdade, o colégio parecia um pequeno país... a vasta extensão territorial, compreendia uma linha imaginária que seguia da avenida Heitor Antônio até o Taboão da Serra e outra linha que compreendia a parte norte do bairro do João XXIII até a Pedreira, toda essa terra fora doada pelo ilustre Bráulio Silva, ainda no começo dos anos 30.
Se pudéssemos ver o colégio como um pequeno país, podemos ver que cada pavilhão poderia ser um estado, cada qual com seu quinhão de terra e seus limites, sob as leis de um comando central, a administração.
Cada pavilhão tinha a sua bandeira, posto que, em tempos de campeonato interno, cada um gritava pelos seus e havia uma seleção, que todos torciam e serviam... chamava-se Grêmio Educandário.
Como todo país que se preze, tinha a sua própria língua, língua propriamente dita não, era um dialeto.
Algumas expressões, interjeições e termos que só faziam sentido para os moradores desse país chamado Educandário Dom Duarte.
Em postagem passada falamos da interjeição "Nó", trataremos agora de dois verbos muito usado pelos internos e alguns funcionários do Educa , são eles: "Chupinhar" e "Encanar".
O primeiro fazia alusão ao pássaro que tem o habito de botar os ovos em ninho alheio, era usado pra definir o roubo de alguma autoria intelectual, exemplo:
Um menino tinha um jeito de dominar a bola, o outro fazia igual, o primeiro menino gritava:
_Você está-me chupinhando.
Nisso havia sempre um terceiro menino que atiçava:
_Vai deixar? Se é comigo, não deixava.
Nesse caso, começava o quebra pau, coisa de uns 10 minutos de pancada, depois voltavam a serem amigos.
O segundo verbo era usado quando alguém estava se escondendo algo que ninguém podia saber, ao descobrir o que foi escondido, havia um grito:
_Encanei, vou querer, senão conto pra todo mundo.
A vasta plantação do lar 14, era bem distribuída no que compreendia a sua divisão territorial, a ganancia do velho Odilon era tanta que a área plantada de qualquer pavilhão não chegava à metade da nossa, o infeliz do interno do 14, carpia o dobro do que carpiam os outros internos.
Embaixo dos pés de uvalha, que ficava na parte alta da lateral do pavilhão, eu, o Viana e o Téquinha perceberam que nossos rivais se movimentavam, entreolhamos e ninjas que éramos, bastava isso pra já ter um plano em ação.
O Valmir, o Geraldo e o Salvador eram grandes, se descobrissem que a nossa missão maior era tornar a vida deles um inferno, nos bateriam muito, mas isso não detinha a nossa paixão por uma boa aventura.
Sem perceber que estavam sendo observados, os três foram até a lateral do prédio, olhando pros lados, feito quem se esconde, lá em cima fizemos que não percebesse a movimentação, fingindo uma conversa casual.
A 10 metros do pavilhão havia dois barracos de madeira, um era o galinheiro, no outro eram depositadas as ferramentas, o Valmir seguiu pra lá, os outros dois ficaram montando guarda, segundo depois saiu com um facão na mão, quando vimos, já ganhamos a lança e pulamos na estrada, corremos pelo lado oposto do deles, passamos pelo milharal, pulamos a estrada e chegamos ao bananal, no meio dele havia uma enorme mangueira, subimos nela e esperamos os grandes.
Chegaram falando alto, arrotando vantagens e riam alto, como se fossem os mais malandros do mundo, cortaram cinco cachos de bananas no ponto, escolheram esconderijos nos buracos que se formam no espaço de uma bananeira a outra cobriu com as folhas secas das próprias bananeiras e com as folhas da mangueira, enquanto faziam isso, riam.
Quando os vimos passar na estrada, pulamos juntos, pegamos os cachos e agachados passamos pelo milharal, atravessamos a estrada do 12 e descemos pro bosque, "enrustimos" os cachos perto dos abacateiros e rindo, fomos empinar nossos pipas e ouvir Clube da Esquina.
Em dois dias um cacho de bananas amadurece, não fomos lá de imediato, ficamos perto da primavera florida, bem na bifurcação entre o 12 e o 14, sentados na paz com nossos gibis de super. Heróis.
Os grandes passaram por nós e fizeram piada:
_Lendo fotonovela?
Demos de ombros e seguramos o riso, sabíamos aonde iam, mesmo assim o Téquinha perguntou: 
_Vão aonde, fazer troca-troca?
Rimos e corremos pra frente do pavilhão, eles ameaçaram correr e parou, o Salvador gritou:
_Ia dar uma banana pra cada, agora não vão ganhar nada.
Desaforados que éramos voltamos pro nosso lugar, coisa de uns 4 minutos, saíram de mãos abanando e discutindo entre eles, parecia que o Valmir estava chorando.
O Viana, com a maior cara de santo, perguntou:
_Ué, cadê as bananas?
Por muito pouco, não caímos na gargalhada, os três falaram junto:
_O chupim roubou.
Estavam no ponto às bananas, quando as tiramos do esconderijo, na arquibancada do campo do 14 a erosão havia formado um buraco, com boa vontade uma caverna, esse era o nosso esconderijo levou nosso prêmio pra lá e riamos alto.
Lá fora escutamos uns passos nas folhas secas e paramos, olhamos para a entrada da caverna, subitamente dois moleques pularam juntos e gritaram:
_Encanei, vou querer.
Depois do susto, vimos que eram o Spock e o Floriano, o Viana disse:

_Ah cala a boca, senta aí que tem pra todo mundo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A lei do retorno



Não sou e nunca quis ser o dono da verdade, até por que, a verdade depende de cada ponto de vista, de cada angulo que se vê a questão.
Quando os amigos entoavam canções que satirizavam o jeito de ser de certas pessoas eu não cantava junto, pelo simples fato de não concordar com certas coisas, mas não falava nada a respeito, faziam músicas sobre a comida, o filão de pão e outras coisas.
Lembro-me que o irmão Simão tinha fama de ser carrasco e o pintavam como se ele fosse o próprio diabo, ainda que eu não o visse desta forma, nunca expressei essa opinião, sabia que não conquistaria o apoio de ninguém e então me calava.
Tinha já essa fama o alemão, quando fui trabalhar na cozinha central (pavilhão 23), foi com certa expectativa e quebrei a cara, acabei conhecendo um cara humano e admirável.
Que veio do exterior, feito o senhor Francisco do 12, que fora tangido pela guerra, a diferença é que o Simão havia vindo por vontade própria.
Nessa época eu estava indo de mal a pior em matemática, fiz reforço com ele e melhorei muito, o cara me tratava muito bem e pela fama que ele possuía, passei a acreditar que eu fosse um guri de muita sorte.
Portanto, quando os amigos falavam mal, eu desconversava e mudava de assunto.
É claro que muitos internos sofreram abusos, em todos os lugares, onde se convivem fracos e fortes, a tendência é o forte dominar o fraco.
E por forte, nesse caso, se entende mais velho, os mais velhos tendem a judiar dos mais novos... isso é uma lei quase universal, repito que acontece e vem acontecendo tem milhões de anos.
O que o mais velho esquece, geralmente, é que a sua vítima vai crescer e, quem apanha não esquece... isso é tão certo quando o sol nasce a cada dia.
Quando começamos a frequentar a sonzeiras embaladas pelo Funk, percebemos que, apesar de adolescentes, tínhamos tamanhos e posturas de adultos, nas noites da cidade, andávamos com os adultos e já tínhamos namoradas adultas, daí em diante, passamos a nos comportar como adultos, na verdade, o pior tipo de adulto, aquele que está crescendo.
Em certo momento (e isso é coisa que eu não me orgulho de falar), começaram as vinganças pessoais.
O Valdevino, numa saída de baile, encontrou com o Carlos Augusto, lembrou que ele havia lhe abusado na infância e não deu outra, cobriu-lhe de pancadas, numa outra festa o Dooley encontrou o Cobasa e a historia foi à mesma, abuso na infância e pancada agora.
Nessa brincadeira, o Viana se vingou de meia dúzia desses ex-internos e o neguinho não perdoava, colava o brinco.
Não que eu fosse santo, mas só olhava aquilo tudo, nada daquilo me dizia respeito, entendia tudo como uma lei.
Num belo dia, quando saíamos de um salão em Pinheiros, dei de cara com o Marcos Aurélio e, no mesmo instante me veio o filme:
Eu, com 11 anos, mirradinho e um idiota adulto, com uma palmatória na mão... o sangue ferveu na hora e deu trabalho, pra me tirar de cima, poucas vezes na vida, eu agi dessa maneira e até esse momento não me arrependi.
Mas não era só violências, as nossas saídas pela cidade, sempre que víamos os irmãos Bazão e Bazinho, seja onde fosse, cumprimentávamos com euforia, como se cumprimenta a um irmão mais velho.
Uma manhã, vínhamos de ônibus, uns 20 amigos ao passar por uma praça avistou o capitão Pazzéli, sozinho num banco, alguém gritou:
_Olha lá o professor.
Imediatamente demos o sinal e descemos do buzão, voltamos e encontramos o capitão, o abraçamos e fizemos festa.
Essa vingança foi a melhor de todas, ver aquele homem, que nós julgávamos ser de ferro, lutar contra as lágrimas que caiam dos olhos... essa cena eu vou levar pra sempre.
Numa festa de gala no Palmeiras, estávamos no meio da pista, naquela rodinha de passos ensaiados, alguém avistou o Jordão lá na arquibancada, imediatamente formou-se uma fila indiana, um atrás do outro, rumo à arquibancada. Eu estava no fim da fila, do primeiro a apertar a mão do Jordão até chegar a minha vez, foram 32 minutos, muita gente se espantou com isso, uma menina veio perguntar:
_Quem é esse negão, alguma celebridade?
E pra mim é a pura verdade, o Jordão era celebridade, os irmãos Basílio eram astros da bola e o capitão, o capitão é uma força da natureza.
E vai a vida seguindo e seguindo seu curso... Numa estação de trem, quando voltávamos de uma festa no ABC, eu e o Viana avistamos o irmão Simão, que ia em sua companhia uma espetacular loura, cuja a estatura superava a dele em quase um palmo.
Somente eu e o Viana o vimos, assim que ele teve certeza de quem se tratava, passou a correr na direção dele, correndo do lado oposto à saída da multidão, eu precipitei a corrida também, dessa vez eu ia impedir a vingança. Como corríamos contra o fluxo de pessoas, fui arrastado e não conseguia me desvencilhar da multidão, o Viana já estava bem perto dele e gritou:
_Irmão Simão.
Assustado com o grito, ele se virou para o meu amigo, abria os olhos e fechava, na ânsia de reconhecer.
O Viana continuou andando firme, sem poder ajudar fechei os olhos e quando os abri, não pude acreditar no que via.
Sem qualquer constrangimento, o Viana o abraçou e agradeceu por tudo, algumas pessoas na multidão ensaiaram umas palmas.

No caminho de volta o Viana me contou, que quando criança, sem pai e mãe, só no mundo, conversava muito com o irmão Simão.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A lei das mães


É costume de todos dizer "Na minha época é que era bom", não digo isso nunca, entendo que a minha época é agora, posto que, ainda sou feliz.
Mas, filosofias à parte, vivi a minha adolescência e começo da juventude nos atribulados anos 80, quando nasceram os sons atuais, logo após as contestações e delírios do amor livre e a utopia da liberdade que as décadas anteriores anunciavam, é claro que era gostoso se viver nessa época, mas era perigoso também. O maior índice de jovens "desaparecidos" da historia se fez registrar nessa década.
Vivíamos a liberdade, mas o medo espreitava em cada esquina, cada passeio podia ser o último.
Liberdade era só uma expressão que o Taiguara cantava meninos feito eu sequer sabia o que significava de fato.
Nas ruas, o policial (que tinha o curso primário) tinha uma conduta:
Está na rua, não tem testemunha... mata e desova.
Os jovens tinham a sua conduta:
Nunca andar sozinho, andar em bandos dificultava o trabalho da polícia e te garantia a segurança, além da companhia dos amigos.
As mães tinham o seu código e, esse era o mais poderoso de todos:
Fazer barulho e ser a testemunha, sempre.
Quando começamos a frequentar os bailes, andávamos todos em bando, já que, sempre fomos um bando, "o bando dos neguinhos do Educa", assim éramos chamados nas ruas, havia vários elementos de cor clara no grupo e mesmo assim eles se chamavam de pretos.
Os primeiros que entraram na nova onda foram o Valdevino, o Viana e o Rogério (Japonês), que foram ao baile da Chic Show e chegaram ao lar 22 contando do som, do calor e das minas, não nessa exata ordem, a partir desse dia, os fins de semanas mudaram radicalmente, eu o Biriba, o Dooley, o Coquinho, o João Augusto, o Tadeu, o Lindolfo, o Breu, o Pelézinho, o Zóinho, o José Fawstino, o Matiole e mais uma turma, passaram a frequentar as noites e as matinês balançantes, primeiro em Pinheiros e depois a cidade de São Paulo ficou pequena.
A essa turma, se juntaram moleques da FEBEM, moradores do São Jorge e do Jd Peri-Peri e, é claro, alguns moradores da Rua Osvaldo Libarino de Oliveira, nessa rua a turma se encontrava.
Quando a turma estava completa, chegávamos ao total de 60, às vezes até mais, sempre juntos, essa era a nossa maneira de se proteger.
E é claro que com tantos elementos, era difícil evitar as brigas com outras turmas, mas o grande número também servia para evitá-las.
É sabido que, na maioria das vezes, internos não tem mãe, os que têm estão longe delas, nunca poderíamos contar com a terceira conduta, a menos que...
Numa noite fria, fomos pra Rua Osvaldão, eu, o Viana, o Valdevino e o Zóinho, íamos encontrar o Betão e o Cezar e partiríamos pro Palmeiras, encontraríamos o resto da turma lá na Lapa.
Na metade da rua, notamos que a iluminação caiu, a rua ficou escura, mas continuamos a caminhada, quando chegamos à casa do Cézar, dois faróis altos foram jogados em nossas caras, gelamos e ouvimos a frase temida:
_Mãos pra cabeça, aqui é os home.
Sem ter tempo ou pra onde correr, obedecemos e encostamos-nos à parede da casa do Cézar, fomos revistados e algemados e jogados na viatura, tudo muito rápido e silencioso, em nossas almas, sentimos que o final havia chegado, não conseguia enxergar os amigos, mas sabia que eles pensavam como eu, o bater da porta gelou-nos.
Depois se ouviu o abrir da porta do motorista e o ligar do motor, clamávamos por um milagre.
De repente ouvimos uma voz conhecida:
_Moço, meu filho está aí?
Era a dona Geralda, mãe do Cézar e do Betão e ela sabia que seus filhos estavam em casa, tornou a gritar, fazendo com que os policiais descessem do carro:
_Minha senhora, como é o nome do seu filho? Perguntou-lhe o policial.
_O nome dele é Roberto Carlos, continuava gritando à senhora.
O policial abriu a porta traseira e jogou a luz do farolete em nós:
_Tem algum Roberto Carlos aí?Acenamos negativamente.
_Olha minha senhora, o rei deve estar fazendo algum show por aios demais riram.
Com os gritos da dona Geralda, as casas foram se abrindo e os vizinhos se aproximaram da viatura.
_Moço eu não estou duvidando da sua palavra, me deixa ver quem está aí, pode ser que meu filho está com medo de mim.
O policial entendeu, pois até o diabo tem mãe, deixou que ela ficasse na traseira da viatura e iluminou-nos, para que ela tirasse a dúvida.
_Ah, quem está aí são os meninos do Educa.
Gritando mais alto ainda, passou a dizer os nossos nomes, um a um.
Quando os policiais bateram a porta e voltaram aos seus acentos, uma pequena multidão já havia se formado em volta da viatura.
Passearam com a gente, por fim, nos soltaram no Parque da Previdência, de lá pegamos a condução e fomos pra Lapa.
No dia seguinte, fomos agradecer a dona Geralda, ela deu de ombros e disse:

_Fiz o que qualquer mãe faria.

domingo, 30 de agosto de 2015

As 4 estrelas

 
É engraçada, essa vida mesmo, dia desses me ligou em casa o Udiney. Lá se iam mais de 30 anos de saudades de um tempo feliz, deu noticias de um pessoal e disse que havia lido uns episódios das minhas escritas, contou que fora um menino que admirava os caras mais velhos que jogavam no Grêmio, ficava sonhando com o dia que jogaria naquele campo, com aquela camisa, deu pra visualizar a cena: Toda tarde de domingo, o guri franzino do lar 11, sentado na casinha da lateral do campão, assistia os jogos e sonhava. Num belo dia, o time adversário não aparece, o Grêmio já estava trocado e se aquecia em campo, o menino vê a chance de ajudar o time, desce pro campo e diz que pode montar um time às pressas, mas pede desculpas por não ter uma chuteira pra calçar. O plantel do Grêmio não vê problemas e aceita o desafio, o menino corre pra chamar os amigos, muito rápido, consegue juntar 11 em campo, 11 meninos descalços contra a lenda do Butantã. Não se sabe se foi por conta da humildade dos desafiadores ou se o Grêmio não levou a sério o jogo, mas, aqueles guris ganharam do Grêmio pelo placar de quatro x um isso garantiu o Udiney no elenco do Grêmio e mais alguns meninos. Isso me fez acreditar que a vida nada mais é, que um tapete, todos os pontos traçados em combinação, numa maçante e repetida sequência de pontos e ligações, no fim o resultado uniforme, tal e qual a vida. Quando eu era um guri, ia pro campão pra ver os caras mais velhos jogar no Grêmio, sonhava com o tempo que eu vestiria aquela gloriosa camisa, feito o Udiney, a diferença é que, o Udiney era o cara mais velho que eu assistia. Só não me sentava na casinha como ele, assistia da escada que levava ao campo de cima. Era uma época anterior aos bailes e muitas vezes, deixávamos de assistir os nossos clubes no Morumbi ou no Pacaembu, só pra ver os gênios do Grêmio jogar. Os meus amigos chamavam de as 4 estrelas, por consideração a eles, batizei o título assim, mas eu chamava de "Os 3 mosqueteiros e Darthagnan", muitos jogadores compuseram a temida esquadra, mas a base, a espinha dorsal eram esses 4: O Levi era o centro avante, leve e com recursos, tinha estilo e sabia se posicionar, o que ele não tinha era regularidade. Era o "Ai Jesus das meninas", a aparência física o ajudava muito, dizem que as meninas faziam fila e ele não perdoava. Mas, no campo tirava o pé e nem por decreto, dividia uma bola, pode se dizer que, ele só ia à bola boa. Por ser um jogador de meio, que foi obrigado a jogar no ataque, alternava entre um jogo perfeito, onde ele saia aplaudida e um jogo pífio, com lances perdidos, aí ele saia vaiado. O Galito era um volante diferente, chutava com os dois pés, armava jogada, defendia como zagueiro e fazia gols mais bonitos que os atacantes, eram o pulmão do time. Fora do campo, era um exemplo pra todos, passou na prova da faculdade com 13 anos. Esse era outro que cabia no meio de campo de qualquer equipe e não faria feio. Mas, o comandante desse time era mesmo o Udiney, dotado de habilidade e coração, muitas vezes, quando o time perdia, o capitão pegava a bola e, no meio de campo conversava com todos, corrigia os erros, entrava em todas e virava o jogo. Era gráfico, como o Ditinho e o Pivete e integrava o time de cima também e ainda jogava na quadra, com o seu Reginaldo e o Alones. Em campo, sua figura esguia e o cabelo alto lembrava o Falcão do Internacional de Porto Alegre, muitas vezes, nos espantava a sua visão de jogo, no ataque do adversário, ele ficava na base da barreira conversando com o atacante, parece que ele sabia o que ia acontecer, quando roubava a bola, saia com ela colada aos pés e conversando com o resto do time. A quarta estrela, e eu chamávamos de Dathagnan, era o Valdevino, que também era da gráfica. O primeiro interno a romper a barreira dos 10 segundos, diz que tinham um motor nas pernas, a velocidade era irmã da habilidade, quando o neguinho saia com a bola nos pés só tinha um endereço... o gol. Muitas vezes, o time acabara de tomar um gol, o adversário ainda comemorando, a bola era tocado pro Valdevino, sozinho, ele fintava o time todo e empatava o jogo. E a vida é uma sequencia de repetições, um dia você é o guri que sonha no outro dia você é o cara que faz o guri sonhar.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

No caminho da escola.



Quando o grupo escolar foi fechado e os internos foram transferidos pro Attiê, só foi trocado o local da baderna, pra chegar à escola se fazia necessária uma boa caminhada.
A princípio, todos seguiam a estrada da horta, beirando o lago do 24, se seguia uma estrada de barro que tinha do seu lado esquerdo a horta do japonês e do direito uma plantação de mamonas, paralela à Avenida Eiras Garcia, ao contrário da avenida, essa estrada tinha uma leve inclinação e os internos chegavam pelo fundo da escola.
O colégio tinha uma grande área geográfica, seus pavilhões eram distribuídos de forma aleatória, em alguns caso, a distancia de um pavilhão a outro não se fazia em menos de 40 minutos de caminhada.
E então, meninos do 20 ficavam parados no grande Carvalho da encruzilhada, pra esperar a turma do 11, nesse meio tempo, outras turmas se juntavam ao bando e partiam pela estrada, na hora da volta, o processo se repetia, ficavam esperando o grupo crescer do lado de fora da escola e iam de volta pros pavilhões, geralmente fazendo guerra de mamonas ou cantando, na encruzilhada do Carvalho, cada turma seguia o seu caminho.
A certa altura desse tempo, a Eiras Garcia foi pavimentada e a ordem nova era que todos tinham que ir pra escola nesse novo percurso, agora o caminho tinha que ser pela portaria do seu Felipe e seguido pela calçada que beirava a avenida, e a espera agora se dava na frente da portaria, quando a turma estava grande, partiam todos pra escola nova.
Mas, todos sabem que muito menino junto sempre dá o que não presta.
O seu Valdemar era sapateiro e morava quase vizinho ao E.D. D, alguns meninos associaram os sapatos à carne e perguntou pro homem se ele vendia carne, o homem era bruto e respondeu à altura:
_Carne é a PQP, seu filho Da...
A reação dos meninos foi imediata, muito riso e em seguida veio à galhofa, daquele momento em diante, os meninos passavam pela sapataria e gritavam “Carne" até o homem aparecer, quando ele aparecia, gritavam em couro e corriam pro E.D.D.
Já cansado de ser atormentado pelos guris, um dia armou-se de uma garrucha e ficou esperando, quando os meninos passaram, brandiu a arma no ar e mandou que eles gritassem, Tinham-se coragem.
Ouve um silêncio, os meninos enfim tinha perdido, o seu Valdemar falou poucas e boas, os meninos ouviram em silêncio, silêncio coagido.
Certo da vitória, o seu Valdemar entrou na venda, depôs a arma embaixo do balcão, a turma estava lá, parada com o sol em seus rosto.
Com a sensação de quem tinha vencido uma guerra, o homem jogou os cotovelos no balcão e olhou pro céu.
Ao vê-lo desarmado e com ar de paisagem, riram, gritaram "CARNE" e correram pra portaria.

O seu Valdemar era pai da minha grande amiga Verônica.





















No caminho da escola II

Quando se reuniam, dificilmente se podia tirar proveito do conteúdo das conversas produzidas pelos alegres internos, na grande maioria dos diálogos havia piadas sobre os amigos, cantigas sobre a comida do irmão Simão, aventuras nos pavilhões e bravatas sobre futebol.
E tendo, os internos um vocabulário próprio, com palavras que só faziam sentido pra eles, qualquer coisa que tivesse duplo sentido era recebida com um sonoro Nóóó!... E vinha depois uma enorme gargalhada, o autor da mancada era vítima de chacotas, até que se achasse um fato diferente pra se rir.
Quem sabe se, o seu Valdemar não tivesse sido tão agressivo no dia da carne e então, ele tivesse evitado os meses que sofreu na mão dos meninos do E.D. D, pois é sabido que, um apelido só pega, se o apelidado se nega a recebê-lo.
Não que os meninos fossem galhofeiros por natureza, nesse caminho que os conduzia até a escola, raramente se via algum deles que saísse da calçada e tinha, por habito, cumprimentar os adultos que moravam na avenida vizinha, pessoas como o seu Geraldo, que tinha uma horta e passava por eles com um carrinho de mão sempre carregado de verduras, o seu Pascoal ou o seu Valter, que era policial, a essas pessoas, os meninos saudava com entusiasmo de dar inveja a meninos de colégios de freiras.
Mas o caso do sapateiro acabou esfriando, talvez por conta da consideração que tinham pelo seu filho Jorge, que estudava com eles, ou talvez tenha sido porque ele, a partir de um tempo, ele não mais respondeu aos insultos dos meninos... um dia esfriou o caso e a vida voltou ao normal.
O caminho pela estrada velha de Cotia era longo, os meninos iam a bandos, uma turma aqui, outra adiante e outra mais atrás e ainda que alguns meninos nem se falassem, iam juntos. Vivendo essa aventura.
Num dia, quando o sereno mal se dissipava e já havia passado o campinho dos predinhos, ali seguia uns terrenos desocupados com mato alto, antes da última curva do Attiê, os meninos tiveram uma visão que mudaria a monotonia do caminho.
Do alto da calçada, puderam ver que do lado do casebre, que ficava numa parte mais baixa, umas folhas de bananeira se mexiam, parou, pensaram se tratar de algum bicho e passou a fazer conjecturas, a turma da frente voltou à turma de trás se juntou ao bando e as folhas, numa distancia de uns vinte metros, se mexeram mais forte.
Pra espanto dos meninos, algum já se armara com pedras e paus, um homem se levanta da moita, as calças arriadas e como estava de costa pra pista, exibiu sua nádega muito branca pra plateia que havia se formado.
Depois do espanto e da especulação, havia menino que não acreditava naquilo, aquilo não podia estar acontecendo, alguns se sentaram na guia para poderem rir.
Ora, se fossemos adultos, viraríamos as caras pro outro lado e seguiríamos nossos caminhos o caso seria brevemente esquecido... mas qual, a coisa tomou proporções gigantescas, os que viram, contaram pros que não viram e o assunto dominou acima de todas as matérias que foram dadas na escola, naquele dia.
Na saída, todos que não viram ficaram sabendo da casa que se tratava e estava vazia, pararam ali e alguém gritou:
_Ô. BUNDA.
No dia seguinte, o homem estava em casa, lá de cima os meninos começou a gritar BUNDA, o homem abaixou-se e pegou umas pedras e as lançou contra eles, desviando das pedras, os meninos insistiram BUNDA e correram pra escola.
Como eram meninos de fanfarra e sabiam marchar, na saída, passaram em frente a casa em passo de desfile e cantando em tom marcial:
_Tá gá dá gá dá BUNDA Tá gá dá gá dá BUNDA Tá gá dá gá dá BUNDA.

Irritado, o homem se arma com um porrete e corre atrás do bando.

sábado, 22 de agosto de 2015

No caminho da escola.


Quando o grupo escolar foi fechado e os internos foram transferidos pro Attiê,só foi trocado o local da baderna, pra chegar na escola se fazia necessário uma boa caminhada.
À princípio, todos seguiam a estrada da horta, beirando o lago do 24, se seguia uma estrada de barro que tinha do seu lado esquerdo a horta do japonês e do direito uma plantação de mamonas, paralela à avenida Eiras Garcia, ao contrário da avenida, essa estrada tinha uma uma leve inclinação e os internos chegavam pelo fundo da escola.
O colégio tinha uma grande área geográfica, seus pavilhões eram distribuídos de forma aleatória, em alguns caso, a distancia de um pavilhão a outro não se fazia em menos de 40 minutos de caminhada.
E então, meninos do 20 ficavam parados no grande Carvalho da encruzilhada, pra esperar a turma do 11, nesse meio tempo, outras turmas se juntavam ao bando e partiam pela estrada, na hora da volta, o processo se repetia, ficavam esperando o grupo crescer do lado de fora da escola e iam de volta pros pavilhões, geralmente fazendo guerra de mamonas ou cantando, na encruzilhada do Carvalho, cada turma seguia o seu caminho.
À certa altura desse tempo, a Eiras Garcia foi pavimentada e a ordem nova era que todos tinham que ir pra escola nesse novo percurso, agora o caminho tinha que ser pela portaria do seu Felipe e seguido pela calçada que beirava a avenida, e a espera agora se dava na frente da portaria, quando a turma estava grande, partiam todos pra escola nova.
Mas, todos sabem que muito menino junto sempre dá o que não presta.
O seu Valdemar era sapateiro e morava quase vizinho ao E.D.D, alguns meninos associaram os sapatos à carne e perguntou pro homem se ele vendia carne, o homem era bruto e respondeu à altura:
_Carne é a PQP, seu abusado.
A reação dos meninos foi imediata, muito riso e em seguida veio a galhofa, daquele momento em diante, os meninos passavam pela sapataria e gritavam"Carne" até o homem aparecer, quando ele aparecia, gritavam em couro e corriam pro E.D.D.
Já cansado de ser atormentado pelos guris, um dia armou-se de uma garrucha e ficou esperando, quando os meninos passaram, brandiu a arma no ar e mandou que eles gritassem, se tinham coragem.
Ouve um silêncio, os meninos enfim tinham perdido, o seu Valdemar falou poucas e boas, os meninos ouviram em silêncio, silêncio coagido.
Certo da vitoria, o seu Valdemar entrou na venda, depôs a arma embaixo do balcão, a turma estava lá, parada com o sol em seus rosto.
Com a sensação de quem tinha vencido uma guerra, o homem jogou os cotovelos no balcão e olhou pro céu.
Ao vê-lo desarmado e com ar de paisagem, riram, gritaram "CARNE" e correram pra portaria.
O seu Valdemar era pai da minha grande amiga Verônica.